37º Enafit – Pesquisa e estudo produzirão diagnóstico para traçar o futuro da Inspeção do Trabalho


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
22/11/2019



Por Andrea Bochi


Edição: Nilza Murari 


O tema do segundo painel do dia 21 de novembro destacou o estudo sobre a Inspeção do Trabalho e o atual perfil dos Auditores-Fiscais do Trabalho. Para apresentar a proposta do SINAIT aos participantes do 37º Encontro Nacional dos Auditores-Fiscais do Trabalho - Enafit participaram da exposição o diretor da entidade, Bob Machado, a pesquisadora do Centro de Estudos Sindicais e Economia do Trabalho – Cesit/Unicamp Paula Freitas de Almeida e o Psicólogo Clínico e do Trabalho, Cristiano Costa da Silva, que integram a equipe que elabora o trabalho. 


De acordo com Bob, que coordena o projeto, a intenção foi a de levar à categoria a preocupação com o momento por que passa a Auditoria-Fiscal do Trabalho. Ele ressaltou que toda a evolução conquistada pela carreira se deve à luta coletiva e pelos valores individuais de cada um dos Auditores-Fiscais e pelas associações que representaram a categoria. “Temos hoje um movimento de desfiliação, mas para que possamos nos manter no patamar em que estamos hoje, de valorização do trabalho que prestamos para a sociedade, é fundamental que estejamos unidos e fortalecidos”. 


As transformações tecnológicas que ocorrem no mundo estão impactando significativamente nas relações de trabalho. Nos próximos anos essa situação deverá se agravar com mais profundos avanços tecnológicos, que poderão promover maior redução de postos de trabalho. Sempre com uma visão de futuro, o SINAIT, para não ser um mero observador, formou dois grupos de trabalho e passou a incumbência dessa tarefa de produzirem dois estudos. Na primeira perspectiva, se dedicará a pensar e refletir as questões internas da Inspeção do Trabalho, questionando sobre as angústias, destacando as potencialidades e, a partir daí, traçar uma nova visão de mundo. Esse estudo pretende preparar a carreira para os desafios imediatos. 


Na segunda ótica, pretende coletar dados para um diagnóstico de quem é o Auditor-Fiscal do Trabalho em atividade no País. Quais são suas motivações para o ingresso na carreira, sua relação com a Auditoria-Fiscal do Trabalho, a Administração e o Sindicato Nacional, sua carga de trabalho, preferências, entre outras informações. A intenção é projetar o futuro para entendermos um pouco mais sobre como essa tecnologia impactará no mundo do trabalho e propor à sociedade brasileira, por meio da administração ou do Congresso qual será a inspeção necessária para o Brasil nos próximos anos. 


Para o psicólogo Cristiano Costa, que já participou de projetos de organização de outras carreiras do serviço público federal, as pessoas se envolvem mais com aquilo que elas ajudaram a construir. Por isso, pediu a todos que participem respondendo ao questionário que será encaminhado a todos os Auditores-Fiscais, filiados ou não ao SINAIT. “Este é o ponto principal da nossa demanda em relação aos integrantes da carreira. Quando você se enxerga naquilo que está lendo, é muito mais fácil”, avaliou. 


Para ele, tem um significado muito diferente quando se imprime dados estatísticos a uma informação sobre a carreira, em vez de os dados surgirem das próprias demandas dos Auditores-Fiscais. Além disso, poder construir com base nas necessidades e especificidades da carreira, que atua nas diversas regiões e municípios do país. 


Então, trata-se de uma pesquisa quantitativa, de natureza aplicável com procedimentos e levantamentos amostráveis, com aplicação de questionário respondido via internet ou formulários impressos. 


Ter uma consciência de como é percebido pelos outros é decisivo, segundo Cristiano, para o enfrentamento que as carreiras precisam realizar. “Nós queremos que a persona do Auditor venha até nós. O trabalho de pesquisa deverá compor uma identidade coletiva para que o Auditor possa ser reconhecido dentro da sociedade”, apontou. 


Muitas vezes, segundo o psicólogo, se extrai informações importantes sobre a carreira da conversa informal que precisa de um endereçamento mais adequado. No questionário, há vários quesitos que investigam a autoridade trabalhista. O papel estratégico e os cuidados que as carreiras precisam ter sobre o gerenciamento da imagem. 


