Trabalho Escravo – Libertação de escravos e conflitos de terra no Maranhão ganharam destaque no Jornal Nacional


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
29/05/2012



Reportagem veiculada pelo JN no Ar, dentro do Jornal Nacional da TV Globo, no dia 25 de maio, apresentou depoimentos de resgatados e de representantes de entidades em cidades do sudoeste do Maranhão, como Açailândia e Buriticupu, região com o maior número de problemas agrários no país, sobre a sensação de insegurança e impunidade desses cidadãos que atuam no combate ao trabalho escravo e no conflito de terras. 


A repórter Cristina Serra divulgou dados da Comissão Pastoral da Terra, que informam que o Maranhão é hoje o Estado com o maior número de violência na área rural. São 286 áreas de tensão que envolvem conflitos pela terra, onde sete pessoas foram mortas em 2011 e três em 2012. A Pastoral alerta também que 106 pessoas estão ameaçadas de morte e nenhuma tem proteção policial. 

 

A matéria registrou também números sobre o resgate de trabalhadores escravizados, informando que o Ministério do Trabalho e Emprego – MTE, de 1995 até agora, já resgatou quase três mil trabalhadores no Maranhão.  

 

O governo do Estado se posicionou na reportagem, por meio de assessoria, afirmando que rejeita o trabalho escravo e tem tomado iniciativas para acabar com a prática. Em função disso, criou há três anos uma delegacia agrária especializada em investigar crimes no campo. 

 

Para assistir à reportagem do JN no Ar clique aqui.


 

Leia também a reportagem publicada no site do Jornal Nacional. 

 

25-5-2012 – Jornal Nacional

 

Vítimas da violência no campo no Maranhão falam ao JN no Ar

 

O sudoeste do estado tem os mais preocupantes índices de conflitos agrários no país.

 

CRISTINA SERRA Açailândia, MA

 

Uma região do Brasil traumatizada pela violência no campo recebeu nesta sexta-feira (25) a visita da equipe do JN no Ar. O sudoeste do Maranhão tem os mais preocupantes índices de conflitos agrários no país.

 

O que mais chocou foi constatar que muitos trabalhadores são explorados como se fossem realmente escravos. Estamos no século XXI, e a abolição foi no século XIX. O trabalho escravo se insere em um contexto mais amplo de violência no campo, em que muitos trabalhadores vivem ameaçados de morte e amedrontados.

 

A primeira parada do JN no Ar foi em Imperatriz, no sul do Maranhão. De manhã cedo a equipe partiu para uma das regiões mais afetadas pela violência no campo.

 

Em Buriticupu, no começo de abril, o sindicalista Raimundo Alves Borges foi executado a tiros por pistoleiros. Raimundo havia denunciado a ação de grileiros de terras. Seis suspeitos de envolvimento no crime estão presos. Um deles confessou que o bando receberia R$ 5 mil pela morte de Raimundo. A viúva dele, Raimunda dos Santos, teme, agora, pela vida dos filhos:

 

"Eles levaram meu marido e eu não quero que eles levem meus filhos.”

 

Segundo a comissão Pastoral da Terra, o Maranhão é hoje o estado com o maior índice de violência no campo. São 286 áreas de conflito pela posse da terra, sete pessoas foram assassinadas em 2011 e três em 2012; 106 estão ameaçadas de morte. A Pastoral afirma que nenhuma tem proteção policial.

 

Flávio Pereira, coordenador do Comitê de Políticas Públicas, ONG que luta contra crimes ambientais, é um dos marcados para morrer.

 

"A gente meio que não consegue dormir tranquilo. A gente não consegue ficar tranquilo na cidade, porque a sensação que temos é mesmo de impunidade", desabafa.

 

"Fazendeiros são mandatários do poder político local. É uma relação muito próxima com os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário, o que dificulta muito a apuração desses crimes", afirma Diogo Cabral, advogado da CPT.

 

A violência no campo é agravada por outro problema. Açailândia é um foco de aliciamento de mão-de-obra para o trabalho escravo.

 

Na maioria das vezes, a fiscalização encontra os trabalhadores em fazendas de gado, áreas de desmatamento e carvoarias clandestinas. Os trabalhadores são submetidos a jornadas exaustivas. Ficam presos a dívidas com os patrões porque são obrigados a comprar alimentos e remédios nas próprias fazendas. Muitos nem recebem o pagamento e são ameaçados por vigilantes armados. Ou seja, são trabalhadores vivendo, praticamente, em regime de escravidão.

 

Um rapaz, que pede para não ser identificado com medo de represálias, conta a história de um parente, assassinado há quatro anos, quando foi pedir ao fazendeiro para receber um pagamento atrasado:

 

"Uma das maiores dificuldades que ele tinha era questão na hora de receber, entendeu? Que foi o momento que ele foi falar com o fazendeiro para pegar o dinheiro pelo serviço e aí foram assassinados, tanto ele como o seu colega de trabalho".

 

O ex-trabalhador rural Bento da Silva conhece a realidade do trabalho escravo desde muito jovem. Caiu na conversa de um aliciador.

 

"Quando nós chegávamos lá, minha irmã, era outra coisa. Nós caíamos no escravo. Trabalhávamos 60, 90 dias", conta.

 

Ele conseguiu escapar, mas, por necessidade, voltou a trabalhar nessas condições até ser resgatado pela fiscalização do Ministério do Trabalho, quatro anos atrás.

 

No Maranhão, de 1995 até hoje, a fiscalização conseguiu libertar quase três mil trabalhadores, mas é difícil punir os responsáveis por esse crime.

 

"Não é fácil entrar com ação na Justiça, o trabalhador muitas vezes tem medo", diz Nonnato Masson, advogado do Centro de Defesa da Vida.

 

Apesar das dificuldades, os trabalhadores resgatados conseguem encontrar caminhos para refazer a vida. O Centro de Defesa de Açailândia formou uma cooperativa para dar a eles a possibilidade de um trabalho digno.




A ex-trabalhadora rural Elenilde Fernandes foi vítima do trabalho escravo. Acumulou dívidas com o patrão.

 

"Quando a gente ia acertar no fim do mês, não tinha como, já estava devendo", lembra.

 

Hoje, ela é marceneira, em uma cooperativa que fabrica móveis e brinquedos. "Eu acredito que vá melhorar ainda mais", sonha. “Hoje eu me acho no céu.”

 

O governo do Maranhão disse pela assessoria que repudia o trabalho escravo e que tem feito ações para combater essa prática. Disse também que criou há três anos uma delegacia agrária especializada para investigar crimes no campo, e que desde então os casos de violência têm sido investigados. Por fim, disse que desde o ano passado não recebeu nenhum pedido para proteção de trabalhadores e lideranças rurais ameaçadas de morte.

 

Categorias


Versão para impressão




Assine nossa lista de transmissão para receber notícias de interesse da categoria.