Mas critica a impunidade de exploradores e diz que o país precisa investir mais na fiscalização trabalhista para combater o crime
Existem hoje, no Brasil, mais de 200 mil trabalhadores em condições análogas às da escravidão segundo o Índice Global da Escravidão (Global Slavery Index), divulgado pela primeira vez pela ONG inglesa Walk Free Foundation. O levantamento sobre trabalho escravo foi feito em 162 países e o Brasil aparece em 94º lugar. A Mauritânia - país da costa noroeste da África, é o primeiro da lista, com a maior população relativa de escravos. A Islândia fecha a relação, seguida da Irlanda e Reino Unido. Em todo o mundo, a ONG estima em 29,8 milhões o número de trabalhadores escravizados.
O relatório elogia as ações do Brasil no combate ao trabalho escravo, mas ressalta que a impunidade de aliciadores e contratantes é um dos principais entraves para a erradicação do problema. "O Estado brasileiro tem sido muito atento ao trabalho escravo, reconhecendo sua existência e promovendo a discussão com o público, a mídia e os diferentes departamentos do governo, desde a década de 1990. Esses esforços, entretanto, são ameaçados pela impunidade desfrutada pelos donos de terras, empresas locais e internacionais e intermediários, como os ‘gatos’", aponta o relatório.
No Brasil, o trabalho análogo à escravidão concentra-se sobretudo nas indústrias madeireira, carvoeira, de mineração, de construção civil e nas lavouras de cana, algodão e soja. A exploração sexual, sobretudo o turismo sexual infantil no nordeste, também são campos sensíveis, segundo o relatório, que cita ainda a exploração da mão de obra de imigrantes bolivianos em oficinas de costura.
No Brasil
Entre 1995 e 2012, os Auditores-Fiscais do Trabalho que atuam nos grupos móveis formados pelo Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, pelo MPT e pela Polícia Federal libertaram mais de 44 mil trabalhadores da escravidão. Em 2012, foram feitas 146 operações do tipo, resultando na libertação de 2.750 trabalhadores e na regularização de 1.548, de acordo com dados do MTE.
Os dirigentes do Sinait entendem que, apesar dos esforços da fiscalização, muito ainda precisa ser feito para combater os crimes e as irregularidades trabalhistas cometidos contra os trabalhadores brasileiros.
Os Auditores-Fiscais do Trabalho atuam em número insuficiente e apesar de o Sinait há anos lutar pela regularidade de concursos para a fiscalização, os certames são poucos e quando são promovidos, as vagas não repõem a defasagem do quadro da fiscalização, que está com mais de 830 cargos vagos na carreira de Auditoria-Fiscal do Trabalho.
Um estudo do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada - IPEA aponta a necessidade de contratar mais de 5 mil profissionais para a área da fiscalização trabalhista. Atualmente são pouco mais de 2.800 Auditores para fiscalizar mais de 12 milhões de empresas espalhadas pelo país.
Outro problema que atrapalha a atuação da fiscalização em prol dos trabalhadores são as constantes interferências políticas em cargos que deveriam ser ocupados por servidores da carreira da Auditoria-Fiscal, a exemplo de superintendentes regionais do Trabalho. Recentemente, ocupantes desses cargos, que não são servidores, cometeram abusos ao publicarem portarias inviabilizando o trabalho dos Auditores para fazer embargos e interdições em alguns Estados.
Negligência
A interferência política ainda é responsável por negligências contra o trabalhador, como a mais recente ocorrida no Estado do Pará, onde 2.846 autos de infração referentes a práticas ilegais cometidas contra trabalhadores foram arquivados por prescrição. Em outubro do ano passado, o Diário Oficial da União - DOU noticiou o arquivamento, pelo MTE, dos autos prescritos, pendentes de julgamento administrativo. Com isso, a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego no Pará - SRTE/PA deixou livre de multas siderúrgicas, madeireiras e fazendeiros paraenses acusados de praticar crime ambiental e de manter trabalhadores em condições análogas às de escravidão.
A situação levou o Ministério Público do Trabalho - MPT do Pará a ingressar com uma representação contra a SRTE/PA. Segundo o MPT, as prescrições teriam ocorrido por negligência dos responsáveis na Superintendência pelo trâmite de cobrança dos autos de infração, que teriam permanecido paralisados por mais de três anos. O MPT alega ainda que a ação causou enormes danos para o erário ao beneficiar os infratores, o que configuraria ilegalidade e, no caso específico da representação, a improbidade administrativa.
As péssimas condições de trabalho para quem fiscaliza a segurança e a saúde dos trabalhadores também compromete os esforços da fiscalização. Seja pela falta de espaço físico e prédios em má conservação, muitos inadequados para atender os trabalhadores, seja pela falta de recursos materiais e operacionais. Faltam desde recursos financeiros para viagens, veículos oficiais a unidades operacionais sem a infraestrutura necessária, a exemplo de impressoras, material de expediente, telefonia, internet veloz, entre outros.
Este quadro é agravado pelo número insuficiente de servidores administrativos. A falta de servidores para apoiar a atividade de fiscalização inviabiliza uma fiscalização eficiente e efetiva. A situação ficou crítica devido ao excessivo número de servidores administrativos, aprovados no último concurso, que se desligaram dos quadros do MTE, sem reposição, por causa dos baixos proventos e da aprovação em outros concursos públicos.
Carta de Vitória
Recentemente, os Auditores-Fiscais do Trabalho que participaram do 31º Encontro Nacional da categoria, em Vitória, no Espírito Santo, aprovaram a Carta de Vitória, na plenária de encerramento do evento. O texto contempla os debates que aconteceram durante a semana do evento, que versou sobre o tema "Auditoria-Fiscal do Trabalho ameaçada. Como garantir a presença do Estado na defesa do trabalhador?".
A Carta de Vitória denunciou as graves ameaças que comprometem o exercício e a própria sobrevivência da Auditoria-Fiscal do Trabalho. A mensagem registra a atuação dos Auditores-Fiscais e relata a indignação e a revolta da categoria frente às irregularidades, aos ilícitos, à inépcia, à corrupção e aos desmandos, que vêm prejudicando o exercício e o cumprimento da competência dos Auditores-Fiscais pelo Brasil.
Veja abaixo notícias sobre o combate ao trabalho escravo no Brasil e no mundo.
Elogiado, Brasil ainda sofre com problema.
Brasil tem 200 mil pessoas em situação de trabalho escravo.
Relatório cita Brasil como referência em combate ao trabalho escravo e defende aprovação da PEC.