Futuro da Inspeção do Trabalho


Na palestra seguinte, a pesquisadora Paula Freitas reiterou que a expectativa é construir, em conjunto com os integrantes da carreira, um estudo que nos permita entender as peculiaridades que estão sendo despejadas sobre a Inspeção, para que possa se antecipar na medida do possível em movimentos de resistência contra o avanço dessas reformas. 


De acordo com ela, é preciso contar com o envolvimento não só das lideranças do Sindicato, mas também e principalmente, com a força social da Inspeção, que é o instrumento formado pelos Auditores-Fiscais do Trabalho. É importante unir esforços para conter esta opressão. 


Em termos de conjuntura, a pesquisadora falou sobre o neoliberalismo. Ela lembrou que 1% da população concentra mais do que a riqueza dos outros 99%. A integração da economia dos estados nacionais não se dá na mesma dimensão de empresas multinacionais na década de 1980, pois houve uma evolução para as chamadas cadeias globais de valor e produção, onde temos uma modificação de um referencial mundial de modo de produção. “Não temos mais empresas nacionais, mas empresas fragmentadas em etapas de produção concatenadas com a forma produtiva dos países. Infelizmente, no caso do Brasil, as vantagens competitivas foram construídas a partir do nosso histórico escravagista, que na década de 1980 passou por uma crise que desorganizou o pouco que se tinha conquistado”, avaliou Paula. 


A revolução digital, apesar de ter sido sempre muito bem descrita do ponto de vista das tecnologias que vem desenvolvendo, tem como característica mais forte a tentativa de reproduzir as habilidades e competências humanas em unidades inumanas. Quando se fala, segundo a pesquisadora, em uma internet “Off things” não se pensa apenas na troca de dados, mas em construir algo capaz de  desenvolver a própria dialética a partir das máquinas. 


Essa revolução digital com capacidade e habilidades humanas em máquinas representa mais uma mudança no modo de produção. Países como o Brasil receberam das cadeias globais de valor as etapas de produção de investimento na mão de obra massiva e sem qualificação. Essa é a primeira a ser substituída quando se obtém máquinas capazes de realizar esse trabalho. 


Paula observou que é possível ver a China ser proprietária de fábrica de têxtil nos Estados Unidos sem nenhum trabalhador, com a capacidade de monitorar e controlar remotamente da própria China. Isso porque é lá que está acontecendo o desenvolvimento das tecnologias. As etapas que não exigiam um padrão maior de excelência foram exportadas para outros países que historicamente possuíam as colônias. 


A participação nas cadeias globais de valor no Brasil tem se reduzido substancialmente. Ela se limita à manufatura. Nos Estados Unidos e países da Europa se encontra a verdadeira inversão na produção de pesquisa, inovação e tecnologia e, portanto, é onde se concentra a capacidade de determinar o funcionamento da economia para o resto do mundo. Esta transparência tecnológica não ocorre, e quando ocorre, é controlada de modo que o país que a recebe jamais possa dar um grande salto e produzir no mesmo nível. 


“Não é com a estatística institucional forjada com a mudança das tecnologias que vocês vão conseguir justificar a existência de vocês. A redução de orçamento não permitirá à carreira a mesma capilaridade de até então. Sem a realização de concurso para repor a quantidade necessária de Auditores-Fiscais, vai reduzir a presença de vocês na sociedade, que também reduzirá a importância da carreira”, disse a pesquisadora. Portanto, é preciso entender socialmente a demanda da sociedade por uma Inspeção do Trabalho, que certamente não é a mesma de ontem. 


Paula finalizou com uma mensagem de Mahatma Gandhi:


“Houve tiranos e assassinos... E, por um tempo, eles parecem invencíveis... Mas, no final, sempre caem. Pense sempre nisto. Os fortes só o são por um instante, como o sonho de uma tarde que dura apenas um momento. No final, são sempre destroçados. São como poeira ao vento. O amor é a força mais sutil do mundo.”

Categorias


Versão para impressão




Assine nossa lista de transmissão para receber notícias de interesse da categoria.