A ONG Repórter Brasil conta em reportagem a história de um trabalhador de uma carvoaria em Goiás que, quando foi cobrar seu salário, teve como resposta uma “saraivada” de tiros. Ele não foi atingido, mas fugiu da fazenda e conseguiu denunciar os proprietários de fazendas que produziam e comercializavam carvão vegetal.
De acordo com a matéria, de autoria da jornalista Bianca Pyl, o trabalhador não pôde fazer a denúncia na delegacia. Os policiais se recusaram a registrar o boletim de ocorrência pela ausência dos autores dos disparos. Mesmo assim, Paulo (nome fictício) não desistiu e buscou em outra cidade uma unidade do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE).
A partir da denúncia do trabalhador, a Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE/GO) resgatou 69 pessoas de situação análoga a escravidão, entre elas, cinco adolescentes em julho deste ano. Segundo o Auditor-Fiscal do Trabalho que coordenou a operação, foi um dos maiores esquemas de exploração de trabalhadores já vistos no Estado.
O Sinait noticiou essa operação no dia 1º de agosto. Mais detalhes aqui.
26/08/2011
Repórter Brasil
Fome, descaso e tiros agravam esquema de escravidão
Organizada a partir de denúncia de trabalhador que conseguiu escapar de uma carvoaria, operação da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE/GO) liberta 69 pessoas de trabalho escravo no Norte do Estado
Por Bianca Pyl
A resposta que Paulo* recebeu quando tomou coragem para cobrar o salário atrasado foi uma saraivada de tiros. As balas não o atingiram e ele conseguiu fugir da carvoaria em que trabalhava. Saiu em busca de providências para dar um basta ao cotidiano de sofrimento que compartilhava com outros colegas migrantes de Minas Gerais que enfrentavam as mesmas condições desumanas de trabalho e de vida na região Norte de Goiás.
Após escapar do atentado, ele seguiu à pé da fazenda até o posto da Polícia Civil de Santa Terezinha de Goiás (GO). Deparou-se, porém, com a recusa dos policiais em registrar o episódio na forma de boletim de ocorrência. "Eles me disseram que só registrariam a queixa se eu tivesse com ele [autor dos disparos] lá. Como eu poderia estar com ele lá? Ele é poderoso na cidade. Dá medo", relatou Paulo* à Repórter Brasil.
Mesmo assim, ele não desistiu. Determinado, dormiu na rodoviária e teve até que vender uma das poucas peças de roupa que ainda tinha para juntar os recursos necessários para chagar até uma unidade do Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e relatar o ocorrido. Cumprida a missão, Paulo* foi brindado com o abrigo oferecido por uma entidade civil.
A operação organizada pela Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de Goiás (SRTE/GO) a partir das indicações dele resultou na libertação de 69 pessoas de condições análogas à escravidão, incluindo cinco adolescentes entre 15 e 17 anos, que trabalhavam em 11 carvoarias.
"Trata-se de um dos maiores esquemas de exploração de trabalhadores já vistos em Goiás", declarou Roberto Mendes, que coordenou a fiscalização. Os flagrantes ocorreram em julho último e foram acompanhados pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) e pela Polícia Federal (PF).
Os empregados desmatavam a mata nativa do Cerrado, produziam carvão vegetal nos fornos e continuava até a entrega do produto em Minas Gerais. "Várias siderúrgicas compravam o carvão, mas não havia notas fiscais no local para apurarmos a cadeia produtiva", adicionou Roberto.
Esquema
A exploração criminosa de trabalhadores envolvia um grupo familiar que vinha atuando há mais de seis anos na produção e comercialização de carvão vegetal na região, sempre de forma irregular. São ao menos sete os envolvidos, todos de uma mesma família: Francisco Braz Cavalcante, conhecido como "Paraíba"; Francisco Cezar Cavalcante (pai de "Paraíba"); Marli Pereira Cavalcante (esposa do Paraíba); Pedro Braz Cavalcante (irmão de "Paraíba"); Cícero Aguiar Pereira Cavalcante (filho de "Paraíba"), além de Ricardo e Eduardo Braz Cavalcante (ambos sobrinhos do mesmo "Paraíba").
O acusado da tentativa de homicídio é Walter Lopes Cançado, que tem os apelidos "Nenzin" e "Nenzico", que também foi considerado como co-autor do crime de trabalho escravo pela equipe de fiscalização.
As propriedades fiscalizadas foram as seguintes: Fazendas Santa Cruz e Óregon, em Santa Terezinha de Goiás (GO); Fazendas Areião, Alegre Córrego Jatobá, Crixazinho e Jatobá, em Crixás (GO); Fazenda Mutum ou São Francisco, em Pilar de Goiás (GO); Fazenda Many, povoado de Mandinópolis, em Guarinos (GO); Fazenda Xavier ou Sete Estrelas, em Uirapuru (GO); e Fazenda Tarumã, em Nova Crixás (GO). Os proprietários das áreas citadas também serão responsabilizados pela fiscalização trabalhista.