Chacina de Unaí – Acusação iniciou debates no quarto dia do julgamento


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
30/08/2013



A sessão do Tribunal do Júri, iniciada no dia 27 de agosto para julgar três réus da Chacina de Unaí, foi retomada na manhã desta sexta-feira, 30 de agosto, com os debates entre acusação e defesa. Das 9h30 até às 12h10 se manifestaram os procuradores do Ministério Público Federal Wladimir Aras e Miriam do Rosário Lima e os advogados assistentes de acusação Francisco Rogério Del Corsi e Antônio Francisco Patente.


Aras fez a exposição mais longa e detalhada e iniciou se dirigindo aos réus afirmando que seriam tratados com respeito, pois não estão sendo julgados como homens, mas pelo crime que cometeram, apesar de terem matado homens como eles, que tinham família, em um crime de mando. O que se busca é fazer justiça. O procurador disse que este julgamento acontece para começar a reparar as falhas, pois, até agora, somente os réus pobres estão presos. “Proximamente os mandantes também serão julgados”, afirmou.


Ele esclareceu os jurados que formam o Conselho de Sentença sobre os crimes pelos quais os réus estão sendo acusados – homicídio qualificado, formação de quadrilha e receptação – e passou a apresentar elementos de provas contra cada um dos réus – Erinaldo de Vasconcelos Silva, Rogério Alan Rocha Rios e William Gomes de Miranda.


Foram exibidos para o Conselho de Sentença documentos, como recibos de pagamento dos “serviços prestados” pelos réus ao mandante do crime; a folha de registro do Hotel Athos, em Unaí, onde ficaram hospedados na noite anterior ao crime, e que tem o número correto do documento de identidade de Rogério Alan e William Gomes; trechos das confissões dos réus e de conversas telefônicas interceptadas que os incriminam e nas quais eles falam abertamente sobre a Chacina de Unaí e outros crimes, além de muitas fotos e croquis do local onde o crime foi cometido, do Trevo das Sete Placas onde foram encontrados e das vítimas dentro da caminhonete do Ministério do Trabalho e Emprego em que foram mortas, com detalhes do quadro que foi encontrado. Mostrou, claramente, a arquitetura do crime, o planejamento, a motivação do mandante, que seriam as fiscalizações de um Auditor-Fiscal do Trabalho honesto. “Se ele fosse desonesto, estaria vivo até hoje”, observou. E mesmo diante da ameaça de um “calador”, a fiscalização não se calou.


O procurador mostrou as imagens e foi explicando as constatações dos peritos sobre os elementos da cena do crime. Os corpos das vítimas, segundo Aras, “falaram” pela última vez, no exame necroscópico, que possibilitou descobrir de que forma, exatamente, eles morreram. “Não há dúvidas que foi um crime por pagamento de recompensa, homicídio mercenário, por dinheiro, onde é pior quem paga do que quem executa, porém, não os isenta de culpa”, disse o procurador da República aos jurados, acrescentando que os Auditores-Fiscais levaram tiros na cabeça, realizando o desejo do mandante, Norberto Mânica, que já havia dito que “só sossegaria quando desse um tio na cabeça de um fiscal”.


São fotos chocantes, que mostram a impiedade na execução do crime. Foram tiros à queima roupa. A posição em que foram encontradas as vítimas dentro da caminhonete mostra a ânsia pela vida, o quanto estavam indefesos, sem saída, com cinto de segurança atado, sendo caçados em uma emboscada. Fazendo uma analogia com a passagem bíblica de João Batista, o procurador disse que “a cabeça de João Batista foi entregue numa bandeja, de acordo com o desejo do mandante”.                                                                                                   


Latrocínio


Sobre Erinaldo, que no depoimento de ontem, 29 de agosto, confessou o crime e chorou, Wladimir Aras disse que ele, neste momento, está sendo julgado por sua própria consciência. E que ele também é vítima de um plano de Norberto Mânica, pois foi induzido a assumir toda a culpa sozinho, apresentando a versão de que o crime teria sido um latrocínio, em troca de um pagamento de 300 mil reais, que nunca foram pagos. Por esse crime, ele seria condenado a uma pena de 20 anos, muito maior que a pena por homicídio qualificado, que é de até doze anos. “Latrocínio não tem mandante, homicídio tem”, disse Aras.


A tese de latrocínio cai por terra quando se observa, por exemplo, que nenhum dos pertences das vítimas, exceto um relógio de Eratóstenes de Almeida Gonsalves, foi roubado. “Carteiras de servidores públicos valem ouro no mundo do crime, mas não foram roubadas”, disse o procurador. Os Auditores-Fiscais do Trabalho foram encontrados com seus objetos de trabalho e pertences pessoais no colo, como pastas, canetas, corrente de ouro.


