Chacina de Unaí – Sindicato e famílias exigem conclusão do caso em ato na frente do TRF1, em Brasília


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
24/01/2018



Da mobilização participaram Auditores-Fiscais do Trabalho de todo o país, sedentos para que a justiça seja feita em episódio que marcou a categoria e a sociedade


Por Dâmares Vaz


Edição: Nilza Murari


O Sinait, familiares e Auditores-Fiscais do Trabalho de todo o país exigiram o julgamento dos recursos dos condenados da Chacina de Unaí, em protesto nesta quarta-feira, 24 de janeiro, em frente ao Tribunal Regional da 1ª Região – TRF1, em Brasília. Na corte tramita a apelação dos mandantes do crime, Antério e Norberto Mânica, e dos intermediários Hugo Alves Pimenta e José Alberto de Castro, cujo ponto principal é o pedido de realização de um novo julgamento. A análise dos recursos pelo TRF1, com a confirmação da sentença, garantiria finalmente o encarceramento dos assassinos – saiba mais aqui.


Para o Sindicato, é fundamental que o Tribunal ratifique as penas do Tribunal do Júri de Belo Horizonte (MG), que em 2015 condenou cada um dos criminosos a quase 100 anos de prisão. Em seu pronunciamento, o presidente do Sinait, Carlos Silva, registrou a sede por justiça e a obstinação dos Auditores-Fiscais do Trabalho e da sociedade para que o caso tenha finalmente um desfecho. “E uma conclusão que o próprio Estado, a sociedade e, acima de tudo, as famílias, anseiam e merecem.”


Um ponto final na história, com o cumprimento das sentenças, é o que as famílias querem. Viúva do Auditor-Fiscal Nelson José da Silva, Helba Soares relatou o drama que continua a viver em Unaí, onde ainda mora. “Encontro com os assassinos a todo momento e tenho que baixar minha cabeça, porque também corro riscos. O que espero é justiça, que a justiça venha como a aurora, clareando as trevas da impunidade, até ser dia claro para todos.”


Seu maior medo é da impunidade, por causa do poderio dos Mânica, que vivem “como se nada tivesse ocorrido, crescendo financeiramente, politicamente, elegendo inclusive os candidatos que querem”, registrou. Helba diz que não sairá da cidade até que o julgamento seja concluído. “Esperamos justiça para finalmente enterrarmos nossos mortos e seguirmos nossas vidas”, afirmou.


Marinês Lina de Laia, viúva de Eratóstenes de Almeida Gonsalves, recordou como o dia 28 de janeiro de 2004 estava bonito e claro. Sua casa estava em polvorosa com os preparativos do aniversário da filha. “Foi quando chegaram dois colegas do meu marido com a notícia mais triste da minha vida. Pensei que eles tinham vindo buscar algum documento esquecido pelo Eratóstenes. Naquela quarta-feira, período de férias escolares, faltando quinze dias para o aniversário de seis anos da minha filha, nos preparativos para um momento de muita alegria, tocou a campainha e veio a notícia do assassinato.”


Ela diz que hoje consegue falar do episódio sem chorar. Embora a dor tenha arrefecido, Marinês reforça que o crime nunca será esquecido. “Não vou desistir da minha busca por justiça. Quem me dera no próximo ano não ter que vir aqui de novo para clamar por punição aos assassinos. O que queremos é colocar um ponto final nisso tudo. Que em 2019 nosso ato seja de comemoração”, afirmou.


Agressão ao Estado brasileiro


O presidente do Sinait enfatizou que a Chacina de Unaí não marcou somente a Auditoria-Fiscal do Trabalho. “Esse crime foi uma das maiores agressões ao Estado brasileiro, porque atingiu quem, em nome do Estado, agia para assegurar o direito à dignidade conferido pela Constituição a todos os trabalhadores desse país.”


