Reunidos em frente ao prédio da Justiça Federal, em Belo Horizonte, cerca de 50 Auditores-Fiscais do Trabalho vestidos de preto, em sinal de protesto, mostraram cartazes e fizeram um ato silencioso, neste que é o último julgamento de acusado de envolvimento na Chacina de Unaí. Apesar do acidente ocorrido no município de Mariana, que causou destruições e várias vítimas, a imprensa marcou presença na cobertura do julgamento de Hugo Alves Pimenta.
O Conselho de Sentença está composto por quatro mulheres e três homens, sorteados no início da sessão, que serão os responsáveis por dar o veredicto de culpado ou inocente, provavlemente na tarde desta quarta-feira, 11 de novembro. Foram ouvidas dez testemunhas de acusação ao longo de toda a manhã e parte da tarde de terça-feira, 10.
As peças apresentadas e os depoimentos colhidos no primeiro dia de julgamento do réu Hugo Pimenta foram praticamente os mesmos utilizados pela acusação nos julgamentos anteriores. Porém, esse procedimento é necessário, uma vez que o Corpo de Sentença é diferente das demais sessões.
Depoimentos
Da mesma forma como relatou nos demais julgamentos, o Delegado da Polícia Civil, Wagner Pinto, o primeiro a depor, detalhou passo a passo as provas apuradas durante a investigação que, segundo ele, durou cerca de seis meses e apontou Hugo Pimenta como a “ponte” entre os executores e os mandantes Antério e Norberto Mânica.
O mais longo dos depoimentos, desta vez, foi o de Helba Soares, viúva do Auditor-Fiscal Nelson José da Silva, que prestou declarações como informante. O Auditor-Fiscal era o alvo principal do crime. Ela encarou o réu e o advogado dele, Lúcio Adolfo, que por repetidas vezes foi agressivo com as testemunhas e com os representantes do Ministério Público Federal – MPF.
Helba disse que seu companheiro temia os irmãos Mânicas e já havia sofrido ameaças. “O Nelson instalou cercas elétricas em volta da nossa casa e quando saíamos ele estava sempre preocupado com a nossa segurança”, declarou. “Ele dizia sempre que achava que ainda seria morto por Antério”. Ela contou que várias pessoas que de alguma forma se envolveram no fato saíram de Unaí por temerem o “Rei do Feijão”, como era conhecido Antério Mânica.
Helba contou que em certa ocasião, Celso Mânica, um dos irmãos de Norberto e Antério, teria dito num bar, com testemunhas: “Não matamos quatro homens, mas quatro cachorros”. Ela contou ainda que durante o período em que esteve na funerária, enquanto preparavam o corpo de Nelson, os réus Hugo e Zezinho (José Alberto de Castro) permaneceram em frente ao local ao longo de todo o dia. “Naquele momento, eu não me atentei para esse fato, só depois que eles foram apontados como intermediários é que lembrei que ficaram lá durante todo o dia”, declarou a viúva.
Ela reside há muitos anos em Unaí e por isso conhece boa parte da história dos réus. Helba acrescentou que Hugo enriqueceu muito rapidamente nos últimos anos e contou, ainda , que foi assediada pelo advogado do réu para que a representasse junto a justiça. “Hoje, ele tem até um avião”, afirmou.
O Auditor-Fiscal do Trabalho Joaquim Elégio de Carvalho, testemunha da acusação em todos os julgamentos dos mandantes, relatou fiscalização realizada no ano anterior ao crime, em fazendas dos Mânicas, ocasião em que ele e outros dois Auditores-Fiscais foram ameaçados por Norberto Mânica com um instrumento pontiagudo chamado calador, utilizado para coletar mostra de grãos de dentro dos sacos. “Ele (Norberto) disse que só teria sossego quando desse um tiro na testa de fiscal do trabalho”, disse.
“Quando tentei sair da sala ele bloqueou a saída e não pude passar, pois mantinha o instrumento na mão em posição de ameaça”, disse. O Auditor-Fiscal disse ter-se reportado no momento da ameaça à então chefia da Fiscalização, em Belo Horizonte, e que no auto de infração relatou a ameaça sofrida por ele e mais dois colegas Auditores-Fiscais do Trabalho.
Hellen Fernanda de Mello, que trabalhou na empresa Huma Cereais, de propriedade do delator Hugo Pimenta, contou que após o crime foi feito um depósito no valor de R$30 mil e que fugia da rotina da empresa, por isso chamou a atenção dela e do funcionário que efetuou o depósito.
Um dos investigadores, o Delegado da Polícia Federal Antônio Celso dos Santos, relatou que a polícia chegou aos intermediários José Alberto e Hugo Pimenta por meio da inteceptação das ligações feitas no dia do crime, além da localização do relógio de uma das vítimas que foi encontrado na casa de um dos matadores. “Diante das provas, os executores confessaram o crime”, afirmou.
