Na mídia – Colunista da Folha denuncia ataque a direitos sociais e trabalhistas


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
27/03/2015



Em sua coluna publicada às quintas-feiras no jornal Folha de São Paulo, Guilherme Boulos denunciou no dia 26 de março o que ele considera ser uma “guerra aos trabalhadores e aos direitos sociais”, segundo ele, declarada pelo PMDB. O artigo foi intitulado “Querem acabar com a CLT”. 


Entre as ações que o colunista relata como nocivas à sociedade ganhou destaque a intenção de votar rapidamente o Projeto de Lei 4.330/2004, que aprova a terceirização em todas as etapas de produção nas empresas. Atualmente, a terceirização de mão de obra é permitida apenas para atividades meio. Para ele, a aprovação do PL como está será o mesmo que acabar com a CLT, pois desconstituirá, de uma só vez, vários direitos trabalhistas. 


Boulos lista as perversidades que a aprovação do projeto acentuará no mercado de trabalho, afetando diretamente os trabalhadores: enfraquecimento da ação sindical, piores condições de trabalho, rebaixamento de salários, maiores jornadas de trabalho. O Sinait destaca também os acidentes de trabalho, dos quais os trabalhadores terceirizados são as principais vítimas. 


Uma ampla mobilização, na opinião do colunista, é urgente para barrar a aprovação deste e de outros projetos prejudiciais a direitos trabalhistas e sociais. 


Guilherme Boulos é formado em Filosofia e membro do Movimento dos Trabalhadores Sem-Teto - MTST, escreve sobre movimentos populares e reforma urbana às quintas-feiras no jornal Folha de São Paulo. 


Leia o artigo: 


26-3-2015 – Folha de São Paulo


Querem acabar com a CLT 


Guilherme Boulos 


O PMDB declarou guerra aos trabalhadores e aos direitos sociais. Resolveu aproveitar o clima de incerteza política para enfiar um pacote de maldades na pauta do Congresso Nacional. 


O enfraquecimento do governo Dilma fez Renan Calheiros e Eduardo Cunha se arvorarem como donos da República. Resta saber com que autoridade moral. Os dois peemedebistas são investigados na Lava a Jato e a aprovação do Congresso –presidido por eles– consegue ser pior que a do governo, 9% da população.


Mesmo assim partiram pra cima. 


Primeiro Cunha deu celeridade à PEC 352/13 da contrarreforma política. Utiliza-se hipocritamente do sentimento contra a corrupção para aprová-la. É quase como milhares irem às ruas contra o preço da batata e, em resposta ao clamor popular, o Congresso aprovar uma taxação de 200% sobre a produção de batatas. 


A PEC, chamada sarcasticamente por ele de reforma política, na verdade regulamenta a corrupção ao enxertar na Constituição Federal o financiamento empresarial das campanhas eleitorais, fonte notória de 11 entre 10 esquemas. 


A Câmara resolveu também na última semana recuperar a PEC 171/93 de redução da maioridade penal, paixão antiga dos conservadores, que querem jogar o fracasso da política militarizada de segurança pública nas costas de crianças e adolescentes. 


O número da PEC não poderia ser mais apropriado: 171. É de fato um estelionato político para "solucionar" o problema da violência urbana. 


Nesta semana, Renan Calheiros resolveu também mostrar as garras e colocou na pauta do Senado a famigerada lei antiterrorismo, o PLS 499/13. Levantado no período da Copa e engavetado por pressão popular, o projeto é um ataque frontal ao direito de manifestação. 


Sob o pretexto de combater o terrorismo, abre espaço para criminalização dos movimentos sociais, por conta de suas definições genéricas e penas duras. 


Estes três casos – contrarreforma política, redução da maioridade penal e lei antiterror – receberam alguma atenção da mídia e já têm suscitado reações populares, embora ainda insuficientes para barrá-los. 


Mas há um outro ataque, de extrema gravidade, que praticamente não tem recebido atenção nenhuma. É o caso do PL 4330/04, que Eduardo Cunha pretende colocar em votação na Câmara nas próximas semanas.


Na surdina, querem acabar com a CLT. O projeto de lei libera a terceirização para todas as atividades, precarizando as relações trabalhistas e atacando a organização sindical. 


Atualmente, a terceirização só é permitida para atividade-meio das empresas, sendo vetada para a atividade-fim. Ou seja, uma montadora de automóveis pode terceirizar o serviço de limpeza, mas não a linha de produção. 


Este limite representa uma garantia contra a precarização de salários e direitos trabalhistas. A terceirização implica a existência de empresas intermediárias de mão de obra, que impõem piores condições de trabalho, dificultam a fiscalização e a organização sindical dos trabalhadores. O PL 4330 legitima a figura do intermediário. 


Hoje cerca de 25% dos trabalhadores com carteira assinada são terceirizados no Brasil. Se o projeto for aprovado este número vai explodir. E com ele a degradação dos direitos trabalhistas. 


Dados do DIEESE atestam que o salário médio dos terceirizados é 27% menor que o dos trabalhadores diretos. Os terceirizados têm uma jornada semanal de 3 horas a mais que os diretos. E ficam menos da metade do tempo no emprego, em média 2,6 anos contra 5,8 anos dos demais trabalhadores. 


Salário menor, jornada maior e alta rotatividade. Essas são as condições que os deputados, sob o comando de Eduardo Cunha, querem impor ao conjunto dos trabalhadores do país. 


O tamanho do ataque à legislação trabalhista se mede pelo fato de que 19 dos 26 ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST) assinaram manifesto contrário ao PL 4330. Mas a bancada empresarial no Congresso não está nem aí e quer aprovar a nova lei a toque de caixa para, em tempos de crise, jogar mais uma vez a conta no colo do trabalhador. 


Sem reação popular esse e os demais projetos do pacote do retrocesso serão aprovados entre um cafezinho e outro em Brasília. Será preciso uma ampla mobilização para reverter o jogo.

Categorias


Versão para impressão




Assine nossa lista de transmissão para receber notícias de interesse da categoria.