Hugo Pimenta negou ter participado diretamente da arquitetura do crime e acusou o fazendeiro Norberto Mânica de ter sido um dos mandantes do crime em delação que durou três horas
“O senhor quer que eu responda o que gostaria de ouvir e não o que realmente aconteceu”. Esta foi uma das frases ditas pelo delator Hugo Pimenta ao advogado de defesa de Norberto Mânica, Antônio Carlos de Almeida Castro, o Kakay. A delação premiada era o depoimento mais aguardado desta quarta-feira, 28 de outubro, e durou cerca de três horas, com momentos de discussões acaloradas entre o delator e os advogados de defesa.
Antes de ser chamado o delator, seu advogado solicitou, de acordo com o que prevê a lei, a retirada do plenário dos réus que estão sendo julgados, Norberto Mânica e José Alberto de Castro, acusados de serem mandante e intermediário, respectivamente. Apesar do protesto dos advogados de defesa, o juiz deferiu o requerimento e os réus deixaram a sala onde ocorre o julgamento. Os réus puderam ouvir a delação de Hugo Pimenta do local onde permaneceram durante todo o relato.
Pimenta, que tinha relacionamento profissional e de amizade com Norberto, afirmou que Mânica frequentava diariamente seu escritório e, que em um dia disse: "Não aguento mais aquele Nelson”, referindo-se ao Auditor-Fiscal Nelson José da Silva. E perguntou: “Não sabe de alguém que o mate para mim?". Pimenta disse ter negado conhecer alguém, mas que José Alberto Castro, também presente, teria afirmado conhecer uma pessoa.
A partir daí, relatou ele, Castro entrou em contato com Francisco Pinheiro, já falecido e acusado de ser o intermediador na contratação dos pistoleiros. O valor a ser pago seria de R$ 25 mil, mas acabou passando para R$ 39 mil. Parte teria sido adiantada a Chico Pinheiro para iniciar a procura do “fiscal”, que morava em Unaí (MG). De acordo com ele, o plano inicial era matar apenas Nelson, mas as tentativas em sua residência foram frustradas por ter cerca elétrica instalada em volta. Então, foi arquitetada a emboscada e os outros Auditores-Fiscais e o motorista também foram mortos por estarem no carro.
O advogado de defesa, em uma de suas intervenções, ao questionar o delator e não obter a resposta satisfatória chamou sua atenção rispidamente. “O senhor tem que responder sim. O senhor não está falando com o Ministério Público?”, esbravejou Kakay, como é conhecido o advogado. O representante do Ministério Público, procurador Wladimir Aras, contestou e pediu o registro do fato em ata, alegando desrespeito às autoridades.
Pimenta afirmou ainda ter tentado, duas vezes, convencer o fazendeiro a não mandar os pistoleiros cometerem o crime. "Isso vai parar na mão do Lula (o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva), afirmei para o Norberto". A resposta do fazendeiro, segundo ele, foi que não havia preocupação quanto a isso. Em outro momento, o fazendeiro teria dito: "O mundo é pequeno demais para mim e o Nelson".
O cerealista relatou ainda que, um dia após a chacina, o fazendeiro comentou a repercussão do crime. "Mânica me perguntou: viu a repercussão? Respondi: não falei que ia parar no Lula?", disse. No dia do crime, o então vice-presidente da República, José Alencar, que era presidente em exercício, emitiu nota de repúdio aos assassinatos.
“Mulher quer dinheiro”, teria dito Norberto em outra ocasião em que Hugo relatou ter chamado sua atenção para as consequências do crime. O comentário, segundo Pimenta, significava que as viúvas queriam dinheiro, na opinião de Norberto, e ficaria tudo resolvido.
Questionado pelo procurador, Hugo confirmou que teme Norberto Mânica. “Eu tenho medo do Norberto, pela minha vida, por ter optado pela delação, pela minha família”. Segundo ele, José Alberto não optou pela delação provavelmente por ter sido orientado pelos advogados dele. “Chico pinheiro dizia que tinha matado três e saiu pela porta da frente da justiça, após ser julgado, lembrou o delator.
Delegado
O delegado da Polícia Federal, Antônio Celso dos Santos, a primeira testemunha ouvida nesta quarta-feira, 28 de outubro, foi um dos responsáveis pelas investigações do caso e voltou a reforçar a acusação contra o fazendeiro Norberto Mânica e o empresário José Alberto Costa.
Segundo o delegado, o alvo dos pistoleiros seria mesmo Nélson. No entanto, o Auditor-Fiscal do Trabalho estava acompanhado das outras vítimas. Conforme o policial, o réu José Alberto Costa, que teria intermediado a contratação de pistoleiros por meio de Francisco Pinheiro, deu ordem para matar todos e que os atiradores receberiam o dobro ou triplo do combinado pelo serviço.
A sessão de hoje teve a presença da viúva do Auditor-Fiscal, João Batista Soares Lage, Genir Lage, que não havia participado da sessão inicial, nesta terça-feira, 27. As viúvas Marinez de Laia e Helba Soares acompanham o julgamento desde o início e deram depoimentos como informantes.
Acareação
Em razão das declarações, o juiz Murilo Fernandes de almeida, passou a admitir a possibilidade de uma acareação entre Hugo Pimenta e José Alberto de Castro, que poderá ocorrer nesta quinta-feira. O julgamento do delator está previsto para 10 de novembro.
O advogado de Norberto Mânica busca imputar a culpa a Hugo Pimenta e é bem claro quanto a isso em entrevistas que tem concedido à imprensa.
A fase dos depoimentos das testemunhas de acusação e defesa foi encerrada. O ex-prefeito de Unaí, Antério Mânica, outro acusado de ser mandante dos assassinatos, irmão de Norberto, será julgado em 4 de novembro.