Chacina de Unaí – Réu José Alberto de Castro confessa intermediação no crime


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
30/10/2015



O terceiro dia do julgamento dos acusados de envolvimento no crime que ficou conhecido como "Chacina de Unaí", começou por volta de 9h30 desta quinta-feira, 29 de outubro. A sessão foi marcada pelo interrogatório dos réus, Norberto Mânica e José Alberto de Castro, acusados de serem mandante e intermediário da Chacina que chocou o Brasil, com os assassinatos de quatro servidores públicos federais - três Auditores-Fiscais do Trabalho e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE.  


O ponto alto dos depoimentos foi quando José Alberto de Castro, segundo a ser interrogado, assumiu ter contratado os pistoleiros com o intermédio de Francisco Helder Pinheiro, o Chico Pinheiro. Porém, o Zezinho, como é conhecido José Alberto, disse que o único contato que teve foi com Hugo Pimenta, que solicitou o “serviço” e repetidas vezes afirmou que Norberto estaria tendo muitos problemas com o Auditor-Fiscal do Trabalho, Nelson José da Silva.


"Eu estou aqui pra assumir a minha culpa. Eu errei, eu errei, eu errei". Esta foi a frase inicial da confissão do réu. A defesa de José Alberto já havia informado que ele iria admitir a culpa no crime. Ele disse que participou das negociações com Chico Pinheiro, que morreu recentemente, e foi apontado como contratante dos matadores. E acrescentou que Hugo Pimenta, o réu delator, foi quem solicitou a contratação e pagou pelos assassinatos. “O Hugo dizia que esta era a vontade de Norberto Mânica”.


Segundo o réu confesso, o combinado era matar somente o Auditor-Fiscal Nelson, contrariando o depoimento do pistoleiro Erinaldo de Vasconcelos, que afirmou ter ligado para os intermediários informando que o Nelson estava acompanhado de outras três pessoas e ter obtido a autorização para “torar” todos.


Segundo o réu, Hugo Pimenta foi quem começou com as conversas para matar o fiscal Nelson. O réu afirmou que conhecia Hugo Pimenta, pois trabalhavam com lavoura de milho. Já com Norberto, ele disse não ter convívio. Porém, fez as ligações para a fazenda dele no dia do crime. "Eu nunca andei no carro do Norberto”, disse, buscando afastar qualquer ligação com Norberto.


José Alberto admitiu que no dia da chacina fez ligações para a fazenda de Mânica, mas para tratar de notas e carregamento de grãos de uma carga, pois intermediava a compra feita por Hugo. "Se o Norberto teve participação eu não tenho condição de falar", tentando, mais uma vez, isentar Norberto da condição de mandante.


José Alberto de Castro não soube responder qual seria o interesse de Hugo em matar Nelson, mas repetiu que ele afirmava que Norberto estava tendo problemas com o Auditor-Fiscal.


Norberto nega participação


O primeiro a ser interrogado, Norberto Mânica, sem a presença de José Alberto de Castro, negou qualquer participação no crime e disse que quem deve ser o mandante seria o Hugo Pimenta, que sabia tudo sobre os fatos que envolveram a negociação.


Com uma encenação ensaiada há mais de 11 anos, Norberto Mânica chorou em diversos momentos, se disse ser inocente e o empregador ideal. “Na minha fazenda a comida não é paga. Os trabalhadores trabalham só até umas 4 horas da tarde, porque o sol não está muito quente e depois vão pescar ou dormir e depois voltam pra janta”, afirmou Norberto. Apesar dessas afirmações, Mânica responde a ação que corre na Procuradoria Federal de Unaí em razão de várias irregularidades trabalhistas.


Durante seu depoimento, Norberto declarou que considerava Nelson um servidor austero, justo e honesto e que, apesar das multas que recebeu, segundo ele, muitas concordava por ter merecido e terem valores baixos. Todo esse relato contraria as provas de que era ódio que ele nutria, conforme registros na Subdelegacia de Paracatu de diversas ameaças de Norberto contra Nelson.


