Os diversos capítulos da crise econômica que se estende há meses são, frequentemente, usados pelos negociadores do governo para justificar a dificuldade de conceder reajustes e atender às reivindicações dos servidores públicos. Por diversas vezes as entidades sindicais ouviram argumentos que se amparam na crise para justificar as seguidas negativas às categorias. O mais recente alvoroço é o rebaixamento do país por Agência internacional, que especula um calote futuro.
O setor público é um bode expiatório da crise. Sobre ele recai grande parte da culpa: muitos ministérios, muitos servidores, altos salários, excesso de benefícios... Enfim, haja o que houve, e apesar do Portal da Transparência esclarecer bastante coisa sobre o setor público, a imagem que é passada para a população é de que o serviço público é o grande responsável pela crise e que cortando “na carne” todos os problemas estarão resolvidos.
O Sinait não pode concordar com essas afirmações e repudia as tentativas de demonizar o servidor público e o serviço público em geral. Servidor público não produziu a crise e nem pode pagar por ela, pois é ele próprio uma vítima da má gestão e administração da máquina pública.
Na maioria das carreiras do serviço público, começando pela Auditoria-Fiscal do Trabalho, o quadro está defasado, com cargos vagos e centenas de servidores em vias de se aposentar, desfalcando numérica e qualitativamente as categorias. O próprio governo reconhece isso em boletins administrativos.
O problema se repete quanto à valorização dos servidores. A média salarial do funcionalismo é baixíssima, razão pela qual muitas carreiras, como a de Servidores Administrativos do Ministério do Trabalho e Emprego, não conseguem “segurar” os aprovados nos concursos públicos, que logo migram para outras oportunidades melhores. Na Auditoria-Fiscal do Trabalho não tem sido diferente: carreiras federais ou estaduais têm se mostrado mais gratificantes em termos de condições de trabalho e remuneração, atraindo a atenção dos Auditores-Fiscais, que investem em novos concursos e acabam saindo da Inspeção do Trabalho.
O déficit crônico de servidores e a falta de investimento generalizada acabam por ser um tiro no pé. O servidor é a concretização do Estado para a população. É o que está em contato direto com o público, que presta os serviços, é quem faz acontecer. Mal remunerado, sobrecarregado e desvalorizado, não consegue desempenhar suas funções com excelência, não chega onde deveria chegar, não tem a celeridade desejável. A imagem geral afetada é, no fim das contas, a do Estado, a do governo.
Como se vê, com estrutura tão defasada e precária, como o servidor público pode ser responsável por todas as mazelas e pela crise econômica que, aqui, é grave, mas não se restringe ao Brasil, sendo sentida em diversos outros países, incluindo os do chamado Primeiro Mundo?
Por isso, o Sinait e as demais entidades que representam servidores públicos não podem aceitar e não aceitarão a culpa pelos problemas que não criaram. Pelo contrário, o trabalho diário é para prestar bons serviços, para atender às demandas dos trabalhadores, para levar dignidade e dar acesso a direitos fundamentais como saúde e segurança nos ambientes de trabalho.
Os Auditores-Fiscais do Trabalho, em Campanha Salarial pela valorização da carreira e por melhores condições de trabalho, rechaçam as desculpas esfarrapadas e as tentativas do governo de transferir responsabilidades. São servidores públicos concursados, qualificados e dedicados à sua missão. Cumpre ao Estado dar as condições para que sejam cumpridas. A luta dos Auditores-Fiscais do Trabalho é por dignidade e respeito.