Chacina de Unaí – Editorial


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
31/08/2013



Medidas de proteção precisam ser adotadas para evitar novas tragédias


Nove anos e sete meses após os crimes que tiraram a vida de Eratóstenes, João Batista e Nelson, Auditores-Fiscais do Trabalho, e de Ailton, motorista do Ministério do Trabalho e Emprego – MTE, a Justiça começou a ser feita.


Hoje, por volta das 2 horas da madrugada, foram lidas as sentenças que condenaram Erinaldo, Rogério Alan e William, os executores, os matadores, de nossos colegas naquele fatídico 28 de janeiro.


Foram cinco dias de julgamento. Nesse período, acompanhamos, representando a todos os Auditores-Fiscais do Trabalho do Brasil, as diversas fases do Tribunal do Júri: a formação do Conselho de Sentença, a leitura dos inquéritos, os depoimentos de testemunhas e informantes, as emocionantes informações trazidas pelas viúvas dos Auditores-Fiscais, os frios e calculados depoimentos dos acusados, e o caloroso debates entre os representantes do Ministério Público Federal e os advogados de defesa, que deram aos jurados os subsídios necessários para preferirem suas decisões.


Ao longo desses dias, a emoção foi tomando conta dos Auditores-Fiscais e familiares, que nesses quase dez anos, muitas vezes deixaram de acreditar que esse momento aconteceria.


Na quinta-feira, 29 de agosto, no meio da manhã, o choro compulsivo, incontrolável, em tom alto, irrompeu o plenário, chamando a atenção de todos, suspendendo os trabalhos por alguns minutos. Era o desabafo de Marinês, viúva de Eratóstenes, que não se conteve e desabou, precisando ser socorrida e retirada do recinto.


Manhã de sexta-feira, 30 de agosto. A acusação, representada pelo competente procurador federal Wladimir Aras, durante os debates, mostrou fotos dos Auditores-Fiscais do Trabalho no local dos crimes. Todos mortos dentro da caminhonete branca do MTE, igual àquelas que nós utilizamos para as fiscalizações rurais em todo o país.


Foi inevitável. Os Auditores-Fiscais presentes no julgamento se viram dentro daquele carro.


Nelson, o alvo dos fazendeiros de Unaí, porque realizava seu trabalho com a seriedade e firmeza que qualquer ação fiscal exige, estava no banco da frente, ao lado do motorista Ailton, com sua pasta na mão, e foi o primeiro a levar tiros na cabeça. “Só sossego quando for dado um tiro na testa de um fiscal”, foram as palavras que constam dos autos do processo, ditas por Norberto Mânica, um dos principais acusados de ser mandante dos crimes.


No banco traseiro, João Batista, que estava atrás do Nelson. A foto mostrava João debruçado, tentando se proteger, mas não teve chance de defesa. E ao seu lado, Eratóstenes, sem tempo para qualquer reação, virou o rosto para o lado direito, preso ao cinto de segurança.


Imagens fortes! Desculpem a descrição, mas jamais iremos esquecer aquelas imagens.


Por que elas não podem ser esquecidas?


Para que o Estado brasileiro, para que as autoridades do MTE, nunca descuidem da segurança de seus agentes públicos.


Para que as ações fiscais só aconteçam com o devido rastreamento e proteção dos servidores públicos.


Para que mortes anunciadas não voltem a acontecer.


“Nelson estava ameaçado de morte”. Representantes das Polícias Federal e Civil, do Ministério Público Federal e até da defesa dos réus, repetidas vezes, fizeram essa afirmação durante esta semana.


Assassinatos durante ações fiscais não podem acontecer nunca mais. Mas, para isso, medidas de proteção precisam ser adotadas. Esse é um dos ensinamentos tirados da Chacina de Unaí.


Os executores foram condenados. Resta agora o julgamento dos mandantes.


Dia 17 de setembro estaremos de volta ao mesmo plenário, para acompanhar os julgamentos de Norberto Mânica, Hugo Alves Pimenta, José Alberto de Castro e Humberto Ribeiro.


Que seja feita Justiça!


Rosângela Rassy – presidente do Sinait

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