Tendências do trabalho – Novas tecnologias estendem jornada


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
28/11/2011



28-11-2011 – Sinait

 

Telefones celulares, computadores portáteis e internet móvel são grandes conquistas do mercado de trabalho, mas, segundo pesquisa encomendada pelo jornal Folha de São Paulo, podem ter efeitos colaterais para os trabalhadores. Celulares e notebooks fornecidos pelas empresas aos empregados, a princípio recebidos como uma benesse e até mais autonomia, quase sempre revelam-se sinônimo de trabalho em tempo integral, inclusive em fins de semana e fora do horário comercial, pois, se por um lado, o horário de trabalho pode se tornar flexível, o número de demandas a serem atendidas aumenta muito.

 

A grande maioria dos mais de mil entrevistados disse que estão trabalhando mais horas por dia e não conseguem ficar desconectados nem mesmo na hora das refeições: conferem ligações e mensagens, despacham e recebem e.mails, falam ao celular. Até mesmo nas férias eles continuam respondendo mensagens profissionais. O resultado, para muitos, é o estresse e o cansaço crônicos que levam ao afastamento do trabalho.

 

Estas e outras conclusões da pesquisa estão publicadas em reportagem publicada pela Folha de São Paulo nesta segunda-feira, 28 de novembro. Confira:

 

28-11-2011 – Folha de São Paulo

E-mail e celular estendem jornada de trabalho para casa e até as férias

 

Tecnologia eleva número de horas trabalhadas; brasileiro também passa mais tempo no escritório

Expansão da economia e promoções ajudam a explicar aumento da carga horária, aponta pesquisa

 

ÉRICA FRAGA – DE SÃO PAULO

 

"Eu olho e-mail em casa, andando na rua, no restaurante. Parece que o trabalho não me deixa." A declaração da publicitária Júlia Eboli, coordenadora de marketing da Tecla Internet, mostra a realidade de um contingente cada vez maior de profissionais.

 

A combinação entre crescimento mais intenso da economia e avanço nas tecnologias de comunicação tem resultado em aumento das horas trabalhadas no Brasil.

 

Sete em cada dez profissionais - que ocupam cargos como analista, gerente e supervisor - afirmam que passam mais tempo no escritório hoje do que há cinco anos.

 

Mais da metade diz que o teto da carga horária no escritório saltou de oito para dez horas diárias, e quase 80% são acionados nos momentos de lazer e descanso via mensagens no celular.

 

Nem as férias escapam: mais de 50% dos funcionários de empresas que atuam no país respondem a e-mails de trabalho nesse período.

 

Esses são resultados de pesquisa feita pela Asap, consultoria de recrutamento de executivos, a pedido da Folha. Foram ouvidas 1.090 pessoas com renda mensal entre R$ 5.000 e R$ 15 mil.

 

A expansão da economia e as promoções no trabalho são as razões para o aumento da carga horária de trabalho, indica a maior parte dos entrevistados. "Nossa empresa é vítima positiva da expansão do crédito. Estamos trabalhando mais", diz Daniel Polistchuck, diretor de tecnologia da Crivo, que desenvolve programas para análise de crédito.

 

Para Carlos Eduardo Ribeiro Dias, sócio e presidente-executivo da Asap, há um descompasso entre o ritmo do mercado de trabalho e o de formação acadêmica e profissional. "As pessoas estão sendo promovidas mais cedo, mas nem sempre estão preparadas. O resultado: trabalham mais."

 

TECNOLOGIA

O avanço da tecnologia tem aproximado mais o profissional do trabalho. "Hoje, há aplicativos de comunicação instantânea que te acompanham o dia todo no celular. Tento me policiar, mas passei a trabalhar mais", diz o espanhol Jose Luis Gallardo, gerente de canais da Kingston no Brasil.

 

Rodrigo Vianna, diretor da HAYS, empresa de recrutamento de executivos, diz que, sem as novas tecnologias, "as pessoas viveriam praticamente dentro das empresas". "Com a globalização, não há mais fuso horário. É preciso ficar ligado o tempo todo. A tecnologia, nesse sentido, veio para ajudar."

 

Mas o excesso de trabalho tem consequências. Para Elaine Saad, gerente-geral da Right Management, o brasileiro tem forte apego à tecnologia e exacerba o uso de mensagens pelo celular. "Isso faz que as pessoas trabalhem no horário do descanso. E, se você não responde a um e-mail e seu colega responde, você fica com medo de perder o emprego."

 

Cansaço e estresse são consequências

DE SÃO PAULO

Mais cansaço e estresse. Sete em cada dez profissionais ouvidos pela consultoria Asap dizem que esses são os efeitos colaterais do excesso de trabalho. "Temos hoje uma geração de cansados", diz Nelson Carvalhaes Neto, médico do Fleury Medicina e Saúde.

 

Segundo ele, a jornada estendida por meio de tecnologias mais avançadas de comunicação é uma das reclamações dos executivos que atende: "Os facilitadores de comunicação foram uma cilada. Hoje, ninguém consegue ficar off-line".

 

Reportagem nesta Folha revelou que o número de pessoas afastadas pelo INSS com depressão e estresse disparou no primeiro semestre deste ano. "O aumento nos casos de transtornos mentais e comportamentais tem relação direta com o aumento das horas trabalhadas", diz Remígio Todeschini, diretor de saúde e segurança ocupacional do Ministério da Previdência.

(EF)

 

Análise - Ficou mais difícil determinar a hora do lazer e a hora do trabalho

REGINA MADALOZZO - ESPECIAL PARA A FOLHA

 

No livro "Alice Através do Espelho", de Lewis Carroll, a personagem Alice é confrontada pela Rainha de Copas: "É preciso correr o máximo possível para ficar parado no mesmo lugar".

 

O que parece impossível é realidade: no trabalho competitivo, cada pessoa precisa se dedicar ao máximo para manter seu emprego e sua empregabilidade.

 

Foi por meio de computadores portáteis e de telefones com aplicativos que passamos a trabalhar mesmo em horário de folga. Num passado remoto, era plenamente possível separar o tempo gasto no trabalho e o tempo dedicado à vida pessoal.

 

Hoje, em segundos, é possível enviar e atender demandas. Fica bem mais complicado determinar a hora do trabalho e a hora do lazer.

 

Mas a tecnologia, com implicações terríveis para nosso bem-estar - como doenças relacionadas ao estresse, perda da felicidade, decepção com o trabalho -, permitiu a jornada flexível e o trabalho à distância.

De fato, uma conquista, em algumas empresas, foi permitir que o próprio funcionário escolha quando e de onde trabalhar. O que importa não é o tempo dentro da empresa, mas o que é entregue a ela.

 

Como a biologia, que estuda a seleção natural das espécies, o mercado de trabalho encontra formas de selecionar os melhores indivíduos. Cabe a cada um estabelecer os limites que julgar necessários, ciente das consequências - seja para a saúde ou para a carreira.

 

Algumas empresas celebram a corrida da seleção natural, outras buscam coordenar os objetivos de eficiência e lucratividade com indivíduos satisfeitos com o trabalho e a vida pessoal. O que você escolhe?

 

REGINA MADALOZZO é Ph.D. pela Universidade de Illinois e professora do Insper.

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