Para o dirigente, é imprescindível que o Judiciário garanta o cumprimento da justiça no caso, decidindo com celeridade sobre os recursos e mandando os criminosos para a cadeia. “Magistrados, procuradores, enfim, todos os agentes públicos, também podem se tornar alvo de pessoas como os Mânica. Todos nós representantes do Estado, quando agimos para garantir o cumprimento da lei, incomodamos criminosos como os irmãos Mânica. No fim, é como se todos nós tivéssemos levado aqueles tiros.”


Em sua avaliação, o tempo decorrido desde o crime, sem a devida punição dos assassinos, é um acinte à justiça. “Quatorze anos é um absurdo, é tempo demais, fere mais ainda a vida de todos nós. Falo isso considerando acima de tudo a dor das famílias dos nossos colegas, privadas da existência deles. Apesar disso, creio que os Auditores-Fiscais do Trabalho assassinados estão aqui conosco, nunca sairão daqui, das nossas cabeças, dos nossos corações, das nossas vidas e de todas as nossas lutas, e é isso que nos traz aqui mais uma vez”, afirmou. Invocando a presença dos colegas, fez a chamada dos nomes de Ailton, Eratóstenes, João Batista e Nelson, ao que todos responderam: PRESENTE!


Apesar de tudo, Carlos Silva manifestou sua esperança em ver a justiça concretizada. “Precisamos acreditar nisso, na humanidade dos desembargadores, que não têm o coração frio dos assassinos e saberão enxergar o sofrimento das famílias e devolver-lhes a dignidade. Julguem rápido, mantenham as penas e mandem os criminosos para a cadeia”, finalizou, convidando a todos para os atos que ocorrerão nos estados na próxima semana, de 29 de janeiro a 2 de fevereiro, organizados pelas Delegacias Sindicais do Sinait.


A impunidade mata


Emocionada, a vice-presidente, Rosa Maria Campos Jorge, afirmou que a cada ano, nessa data, se renova sua indignação pela impunidade dos mandantes e intermediários. “Quero perguntar aos senhores desembargadores quanto tempo mais nos farão esperar. A impunidade também mata.”


Ela relembrou uma conversa entre os mandantes e os executores que faz parte dos autos do processo, em que os executores, ao se depararem com as quatro vítimas, chegaram a questionar a ordem para o crime, anteriormente direcionada ao assassinato de um só Auditor. “Nesse momento, o mandante respondeu friamente para matar todos, com a expressão ‘tora tudo’, num total desprezo à vida”, apontou.


Rosa Jorge descreveu ainda outro episódio que demonstrou a certeza de impunidade dos mandantes. Depois da condenação em 2015, no Tribunal do Júri de Belo Horizonte, os Mânica e seu advogado Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay, foram para um restaurante caro da capital mineira comemorar o resultado. Questionado por um jornal mineiro por que estavam comemorando, Kakay respondeu que celebravam porque o processo ia para Brasília, a tribunais sobre os quais teria influência. “Kakay disse que os tribunais em Brasília seriam a ‘sua praia’. Senhores desembargadores, o que significa isso, que história é essa de os tribunais em Brasília serem a praia do advogado?”, questionou a vice-presidente.


Para ela, é importante que o Judiciário entenda que os Auditores-Fiscais do Trabalho, as famílias e a sociedade não aceitarão a impunidade dos mandantes e intermediários. “Repudiamos essa vergonha, queremos justiça já. Esses assassinos são covardes, não quiseram nem sujar as próprias mãos, pagaram alguém para fazer o servicinho sujo para eles. Queremos que sejam presos e só vamos parar quando estiverem na cadeia.”


Ao final do Ato Público o Sinait soltou 14 mil balões pretos em frente ao TRF1, simbolizando os 14 anos da Chacina, que se completarão no próximo domingo, 28 de janeiro. Eles representam o luto que a categoria e os familiares ainda vivem em razão da impunidade dos mandantes. Essa é a realidade das famílias desde o fatídico dia do crime de assassinato dos Auditores-Fiscais do Trabalho Eratóstenes de Almeida Gonsalves, João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva e do motorista do Ministério do Trabalho Ailton Pereira de Oliveira.

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