Ele confirmou os números de telefones e disse que não estava na fazenda e que quem atendeu às ligações foi a funcionária Márcia.


“Não foi ameaça, foi discussão. O escritório era pequeno e lá estavam o dr. Nelson e um outro fiscal e funcionários do condomínio”, disse o fazendeiro em relação à denúncia de ter ameaçado Nelson com um “calador”, instrumento de alumínio e pontiagudo usado para coletar mostra de grãos de dentro do saco, que estrategicamente estava sobre a mesa em volta da qual discutiam.  Norberto declarou que o objeto havia sido “presente” de um amigo e “por acaso” estava sobre a mesa da sala. Na delação premiada, Hugo confirmou que Norberto havia dito “Isso é bom pra enfiar na barriga de preto”.  


“Nunca dei dinheiro nenhum pra preso e pra mulher de preso”, negou Norberto. Disse não saber o motivo da acusação de Hugo e foi questionado se tratava-se, então, de uma maldade gratuita, ao que respondeu não saber. Em relação a Francisco Helder, Erinaldo e todos os demais participantes do crime disse ter conhecido na cadeia. Afirmou estar na fazenda no dia do crime.


Ao tentar culpar Hugo, Norberto afirmou que quem estava carregando o milho era a Huma, empresa de Hugo Pimenta e que teriam atendido às ligações, apesar de estarem em sua fazenda.


Norberto contou que Willian esteve na fazenda dele em Mato Grosso, para contar que havia fugido e estava ali para pedir dinheiro. Disse que Willian queria bater nele na cadeia para extorquir dinheiro. “Eu acho que se eu não fosse pro céu, estava beirando pertinho”, disse o acusado.


Sobre a contratação para matar uma família no Paraná, informação dada por Hugo e pelo pistoleiro Erinaldo durante seus depoimentos, negou. Negou ter dito todas as frases contra Nelson, citadas por Hugo. “Nunca cogitei matar ninguém”. Sobre a acusação de estar fugindo, disse que tinha ido pescar.


O réu declarou temer pela sua vida em razão de o pistoleiro Erinaldo estar próximo de sair da cadeia. Questionado o porquê de tal temor, Norberto disse que o pistoleiro pediu dinheiro a ele por mais de uma vez e teria negado.


Ao interrogarem o réu, os jurados perguntaram por que Nelson havia denunciado ameaças feitas por ele, Norberto. Disse que não sabia se realmente havia denúncias e se elas estariam mesmo registradas. Negou também a acusação de Hugo, de que iria matar Zezinho, como queima de arquivo.


Terceiro dia


A sessão foi aberta com a exibição de alguns vídeos, ligações interceptadas pela Polícia Federal e reportagens sobre o crime ocorrido em 2004, que ceifou a vida de três Auditores-Fiscais do Trabalho e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego.


Entre as gravações apresentadas está uma conversa entre o fazendeiro Norberto Mânica, acusado de ser o mandante do crime e o empresário Hugo Pimenta que também é réu no caso, mas que fez um acordo de delação premiada com o Ministério Público Federal. Em depoimento no dia 28 ele confirmou que foi Norberto quem encomendou a morte do Auditor-Fiscal Nelson José da Silva, que o fazendeiro não se arrependia do crime e tentou comprar outros envolvidos para que assumissem a culpa sozinhos.


A gravação foi feita em 2007, logo após Hugo Pimenta assinar a delação premiada com o Ministério Público. Ele se encontrou com Norberto após sair da prisão para fazer um tratamento dentário.


Na quarta-feira, 28 de outubro, foram encerrados os depoimentos de testemunhas. Ao todo foram ouvidas 30 pessoas desde o início do júri popular, sendo a delação premiada do empresário Hugo Alves Pimenta, que também é réu no processo.


A sessão de quinta-feira, 29, foi encerrada às 23h35, após os interrogatórios dos réus.


O julgamento, que teve início na terça-feira, 27 de outubro, prossegue nesta sexta-feira, 30 de outubro, com o debate entre acusação e defesa.

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