Chacina de Unaí - Audiência pública em Minas Gerais lembra o crime à sociedade

Nesta segunda-feira, 26 de agosto, véspera do julgamento de três réus da Chacina de Unaí, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou uma audiência pública para lembrar o caso


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
26/08/2013



Nesta segunda-feira, 26 de agosto, véspera do julgamento de três réus da Chacina de Unaí, a Comissão de Direitos Humanos da Assembleia Legislativa de Minas Gerais realizou uma audiência pública para lembrar  o caso. Segundo o deputado Durval Ângelo (PT), que presidiu a audiência, a CDH acompanhou toda a tramitação do processo e cumpre o papel de não deixar que o crime caia no esquecimento. A audiência foi transmitida ao vivo pela TV Assembleia, cujo sinal chega a centenas de municípios do interior de Minas Gerais.


Durval informou que também já foi marcada a data do julgamento de mais quatro réus. O Sinait confirmou a informação junto à secretaria da 9ª Vara Federal, onde tramita o processo. Será no dia 17 de setembro. Pelas informações, somente Antério Mânica não seria julgado na data. O deputado disse que é preciso fazer pressão para que todos sejam rapidamente julgados, pois o ex-prefeito de Unaí já articula candidatura nas próximas eleições e “tentará usar a política como biombo da impunidade”.


A audiência pública foi realizada a pedido de Carlos Calazans, que era Delegado Regional do Trabalho em Minas Gerais em 2004, quando aconteceram os assassinados de Eratóstenes, João Batista, Nelson e Ailton. Participaram da sessão a diretora do Sinait Ana Palmira Arruda Camargo, o presidente da AAFIT/MG e diretor do Sinait, José Augusto de Paula Freitas, as viúvas Genir Lage e Helba Soares (viúvas dos Auditores-Fiscais do Trabalho João Batista Soares Lage e Nelson José da Silva) e o superintendente substituto Vicente Ângelo Silésio. Esteve também presente o deputado Rogério Correia (PT). Os diretores do Sinait Suêko Cecília Uski e Benvindo Coutinho também acompanharam a audiência pública.


Calazans lembrou os nove anos decorridos desde o crime, as lutas, as manifestações, os atos públicos em várias partes do país, audiências com autoridades. Ele contou que, para relembrar o crime à população, na sexta-feira, 23 de agosto, levou faixas para a Praça Sete, centro de Belo Horizonte, e disse que muita gente ainda se surpreende com o fato de que os acusados ainda não tenham sido julgados e condenados. As faixas, segundo ele, atraíram a atenção de muita gente. Neste julgamento de amanhã, o que se quer, disse o ex-Delegado do Trabalho, é Justiça.


A emoção marcou as falas de Genir Lage e de Helba Soares, ao se lembrarem dos maridos assassinados. Para Genir estes anos são “dolorosas gotas de impunidade”. A única coisa que deseja é que os culpados sejam punidos, pois impediram que seus filhos crescessem tendo ao seu lado o pai amoroso que era João Batista.


Helba, que continua vivendo em Unaí, agradeceu a todos a luta incansável de todos esses anos. Ela diz ter certeza de que tudo o que era possível fazer para agilizar o julgamento foi feito. Entretanto, afirmou que a luta é desigual, pois os envolvidos têm poder político e econômico, e tudo fizeram para retardar o julgamento. Ela disse que tem medo de que os mandantes não recebam a punição que merecem.


Vicente Silésio, além de lembrar os aspectos que cercam o caso e os quase dez anos de espera pelo julgamento, enfatizou o trabalho realizado pelos Auditores-Fiscais do Trabalho no combate às condições degradantes de trabalho em todo o país e as ameaças que ainda hoje sofrem. Revelou que há poucos dias, na região de Varginha, um trabalhador fugiu de fazenda e deu depoimento chocante sobre as condições a que estava submetido. Os Auditores-Fiscais da região temem pela segurança, pois o fazendeiro é conhecido por sua frieza e violência.


O superintendente substituto afirmou que confia no resultado do julgamento desta terça-feira e conclamou a todos para se mobilizarem nas redes sociais, pedindo Justiça. Terminou citando Rui Barbosa, para quem “a Justiça tardia não é justiça, mas injustiça qualificada e manifesta”.


Direitos Humanos


Em seu pronunciamento, José Augusto, presidente da AAFIT/MG, ressaltou a importância dos Direitos Humanos dos cidadãos, sendo o primeiro deles o direito à vida, que foi tirado dos Auditores-Fiscais do Trabalho e do motorista assassinados. O segundo direito, a Justiça, é o que todos buscam desde o momento do crime até hoje. Disse que o crime não matou apenas servidores do Estado, que podem ser substituídos, mas pais de família, que nunca o serão.


A lei, segundo José Augusto, favorece os bandidos, com a possibilidade de uma infinidade de recursos, que foram muito bem explorados pelos advogados dos acusados. A justiça rápida poderia ter minimizado a dor das famílias, que se arrasta e se renova a cada etapa. O Estado, por sua vez, não deu a resposta rápida e adequada ao crime, que seria o fortalecimento da fiscalização, o reforço da segurança, o fornecimento da logística e da estrutura necessárias para enfrentar os empresários do agronegócio, que se cercam de segurança armada. Como a instituição Auditoria-Fiscal do Trabalho não tem um corpo, os Auditores-Fiscais do Trabalho é que foram alvejados.


“Espero, ardentemente, que a Justiça seja feita. Não há punição suficiente para resgatar a dor das famílias, mas poderá minimizar”, disse José Augusto.


Vigília


A Justiça tem satisfação a dar às famílias de Eratóstenes, João Batista, Nelson e Ailton, disse Ana Palmira, diretora do Sinait, presente à audiência pública, representando a presidente Rosângela Rassy. Reforçou o que disse José Augusto, enfatizando que a fiscalização, após o crime de Unaí, não parou, mas os pais de família não puderam ser substituídos.


Os Auditores-Fiscais do Trabalho também sofrem as conseqüências da impunidade, disse Ana Palmira. Até hoje os empresários tentam intimidar a fiscalização evocando o crime e dizendo que nada vai acontecer com os responsáveis pelo crime.


As condições degradantes que eles foram fiscalizar em Unaí continuam e persistem. Em 2012, disse Ana Palmira, mais de 2.500 trabalhadores foram resgatados da escravidão moderna, que tira deles as condições mais elementares de dignidade.


Afirmou que a partir desta terça-feira, quando se inicia o julgamento de três réus, o Sinait estará lá, na Justiça Federal, em vigília, para sensibilizar os participantes para a necessidade de se fazer Justiça. “O Sinait pede e espera que seja feita Justiça!”.

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