Muitos atribuem a celebração do Dia Internacional da Mulher, 8 de março, ao incêndio na Triangle Shirtwaist Factory, ocorrido em 25 de março de 1911, em Nova Iorque, quando morreram 146 trabalhadoras têxteis. Outras fontes informam que o Dia Internacional da Mulher já existia antes do incêndio, só que era celebrado em datas variadas a cada ano em diferentes países.
A história mais difundida é de que o dia 8 de março tem origem em 1917, quando estourou na Rússia uma greve de mulheres trabalhadoras tecelãs e costureiras em Petrogrado, um dos estopins da Revolução Russa. A data então foi fixada como o Dia Internacional da Mulher Socialista, o que depois foi adotado internacionalmente pelas Nações Unidas como o Dia Internacional da Mulher para lembrar as conquistas sociais, políticas e econômicas das mulheres.
Independente da origem, a data celebra as lutas emancipatórias das mulheres em todos os continentes. Mas passado mais de 100 anos deste ocorrido, mulheres continuam trabalhando em condições degradantes como as encontradas na Triangle Shirtwaist Factory. Se no passado jovens imigrantes trabalhavam 14 horas por dia, em semanas de trabalho de 60-72 horas, costurando vestuário por modestos salários entre 6 e 10 dólares por semana, no Brasil a situação se repete em fábricas de costura clandestinas espalhadas pelo Estado de São Paulo.
É comum Auditores-Fiscais do Trabalho resgatarem mulheres vítimas do trabalho escravo nessas oficinas de costura. Nos últimos três anos os resgates se tornaram frequentes. Muitas são estrangeiras vindas de países como a Bolívia e o Peru para tentar uma vida decente no Brasil.
A situação se agrava quando, além de trabalharem em condições insalubres, dividem o mesmo local com os filhos pequenos que amamentam, ou os que ainda carregam no ventre, sobre a máquina de costura.
Mães e filhos no mesmo ambiente de trabalho degradante, em meio a produtos altamente inflamáveis e sem condições de higiene. Geralmente essas mulheres não têm direito à maternidade protegida e ainda são obrigadas a expor sua prole a riscos variados.
A realidade
No resgate mais recente, a vítima tinha apenas 21 anos e estava grávida de cinco meses do irmão do dono da oficina, um boliviano. Além da jornada exaustiva e do não pagamento de salários, a jovem vivia em um cômodo improvisado, que parecia ser parte de uma cozinha. No local não havia janelas, fazendo com que ela frequentemente sofresse de falta de ar. Ela também sofria assédio moral do dono da oficina, que reclamava constantemente de sua baixa produção por ir muito ao posto de saúde, mesmo com uma jornada de trabalho que iniciava às 7 horas e se estendia até às 22 horas, de segunda a sexta-feira. Aos sábados, o expediente terminava por volta das 12 horas.
A jovem está no Brasil desde os 17 anos. Tem uma filha de três anos e sempre trabalhou em oficinas de costura, sob as mesmas condições. Após o nascimento da primeira filha, já teve de voltar ao trabalho, sem licença-maternidade.
Várias estrangeiras, como esta jovem boliviana, precisam contar com a sorte e o apoio da fiscalização trabalhista e da polícia para serem resgatadas. Na maioria das vezes mulheres Auditoras-Fiscais do Trabalho atuam nas operações resgatando mulheres exploradas, dando-lhes de volta a esperança de conquistar um emprego formal, enfim, parte da cidadania que lhes foi roubada, pois no mercado formal elas também não estão imunes aos problemas. Mesmo com esse esforço não há garantias de que estas mulheres estrangeiras exploradas venham a fazer parte das estatísticas de trabalhadoras formalizadas no Brasil.
As dificuldades
Segundo o Departamento Intersindical de Estudos e Estatísticas Socioeconômicas - Dieese entre 2011 e 2012, as mulheres continuaram ampliando a sua inserção na força de trabalho. O número de mulheres ocupadas cresceu em todas as regiões metropolitanas do país, embora elas ainda sejam maioria entre mais da metade da população desempregada no país. Também é cada vez maior o número de mulheres que são responsáveis pelo sustento de suas famílias, o que contribui para o aumento da categoria no mercado.
De maneira geral, as mulheres enfrentam, ainda, grandes dificuldades no mercado de trabalho, como as diferenças salariais, que têm como pano de fundo a discriminação. Homens e mulheres exercem os mesmos cargos, mas elas recebem salários menores e não ocupam cargos de chefia, o que as coloca em desvantagem no mercado formal.
Em um mercado em forte ebulição, elas, como a maioria dos trabalhadores, ainda estão expostas aos riscos de acidentes de trabalho. Em 2011, dos 711.164 acidentes de trabalho registrados, 207.194 tiveram mulheres como vítimas. As estatísticas aumentaram em relação a 2010, quando ocorreram 201.086 acidentes com mulheres, dos 709.474 registrados pela Previdência Social.
Sua forte presença já começa, também, a ser observada na vida política do país. O maior exemplo foi a eleição de uma mulher como presidente da República. As eleições de 2012 reforçaram o fenômeno. A participação das mulheres foi ampliada de 9,1% em 2008 para 12,1% em 2012 no comando dos municípios brasileiros. Elas têm entre 22 e 67 anos, ocupam as mais variadas funções e estão espalhadas por 26 Estados comandando 663 cidades do país. Já as vereadoras são 7.648, representando 13,3% das vagas disponíveis. Embora baixos, esses números são recordes na história brasileira.
A esperança é de que as mulheres que comandam este país, politicamente, contribuam para mudar a história de milhares de brasileiras e estrangeiras que ainda são exploradas economicamente.