Segundo ele, a profissão de Auditor Fiscal do Trabalho terá muito trabalho pela frente, para fiscalizar a nova economia movida por máquinas
Ao palestrar sobre o impacto da inteligência artificial no futuro do mundo do trabalho, nesta quarta-feira, 17 de setembro, no 42º Encontro Nacional dos Auditores Fiscais do Trabalho, o pesquisador, neurocientista e colunista da Folha de São Paulo, Álvaro Machado Dias, deixou um recado aos Auditores Fiscais do Trabalho: a profissão é importante e terá muito trabalho pela frente para fiscalizar a nova economia movida por máquinas.
O palestrante definiu os últimos meses como "absolutamente transformadores" para a IA. Ele citou dois marcos recentes: a capacidade de um sistema de IA de resolver um dos problemas matemáticos mais antigos da história, o de Navier-Stokes, que valeu US$ 1 milhão (prêmio que será pago a 10 mil agentes de IA que trabalharam por 88 horas para chegar ao resultado), e a chegada dos algoritmos de raciocínio, que mudaram a IA de um "papagaio estocástico" para uma máquina que pensa em etapas, como quem joga xadrez.
De acordo com o estudioso, o debate sobre IA substituir empregos é, muitas vezes, importado dos Estados Unidos, onde os empregos são pouco regulados. “No Brasil, a lógica é outra: a IA pode automatizar tarefas, mas o emprego é uma estrutura regulada que não desaparece tão facilmente”, explicou.
Como exemplos citou que surgiram terapias com IA, e ele é a favor. Mas o Conselho Federal de Psicologia regula a profissão, e um chatbot não tem registro profissional. Isso vale para a medicina — um robô cirúrgico não tem CRM. Ou seja: a IA executa tarefas, mas o emprego regulado que protege a profissão continua existindo.
Na visão dele, nenhuma das categorias profissionais que conhecemos deve desaparecer nos próximos 20 anos. Mas boa parte será enxugada de maneira drástica. O alvo principal é a gerência média, cargos bem remunerados e repetitivos, e o grande gargalo será a formação: “Se você não tem estagiário, como forma o próximo advogado?”
Foi nesse ponto que ele se voltou aos Auditores Fiscais do Trabalho. Disse que a profissão dos Auditores é importante e não vai acabar — pelo contrário, eles terão trabalho pela frente para fiscalizar um mundo onde agentes de IA passam a executar tarefas produtivas de forma cada vez mais autônoma e opaca.
De acordo com o pesquisador “a regulação e a fiscalização serão o contrapeso humano dessa nova economia”, argumentou.
Diferença entre tarefa, trabalho e emprego
Para Álvaro, entender a diferença entre tarefa, trabalho e emprego é essencial para não cair em previsões apocalípticas.
Tarefa é aquilo que é feito e tem sentido útil e prático — responder um e-mail, montar uma planilha, atender uma ligação. Sozinha, uma tarefa não gera valor econômico completo.
Trabalho é o conjunto de tarefas encadeadas que passa a ter valor econômico. Várias tarefas organizadas, juntas, produzem algo que alguém paga por isso.
Emprego é a estrutura regulamentada, com vínculo, direitos e regras — o contrato, a carteira, a regulamentação da profissão.
Segundo ele, as tarefas mais padronizadas e verificáveis tendem a ser automatizadas. Mas os erros se multiplicam quando uma máquina executa uma longa sequência de etapas. “Por que a gente não está vendo nenhum trabalho do mundo que foi substituído por IA?”, provocou, citando carros autônomos que ainda dependem de humanos em centrais de apoio.
"O trabalho de vocês [Auditores Fiscais do Trabalho] se torna mais essencial do que nunca. O Brasil está precisando muito disso, precisando muito de vocês”, concluiu o pesquisador.