Em sua manifestação, o representante da acusação ressaltou a crueldade do ato praticado e as consequências para as famílias das vítimas. “Estamos todos cansados aqui, afastados de nossas famílias, porém, este afastamento é temporário. Pior é para as famílias das vítimas, que não terão mais oportunidade de rever seus parentes”.


Lembrou também o telefonema recebido na Subdelegacia do Trabalho de Paracatu, dias antes do crime, em que o interlocutor estava à procura de Nelson para entregar uma telemensagem e flores. Exibindo um projétil, uma prova recolhida no local do crime, Aras disse: “Esta foi a mensagem recebida por Nelson. E as flores, sua esposa recebeu no funeral”. Era uma morte anunciada, e os outros três servidores morreram porque estavam junto com Nelson, que era o alvo do mandante.


Erinaldo confessou o crime e apontou o envolvimento dos outros dois réus, lembrou o procurador, e pediu que a juíza Raquel Vasconcelos pergunte ao Conselho de Sentença se o réu contribuiu para a elucidação do crime, o que seria um atenuante para sua pena.


Laranjas


Sobre Rogério Alan, o procurador Wladimir Aras disse, claramente, que ele, seu irmão Rodolfo – que depôs como informante, e a namorada Rosedalva – que depôs como testemunha, “mentiram descaradamente”. Testemunhos, depoimentos anteriores e documentos o colocam na cena do crime. Chamou a atenção para a postura fria de Alan durante o depoimento dele ontem, no terceiro dia do julgamento, em que se recusou a responder as perguntas da acusação e negou sua participação no crime.


Provas apresentadas mostraram que Rogério Alan recebeu dinheiro por meio de “laranjas” em cidades do interior da Bahia. Depósitos bancários originários de Unaí, em contas de pessoas simples, com valores incompatíveis com o ganho delas, foram descobertos e a relação com o crime foi comprovada.


O álibi apresentado pelo réu de que estava trabalhando em Salvador na data do crime, a serviço de um cidadão estrangeiro, segundo Aras, “é totalmente manco”, não se sustenta, pois o referido cidadão sequer estava no país, chegando apenas alguns dias depois. Contra ele também pesa a folha de registro do livro do Hotel Athos, que contém seus dados verdadeiros, colocando-o na cena do crime. Curiosamente, o destino informado por Alan no livro é “Olhos D’água”. O procurador comentou: “E foi mesmo, os olhos cheios de água das viúvas”.


No primeiro depoimento prestado à Polícia Federal, disse Wladimir Aras, “ele contou a história bem contada, apesar de não lhe terem dado água”, mas depois voltou atrás. A questão da água foi insistentemente frisada pela defesa de Rogério Alan, numa tentativa de caracterizar que a confissão do réu foi obtida sob tortura.


“Sorte”


Sobre William Gomes de Miranda, o procurador da República disse que ele teve “sorte”, pois o carro que ele dirigia e deveria dar fuga aos pistoleiros, furou o pneu e, por essa razão, ele não esteve na cena do crime. Entretanto, ele ajudou Erinaldo, posteriormente, a desovar no Lago Paranoá, o Fiat Fiorino, roubado, receptado por Erinaldo, usado apenas para praticar o crime.


Foi, ainda, motorista do Chico Pinheiro, “o corretor da morte”, segundo Aras. O número de seu documento também está no livro de registro do Hotel Athos. As conversas telefônicas interceptadas revelam conversas sobre um crime atrás do outro, e William se gabava dos ilícitos. “Talvez hoje, passados nove anos, ele não pense mais assim”, disse.


Dia do Auditor-Fiscal do Trabalho


O dia 28 de janeiro, informou o procurador Wladimir Aras aos jurados, é o Dia do Auditor-Fiscal do Trabalho. “Sabem por que?”, indagou, remetendo a origem à Chacina de Unaí, e dizendo que “três personagens desta história estão sentados aqui e outros também se sentarão, porque mataram servidores que combatem condições degradantes de trabalho”.


Sede de sangue


Para terminar, Aras apresentou ainda mais fotos dos Auditores-Fiscais do Trabalho mortos, imagens que seriam o “desejo do Norberto Mânica realizado: um tiro na cabeça dos fiscais. Nelson se saiu mal em todas as fotos, infelizmente. Mas mostram que ele era um homem trabalhador – com uma pasta e uma caneta, religioso, um bom funcionário público que foi escarniçado e chacinado pelos réus, a mando dos Mânicas”.


O irmão de Rogério Alan, lembrou o representante da acusação, era corretor de imóveis, fazia famílias felizes. Alan, nas palavras dele, “corretou tumulas sobre os quais as famílias ainda choram”.


E citou Caetano Veloso: “Enquanto os homens exercem seus podres poderes, matar de fome, de raiva e de sede, são tantas vezes, gestos naturais”, para dizer a Rogério Alan que ele reclamou de sede de água na Polícia Federal, mas, na realidade, teve sede de sangue.

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