A Delegada Sindical do SINAIT e Auditora Fiscal do Trabalho aposentada Carmem Cenira Pinto Lourena Melo participou do encontro com síndicos e administradores de condomínios para tratar do Trabalho Doméstico Decente e da fiscalização que será realizada em setembro, em Santos (SP), nesta área. O evento, realizado pela a Gerência Regional do Trabalho e Emprego de Santos (GRTE/Santos), ocorreu no Auditório da Receita Federal, na sexta-feira, 28 de agosto, e reforçou como os condomínios podem prevenir a discriminação de trabalhadores domésticos.
Dados apresentados pela Auditora Fiscal apontam que a maioria dos trabalhadores domésticos é formada por mulheres, sendo que cerca de 65% a 73% delas são negras. Segundo Carmem Cenira, muitas atuam sem formalização e sem os direitos garantidos pela legislação, como se ainda vivessem no Brasil Colônia. “A ilusão de que a trabalhadora é ‘quase da família’ funciona como uma barreira afetiva que mascara a exploração e retarda a busca por direitos trabalhistas”, afirma.
Para a Auditora Fiscal, a lógica escravagista contribui para a perpetuação desse cenário, desde a chamada “abolição inacabada” até os dias atuais. “As mulheres negras foram empurradas para a informalidade e para a prestação de serviços braçais sem amparo legal”, lembra.
A partir de 2013, novos direitos foram assegurados à categoria. Em 2015 foi publicada a Lei Complementar nº 150, que dispõe especificamente sobre o contrato de trabalho doméstico. Antes a Convenção 189 da OIT já estabelecia parâmetros para o trabalho doméstico decente. O Brasil ratificou a convenção em 2018. “Legislações à parte, o que se precisa entender de uma vez por todas é que o trabalho doméstico é um trabalho protegido por lei, que garante direitos trabalhistas, à segurança e à saúde das trabalhadoras”, reforça a Auditora Fiscal.
Carmem ainda parabenizou a Auditoria Fiscal do Trabalho por estar mais atenta a fiscalização desta categoria profissional. Segundo ela, esta fiscalização é mais difícil, mas necessária para reduzir as desigualdades sociais e aproximar esses trabalhadores e trabalhadoras do verdadeiro Estado Democrático do Direito. “A Auditoria Fiscal do Trabalho já fez muito combate ao trabalho análogo à escravidão rural e urbano e agora tem feito e fará pelo doméstico”, finalizou.
A Delegada Sindical terminou sua fala com uma poesia sobre a mulher negra, que estará no seu quinto livro:
Poesia: Mulher Negra de Carmem Cenira
MULHER NEGRA
Quem é a mulher negra hoje?
É a mesma
Da escravidão
Importante
Força de trabalho
Resistência
Contra o racismo
Carrega nas costas
A tríplice discriminação
Raça, classe, sexo
É a chefe de família
Sustenta pais,
Filhos e irmãos, tal como
Na desumana escravatura
Era a escrava do eito
A encorajar o companheiro
Para fugas ou rebeliões
Trabalhava de sol a sol,
Mal alimentada e,
Grávida, às vezes
Preferia a morte
A ter um filho a mesma sorte
Era a mucama da casa grande
A amamentar os filhos da “sinhá”
Ainda saciava a lascívia do “sinhô”
Após, bem extenuada,
Voltava ao cuidado
Na senzala com os seus
A mulher negra sem possibilidades
De novas alternativas
E oportunidades
Viu portas se fecharem
A sua frente
Sobrou-lhe a prestação
De serviços domésticos
Ou de trabalhos
De vil remuneração
Impondo-se-lhe
Uma certa inferioridade
Que ela procura, por ser forte
Não internalizar
À mulher negra: respeito
Valorização, dignidade
Chega de preconceito
Ela é tenacidade, sobrevivência
Desde que atravessou
O Atlântico, enfrentou
Tempestades, trovões
Raios, tufões, açoites
Intermináveis dias e noites
Uma brutal selvageria
Uma violência inominável
Para a qual não há
Reparação que baste!