De acordo com o Delegado, José Alberto de Castro, o Zezinho, seguiu os Auditores-Fiscais até o Trevo das Sete Placas. E de lá em diante os pistoleiros seguiram a caminhonete do Ministério do Trabalho sozinhos. Depois de desencontros, eles entraram em uma estrada vicinal e ali foi anunciado o “assalto”. Porém, sem que as vítimas tivessem a menor possibilidade de defesa, iniciaram a execução. Segundo ele, os pistoleiros contaram tudo com riqueza de detalhes, dizendo que colocaram a mão dentro do carro para dar o “confere” e por isso foram encontradas cápsulas de bala dentro da caminhonete. “O que apuramos na época foi que o Zezinho era o braço direito do Hugo”, relembrou.
Erinaldo teria dito se referindo ao “patrão”, mas deixou claro que não tratava-se do José Alberto, mas do Norberto. Para ele, havia uma relação muito próxima entre Norberto e Hugo. Hugo não só fazia a intermediação de compra e venda de grãos, mas a ligação entre ele e Norberto, segundo Antônio Celso, era bem maior. Ele esclareceu ainda que a sequência de ligações interceptadas pela polícia nunca havia ocorrido até o dia que antecedeu o crime. “Conseguimos confirmar isso durante as investigações”, afirmou.
O alvo, reafirmou Antônio Celso, era o Auditor-Fiscal Nelson. O crime deveria ter sido executado em Paracatu, mas como o encontraram acompanhado dos colegas, adiaram. O pistoleiro Erinaldo teria dito, segundo ele, que José Alberto de Castro autorizou o assassinato de Nelson e de todos que o acompanhavam.
O delegado disse que pode afirmar categoricamente que, após diligência, os investigadores conseguiram confirmar a quem pertenciam os celulares de onde partiram as ligações interceptadas. “Temos sempre esse cuidado nas interceptações telefônicas e todos os envolvidos e citados foram ouvidos”, concluiu.
João Alves de Miranda, investigador da Polícia Judiciária de Belo Horizonte, que também atuou nas investigações, relatou que quando se deparou com a cena do crime concluiu que se tratava de execução mediante emboscada. “Buscamos, então, os motivos que levaram ao assassinato dos quatro servidores”, disse.
Dentre as provas que apontam Hugo Pimenta como intermediário, o comprovante de depósito em nome do filho do agenciador Chico Pinheiro, no valor de R$ 2 mil, foi encontrado dentro do escritório do delator. “Concluímos, assim, que o depósito saiu da Huma Cereais. Segundo ele, o crime começou a ser organizado em setembro do ano anterior. “O Norberto não escondia a intenção de matar o Nelson. Não era segredo pra ninguém. Várias pessoas que abordamos afirmaram ter ouvido ele reclamar”, relatou.
Segundo João Alves, é comum crime de mando ter a figura de intermediários para que não se chegue aos mandantes. Neste caso específico foram vários os intermediários. “Nos surpreendemos quando verificamos que o Erinaldo havia ligado direto para o José Alberto. A iniciativa de matar todos não foi dos executores, mas eles foram autorizados até porque o preço seria outro”, acrescentou.
Sinait
A presidente do Sinait, Rosa Maria Campos Jorge, espera que Hugo seja condenado e declarou que para os Auditores-Fiscais e familiares das vítimas, uma etapa está cumprida porque, finalmente, depois de quase doze anos, os acusados foram julgados. “Para nós, ao serem condenados à pena máxima teriam que sair daqui presos. Infelizmente, a legislação brasileira ainda permite essa aberração, coisa que não ocorre em outros países”, lamentou a presidente
Rosa ressaltou que os Auditores-Fiscais continuarão se manifestando e pressionando para que eles cumpram as penas e que os recursos impetrados sejam logo julgados. “A sociedade clama por justiça e só sossegaremos quando eles forem presos”, afirmou.
Delação
O empresário nega participação nos assassinatos e declarou nos depoimentos aos tribunais de júri, durante os julgamentos anteriores, que Norberto é o mentor dos crimes e que não tinha conhecimento da participação de Antério na chacina, ao tentar inocentar o fazendeiro, que foi condenado na última quinta-feira, 5 de novembro, a 100 anos de reclusão. Além dele, seu irmão, Norberto Mânica, e o também empresário cerealista José Alberto de Castro, outros três acusados do crime já foram condenados, mas recorrem em liberdade.
O empresário cerealista é acusado de ter intermediado, ao lado de Castro, a contratação dos pistoleiros que mataram os funcionários do Ministério do Trabalho, a pedido de Norberto e Antério, conforme a denúncia do Ministério Público Federal.
Hugo Pimenta, que atuou como intermediário das mortes e foi delator do caso, é o último a se sentar no banco dos réus, no prédio da Justiça Federal, no bairro Santo Agostinho, região Centro-Sul da capital.
A previsão é de que o julgamento chegue ao fim já nesta quarta-feira, 11 de novembro, encerrando um processo de milhares de páginas, provas e depoimentos e muita angústia e sofrimento dos familiares amigos e colegas das vítimas.
Dirigentes do Sinait, Delegados Sindicais e Auditores-Fiscais do Trabalho de Minas Gerais acompanham o julgamento na certeza de que mais uma vez a justiça será feita.