FSM 2018 – Muita coisa acontece no território


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
16/03/2018



Por Nilza Murari


O Território do Fórum Social Mundial 2018 espalha-se por diversos espaços de Salvador (BA). A maior parte das atividades está concentrada no câmpus da Universidade Federal da Bahia – UFBA, em Ondina. Mas há atividades em outros espaços, como a Biblioteca Central Estadual, onde foi instalada a exposição fotográfica do Sinait com 32 fotos de cenas de flagrantes do trabalho escravo contemporâneo. Há ainda a Reitoria, em Campo Grande; estádios e ginásios, teatros, parques, espaços culturais e até as lindas praias da cidade.


Os eixos do FSM 2018 refletem a grande e urgente necessidade de (re)discutir tudo. De continuar discutindo tudo. Há um sentido de (re)construção. Coerente com o tema geral: “Resistir é criar; Resistir é transformar”. Afinal, a crença de todos os que participam do Fórum é de que um outro mundo ainda é possível.


O tema da escravidão contemporânea não foi uma exclusividade do Sinait, com o seminário realizado no dia 14 de março – relembre aqui. Sob muitos pontos de vista, ele foi abordado por mulheres, movimento negro, quilombolas, índios. A herança escravocrata ainda oprime e submete milhões a situações degradantes, de muitas e variadas formas.


Os movimentos de mulheres e negros estão muito presentes neste FSM. Mulher, negra. Adquiriu um tom especialmente doído a partir desta quinta-feira, 15 de março, com o assassinato da vereadora Marielle Franco, no Rio de Janeiro, na noite do dia 14. A pauta urgente da mulher negra, hoje, e sempre, é, sem dúvida, a vida, a violência, a discriminação, com contornos de imensa dor.


As atividades de quinta-feira, todas, fizeram menção e homenagens a Marielle.  Uma passeata regada a lágrimas, indignação e resistência percorreu o câmpus e as ruas de Ondina. Os relatos das mulheres negras, muitas delas companheiras de Marielle, denunciaram o feminicídio, as vítimas preferenciais, as situações de humilhação e a falta de oportunidades, a discriminação sobre os moradores de periferias e favelas. Em todo o país. O assassinato de Marielle Franco foi qualificado como extermínio de uma mulher, negra, da favela, que estava dando voz aos que, normalmente, não têm voz. Repercutiu no mundo inteiro. E por isso mesmo, inflama a continuidade da luta, a resistência. Ela foi, e agora, mais do que nunca, será um símbolo de luta.


Eixos e atividades


Nas tendas, salas de aula, teatros, gramados, estádios, parques, foram desenvolvidos temas baseados em 19 eixos temáticos. Ancestralidade, Terra e Territorialidade; Comunicação, Tecnologias e Mídias Livres; Culturas de Resistências; Democracias; Democratização da Economia; Desenvolvimento, Justiça Social e Ambiental; Direito à Cidade; Direitos Humanos; Educação e Ciência, para Emancipação e Soberania dos Povos; Feminismos e Luta das Mulheres; Futuro do FSM; LGBTQI+ e Diversidade de Gênero; Lutas Anticoloniais; Migrações; Mundo do Trabalho; Um Mundo sem Racismo, Intolerância e Xenofobia; Paz e Solidariedade; Povos Indígenas; Vida Negras Importam.


As duas atividades do Sinait inseriram-se no eixo do Mundo do Trabalho. O seminário “A quem interessa o trabalho escravo? Os Auditores-Fiscais do Trabalho combatem esse crime!” atraiu pessoas com as mais variadas formações, jovens e adultos, alguns já conhecedores do tema, outros que se surpreenderam com a riqueza de detalhes apresentada pelos Auditores-Fiscais. Agregaram experiências e relatos, quiseram saber mais.


Os materiais levados ao FSM e a participação em diversas atividades chama a atenção para o trabalho da fiscalização e amplia a rede de contatos e futuras parcerias. Cumpre o papel de integração com movimentos para fortalecer a ação sindical cidadã.


Dezenas de atividades de convergências, autogestionadas, político-culturais, assembleias, cortejos, reuniões, atos, oficinas, seminários, palestras, rodas de conversa, marchas, colóquios, tribunais, diálogos, acontecem ao mesmo tempo. Grupos e pessoas se manifestam com discursos, roupas, performances. Desde a grande Marcha de Abertura, que reuniu mais de 60 mil pessoas, e continua em todo o território do FSM.


Há expoentes do Brasil e do exterior, como os ex-presidentes Lula e Dilma, José Mujica, Cristina Kirchner, Márcio Pochmann, Emir Sader, Guilherme Boulos, Humberto Costa, Gleisi Hoffmann, entre muitos outros. As estrelas, entretanto, são as lideranças dos movimentos popular e sindical. É a vida real que é discutida e apresentada. São os problemas e as soluções. As urgências, as necessidades. A união, a resistência.


Há muita seriedade e compromisso, muito pensar. E há diversão e alegria. Por todo canto há arte, poesia, música, dança e batuque, como não poderia deixar de ser, especialmente na Bahia. Porque a luta também tem esse lado, da esperança, da alimentação da alma. Do companheirismo e da solidariedade.


No território do FSM, realmente, se vê um outro mundo. Alternativo, que não se encontra em shopping center. Artesanato, livros que não estão nas livrarias tradicionais, feira de economia solidária. Pais que participam e levam as crianças.


O Fórum Social Mundial, apesar de grande, apesar das milhares de pessoas presentes, é praticamente invisível para a grande mídia tradicional. Uma rodada pela internet mostra que apenas os jornais da Bahia noticiam alguma coisa. Ainda assim, o enfoque é o pior possível. O Globo, por exemplo, limitou-se a dizer que a Marcha de Abertura atrapalhou o trânsito na tarde de terça-feira. A visibilidade do FSM e das discussões travadas no território fica a cargo da imprensa alternativa, de sindicatos, entidades e de alguns veículos estrangeiros. Resistência e construção de um outro mundo possível não interessam ao capital. Se quer informação, o cidadão tem que recorrer à Rede Brasil Atual, Brasil 247, Mídia Ninja, TV do Trabalhador, Portal Vermelho, entre outros.

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