Por: Cléber Nilson Amorim Junior, Auditor-Fiscal do Trabalho da SRTb/MA e autor do livro "SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO: Princípios Norteadores".
O futuro tem um coração antigo.
— Domenico De Masi
A Auditoria-Fiscal do Trabalho brasileira atravessa um de seus momentos mais emblemáticos. O ingresso de 900 novos colegas não é apenas um movimento de recomposição de quadros, mas um encontro de horizontes. De um lado, a geração que consolidou a Inspeção do Trabalho no Brasil pós-Constituição de 1988; do outro, uma nova safra de auditores que ingressa em um mundo do trabalho digitalizado e em constante mutação.
Nesse contexto, como autor e Auditor, entendo que a união dessas duas forças deve amalgamar a Segurança e Saúde no Trabalho (SST) no Brasil. A SST não deve ser vista meramente como o cumprimento de normas regulamentadoras, mas sim através de seus princípios norteadores: a prevenção intrínseca, a dignidade da pessoa humana e a precaução. Para que esses princípios se traduzam em eficácia, precisamos construir pontes de sinergia geracional e cognitiva entre os novos auditores e os veteranos.
Nessa linha de pensamento, Domenico De Masi aponta que, no passado, aprendia-se uma profissão e esse saber era suficiente para exercê-la até a aposentadoria. Hoje, o desafio é o aprendizado constante (lifelong learning), a busca voluntária, proativa e contínua pelo conhecimento. Para a nossa carreira, isso exige o desenvolvimento de uma aguda flexibilidade cognitiva: a capacidade de abandonar a rigidez de pensamentos sedimentados para abraçar a complexidade das novas relações laborais e de suas inovações — como a Indústria 5.0, os Digital Twins (Gêmeos Digitais), a Inteligência Artificial Generativa e Analítica, o trabalho híbrido (Anywhere Office) e a agenda ESG (Environmental, Social, and Governance), que se tornou uma métrica de inovação na gestão.
Essa evolução é potencializada pela rica heterogeneidade dos novos auditores, egressos das mais diversas áreas de formação. Essa multidisciplinaridade não é apenas um detalhe curricular; é um ativo estratégico que permite à Inspeção do Trabalho enxergar o fenômeno do trabalho sob múltiplos prismas simultâneos. Sob essa ótica, a sinergia na nossa carreira exige estratégias deliberadas que valorizem esse capital intelectual, como elencadas a seguir:
Primordialmente, a mentoria mútua (reverse mentoring). A transmissão de conhecimento deve ser uma via de mão dupla. Enquanto os veteranos orientam sobre a sensibilidade nas abordagens de campo e o lastro jurídico, os recém-chegados compartilham o domínio de novas tecnologias e visões acadêmicas de suas áreas de origem. Essa dinâmica remete à narrativa do filme Os Estagiários, onde a experiência em relações humanas une-se à agilidade tecnológica para gerar soluções inovadoras. É o encontro entre o "olhar clínico" tradicional e a precisão do diagnóstico digital. Afinal, a Inteligência Artificial processa dados em milésimos de segundo, mas só a vivência permite sentir o peso do silêncio de um trabalhador explorado ou o calor de uma fornalha.
Ademais, a comunicação aberta e a transdisciplinaridade. A SST exige rigor técnico, mas sua aplicação prática depende de um diálogo fluido entre diferentes saberes. Ao acolhermos um novo colega psicólogo ou engenheiro, permitimos que a análise de um acidente de trabalho deixe de ser estritamente normativa para se tornar integral, alcançando desde a falha mecânica até os fatores psicossociais e organizacionais relacionados ao acidente. Promover espaços onde essas vozes se cruzam sem preconceitos elimina ruídos institucionais e fortalece nossa atuação frente às empresas.
Outrossim, os projetos multigeracionais em SST. A formação de grupos de trabalho mistos permite que diferentes perspectivas colidam de forma criativa. Projetos que combinam a base principiológica da segurança com a modernização dos métodos de controle geram resultados tecnicamente inatacáveis. É aqui que a flexibilidade cognitiva se materializa: na capacidade de um auditor aprender a "linguagem" técnica do colega de outra formação para construir um auto de infração ou um relatório técnico mais robusto.
Por fim, a valorização das diferentes janelas de observação. Devemos reconhecer que a diversidade geracional e de formação é um ativo de proteção social. A prudência garantida pelos veteranos serve de lastro para o ímpeto renovador e a agilidade dos novos Auditores.
Em suma, a Auditoria-Fiscal do Trabalho é um corpo único, cujas células se renovam para manter o organismo vivo e resiliente. Ao unirmos a solidez dos princípios que norteiam nossa doutrina com a energia e a multiplicidade de saberes da nova geração, garantimos que a Inspeção do Trabalho permaneça como a última barreira contra a precarização.
Portanto, o fortalecimento da nossa carreira passa, necessariamente, pela nossa capacidade de aprendermos uns com os outros, em um processo de educação continuada que honra o passado e abraça a inovação. Ao valorizarmos as diferentes janelas pelas quais enxergamos o mundo, garantimos que a Inspeção continue sendo o baluarte de justiça social e dignidade humana em nosso país.
Referências Bibliográficas: