Manifestação silenciosa na calçada do prédio da Justiça Federal, em Belo Horizonte, formou cruzes humanas que simbolizaram as vítimas da Chacina de Unaí e a indignação pela demora do julgamento
Cruzes humanas foram formadas na calçada em frente ao prédio da Justiça Federal de Belo horizonte por Auditores-Fiscais que acompanhavam o primeiro dia de julgamento de Norberto Mânica e José Alberto de Castro, acusados de serem mandante e intermediário do crime que chacinou três Auditores-Fiscais do Trabalho e um motorista do Ministério do Trabalho e Emprego, em 28 de janeiro de 2004.
Vestidos de preto, em sinal de protesto, eles deitaram sobre panos brancos que tomaram toda a calçada da movimentada Avenida Álvares Cabral, na região central de Belo Horizonte. Os manifestantes esperavam que desta vez tivesse início o julgamento pelos assassinatos dos Auditores-Fiscais Nelson José da Silva, Eratóstenes de Almeida Gonçalves e João Batista Soares Lage e do motorista Ailton Pereira de Oliveira, na zona rural do município de Unaí.
Os Auditores-Fiscais do Trabalho não arredaram pé do local do julgamento. A performance que formou quatro cruzes na calçada foi organizada pelo Comando local de Mobilização da Delegacia Sindical do Sinait em Minas Gerais e idealizada pelo Auditor-Fiscal do Trabalho Márcio Leitão. Segundo Athos Vasconcelos, as cruzes simbolizam o protesto contra a demora do julgamento e impunidade dos mandantes depois de quase doze anos do crime.
A expectativa não foi frustrada. Após dois adiamentos e centenas de recursos procrastinatórios apresentados pela defesa dos réus e, nesta manhã, novas tentativas de adiamento do júri, o juiz Federal Murilo Fernandes de Almeida instalou a sessão e iniciou o julgamento. Os jurados escolhidos são quatro mulheres e três homens.
A entrada no plenário é controlada. Somente tem acesso quem se credenciou antecipadamente. O Sinait tem direito a dez vagas. Os Diretores e Delegados Sindicais se revezam e vão passando informações sobre o que acontece na sala de julgamento.
Para a cobertura da imprensa o acesso também está restrito aos jornalistas credenciados. O Sinait acompanha o julgamento do lado de dentro e do lado de fora do prédio da Justiça Federal. Imagens somente foram autorizadas na retomada da sessão, após o almoço. Os jurados e os réus não puderam ser filmados ou fotografados.
O ministro da Previdência Social e Trabalho, Miguel Rosseto, esteve em Belo Horizonte e acompanhou o início do julgamento, de dentro do plenário, juntamente com o secretário do Trabalho José Lopes Feijóo e representantes da Secretaria de Inspeção do Trabalho - SIT.
Julgamento
Ao longo de toda esta terça-feira, 27 de outubro, foram tomados os depoimentos de dez testemunhas, em um intenso julgamento que teve início às 9h42 e teve a maciça cobertura da imprensa.
Também foram ouvidas Marinês Lina de Laia e Helba Soares, viúvas dos Auditores-Fiscais do Trabalho Eratóstenes e Nelson, na condição de informantes. O Auditor-Fiscal do Trabalho Joaquim Elégio de Carvalho foi testemunha.
Muitas artimanhas foram utilizadas pelos advogados de defesa, até mesmo em busca de prejudicar o julgamento de Antério Mânica, que está marcado para o dia 4 de novembro.
O depoimento mais longo foi o do Delegado da Polícia Civil - Wagner Pinto, que participou das investigações à época. Ele foi interrogado pelos procuradores do Ministério Público Federal Miriam do Rosário Lima e Gustavo Corrêa, e pelos advogados dos réus durante toda a tarde. Ele revelou detalhes das investigações para esclarecer os jurados sobre as circunstâncias do crime.
A testemunha seguinte foi Vilmar da Silva Ferreira, policial militar que foi o primeiro a encontrar as vítimas no Trevo das Sete Placas, em Unaí, local até onde o motorista Ailton Pereira de Oliveira conseguiu levar a caminhonete do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE depois de ter sido baleado na emboscada em estrada rural da região.
Prestou depoimento, ainda, Matusalém Silvério da Silva, que comprou a arma usada no crime pelo pistoleiro Erinaldo de Vasconcelos Silva, alegando que não sabia que havia sido utilizada para o assassinato dos Auditores-Fiscais do Trabalho e do motorista do MTE. Após reparar um defeito constatado, vendeu a arma.
Erinaldo de Vasconcelos Silva foi o último a depor e disse, com a mesma frieza do depoimento que o condenou em 2013 a 76 anos de reclusão, que foi chamado pelo Francisco Pinheiro para matar os “fiscais”. Relatou todo o roteiro percorrido por ele e os demais executores. “Ele falou que o patrão era o Norberto”, referindo-se ao que Hugo Pimenta teria dito ao contratá-lo. Segundo ele, a orientação era insistir na tese de que tratava-se de assalto.
O policial civil João Alves de Miranda, que fez parte da equipe de investigadores que desvendou o crime, também foi ouvido nesta terça e deu mais detalhes da investigação das Polícias Federal e Civil, que atuaram em conjunto, as diligências realizadas, como as informações coletadas foram confirmadas e, segundo ele, o quebra-cabeças foi se formando. “Percebemos que o crime já estava sendo arquitetado dois meses antes”. Segundo ele, o plano era matar só o Nelson.
A presidente do Sinait, Rosa Jorge, acompanhou o julgamento ao longo de todo o dia. A sessão foi suspensa às 19h42.
O julgamento deverá ser retomado às 9h30 desta quarta feira, 28 de outubro, exatamente dez anos e dez meses após o crime, quando continuam os depoimentos de testemunhas. Estão previstos os depoimentos do delegado da Polícia Federal que desvendou o crime, além da delação premiada do réu Hugo Pimenta. Ao todo serão ouvidas 34 testemunhas ao longo do julgamento. O Ministério Público já adiantou que, apenas para Pimenta, serão feitas cerca de 400 perguntas. A previsão é de que o julgamento dure até quinta-feira, 29 de outubro.
Além de Norberto Mânica e José Alberto de Castro, outros dois réus serão julgados a partir da semana que vem. O ex-prefeito de Unaí, Antério Mânica, enfrentará o júri no dia 4 de novembro. O empresário Hugo Alves Pimenta conseguiu ter o processo desmembrado e será julgado separadamente no dia 10 de novembro.