Chacina de Unaí – Interrogatório dá início ao segundo dia do julgamento de Hugo Pimenta


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
11/11/2015



Hugo Pimenta está sendo interrogado na manhã desta quarta-feira, 11. À tarde serão travados os debates. Veredicto deve sair no final da tarde


No início da sessão desta quarta-feira, 11 de novembro, o réu delator Hugo Alves Pimenta continua afirmando que se considera inocente. Reiterou, repetidas vezes, que Norberto Mânica teria reclamado das fiscalizações do Auditor-Fiscal do Trabalho Nelson da Silva, e um certo dia afirmou que o mataria. “Ele me perguntou se eu conhecia alguém que pudesse matar o Nelson. Eu respondi que não sabia”, relatou.


Segundo ele, José Alberto de Castro ou Zezinho, que mentiu “descaradamente” durante todo o processo, se prontificou a contratar alguém para fazer o serviço. “Dias depois, o Zezinho contatou o Chico Pinheiro e negociou com ele a encomenda do ‘serviço’”, informou. Segundo Hugo, as idas a Paracatu para organização do crime duraram cerca de dois meses.


No dia anterior ao crime, Hugo disse que não sabia de nada sobre o que estava ocorrendo, mas que quando chegou à Huma Cereais encontrou Norberto Mânica e José Alberto. Norberto teria dito que não estava preocupado com a repercussão do crime ao ser provocado por Hugo. No mesmo dia, contou ter se encontrado uma segunda vez com Norberto e Zezinho, em frente ao local onde foi para participar de leilão rural, no centro da cidade de Unaí. Eles entraram juntos, enquanto Zezinho ia se encontrar com Chico Pinheiro e os pistoleiros. “Ele reafirmou pra mim que o mundo era pequeno pra ele e o Nelson e por isso ia até o fim”, declarou Hugo.


À noite, o José Alberto teria ligado para ele e o convidado para juntar-se a ele e o “pessoal” em um bar da cidade de Unaí. Afirmou que teria se recusado a ir.


No dia do crime, disse que se encontrou logo cedo com José Alberto que contou a ele que ”todos” tinham sido mortos e em seguida disse que iria ligar para Norberto. “Eu não acreditava que isso teria acontecido. Pensava que iriam pegar dinheiro do Norberto e sumir sem efetivar o crime”. Após saber do ocorrido, relatou que passou em frente aos hospitais e postos policiais da cidade e não verificou nenhuma movimentação diferente. “Até aquele momento, a ficha não tinha caído ainda. Na hora do almoço, cheguei em casa e vi as notícias na TV que falavam do acontecido”.


Norberto ligou e perguntou como estava a situação em Unaí, ao que ele respondeu que estava uma bagunça. Segundo ele, José Alberto de Castro pediu a ele para tomar conta do descarregamento de milho na fazenda de Norberto, previsto para aquele dia.


À tarde, na empresa, ouviu de José Alberto o que teria ocorrido desde que se encontraram em frente ao local do leilão até a efetivação dos assassinatos. Disse que os Auditores-Fiscais foram à casa do Nelson para apanhá-lo e foram para a estrada e José Alberto os seguiu até certa altura. Depois, os pistoleiros seguiram sós até o local do crime.


No dia seguinte, Norberto foi à sua empresa, segundo ele, com aparência muito tranquila, sem transparecer nada e perguntou ao Hugo se tinha visto a repercussão. Dias depois, disse que Norberto precisou pagar os pistoleiros e pediu R$ 39 mil ao delator, dizendo que venderia feijão a ele como pagamento e que esse valor não deveria aparecer nos acertos rotineiros com a empresa. Hugo disse que repassou o dinheiro ao Zezinho, que por sua vez, pagou os pistoleiros.


Passados quatro meses, Hugo e Zezinho foram presos. Poucos dias depois, Norberto Mânica também foi preso. “O Norberto contratou advogados e pagou a eles 15 vezes a mais. Minha vontade era falar o que estou falando aqui, agora, mas não tive apoio”, declarou.


Segundo Hugo, ainda na cadeia, Norberto fez acertos com os executores de pagar a eles valores mais altos. O advogado, que segundo ele, era o mesmo do Norberto, tentou persuadi-lo para que o inocentasse e assumisse a culpa.


“Esse processo foi designado para Unaí e nesta situação realizamos um trabalho de delação premiada porque tínhamos certeza que haveria impunidade no caso”, disse o réu.


Nestes oito anos disse ter vindo ao Ministério Público cerca de vinte vezes. “Tudo indicava que eles sairiam impunes se o processo fosse para Unaí”. Pediu para esclarecer sobre o recibo R$ 2 mil citado por José Alberto de que teria sido encontrado dentro de seu escritório. “Se eu tivesse pagando o Chico Pinheiro não teria necessidade de passar o comprovante ao José Alberto”, defendeu-se. Para ele, o recibo estava dentro do seu escritório porque a sala ocupada por José Alberto ficava dentro da sua empresa, muito próximo à sua sala.


Ao ler o depoimento de Hugo Pimenta, o juiz citou uma gravação que ele teria prometido entregar à Justiça, onde estaria gravada conversa com Norberto, dias antes do crime, em que se comprometia a pagar os executores. Segundo ele, teria comprado o gravador para uso particular e, por acaso, estaria ligado durante a conversa entre Norberto, José Alberto e Chico Pinheiro. José Alberto, de acordo com Hugo, teria destruído o gravador e entregue a ele os destroços, que guardou e tentou recuperar a gravação, mas não foi possível.


Depois do relato inicial, o juiz Murilo Fernandes perguntou se ele considera-se inocente, já que participou de todas as fases do crime, desde a idealização até a execução. Hugo disse que é inocente porque, apesar de estar a par de tudo, não participou ativamente.


Após o interrogatório dos procuradores Miriam Lima, Bruno Magalhães e Hebert Mesquita e do advogado de defesa, Lúcio Adolfo, nesta manhã, será iniciada a fase de debate entre defesa e acusação. A previsão é de que o julgamento se encerre até o final da tarde de hoje.


A presidente do Sinait, Rosa Maria Campos Jorge, afirmou que foi solicitado ao Ministério Público Federal a desconsideração da delação premiada, cujo propósito está claramente desvirtuado, uma vez que está comprovada a participação do delator no crime, contrariando todo o seu depoimento.


A pedido da defesa de Hugo Pimenta, a imprensa não foi autorizada a fazer imagens do depoimento do réu.

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