Os flagrantes foram feitos em Sorocaba (SP) e exibidos em reportagem do Jornal da Globo. Gerente Regional reclama da falta de Auditores-Fiscais do Trabalho para atender a demanda
O descumprimento às normas de segurança na construção civil e os acidentes de trabalho foram retratados em matéria veiculada pelo Jornal da Globo nesta segunda-feira, 18. A matéria evidencia a falta de Auditores-Fiscais do Trabalho para fiscalizar o cumprimento dessas normas na Região de Sorocaba, São Paulo, onde dois trabalhadores da construção civil morreram soterrados há poucos dias.
Os acidentes de trabalho na construção civil têm ocorrido em todo o País, e têm aumentado, em particular em São Paulo, onde vários acidentes foram noticiados pela imprensa especializada nos últimos meses. Porém, a maioria não chega ao conhecimento da população, pois não são divulgados pela grande mídia. É como se fossem invisíveis, mas engrossam estatísticas de trabalhadores mortos, mutilados, afastados do trabalho. Quem arca com os custos dessa tragédia é o Estado, que gasta milhões de reais em pagamentos de benefícios variados.
De acordo com o Auditor-Fiscal do Trabalho Vitório Cattai, Gerente Regional da Gerência Regional do Trabalho e Emprego de Sorocaba (SP), a fiscalização na área da construção civil hoje atende praticamente somente a denúncias, cuja maioria vem do Ministério Público do Trabalho - MPT. Ele lamenta que as fiscalizações de rotina, que identificam onde está o risco, não estejam sendo realizadas, em prejuízo dos trabalhadores. Cattai também considera que o sindicato que representa os trabalhadores do setor poderia ser mais atuante e colaborar com a fiscalização, pois os sindicalistas conhecem a realidade dos canteiros de obras.
Vitório disse à reportagem do Sinait que atualmente conta com 15 Auditores-Fiscais do Trabalho na sede, sendo apenas três especializados na área de segurança e saúde. O ideal, segundo ele, seria ter cerca de 50 em toda a jurisdição – que abrange em torno de 40 municípios –, contingente que existiu na década de 1980. “É humanamente impossível fiscalizar com um número tão pequeno de Auditores”, diz, frisando que alguns deverão se aposentar até 2012, inclusive ele próprio.
Os problemas da Gerência de Sorocaba alcançam também a área administrativa, que tem apenas 17 servidores em toda a região. Na sede são 11 servidores e a necessidade seria de pelo menos 20. Quanto à estrutura física o quadro é um pouco melhor, pois a Gerência está em um prédio novo e recebeu computadores do MPT, fruto de Termos de Ajustamento de Conduta – TACs. Desta forma também conseguiram a reforma de uma caminhonete usada para viagens.
Como toda a categoria, Vitório Cattai bate na tecla da realização de concurso público para aumentar o número de Auditores-Fiscais do Trabalho. Sem a estrutura adequada, diz ele, a metodologia de projetos fica comprometida e afeta os resultados globais. Ele defende também a especialização dentro da carreira única, com capacitação de todos os Auditores-Fiscais do Trabalho para realizar mais tarefas, porém, resguardando o conhecimento específico.
Obras de infraestrutura
O Ministério do Trabalho e Emprego, além das fiscalizações de rotina e dos projetos desenvolvidos no âmbito das Superintendências e Gerências Regionais do Trabalho e Emprego, mantém um Grupo Especial de Fiscalização de Obras de Infraestrutura que funciona desde 2009 para fiscalizar obras de grande porte, como as hidrelétricas em construção na Região Norte. Aí também são registrados problemas de funcionamento. O grupo atualmente não conta com uma equipe fixa, o que deve ocorrer a partir do próximo ano. As equipes são formadas a partir da disponibilidade de Auditores-Fiscais do Trabalho que voluntariamente se oferecem para participar da equipe, e que são contatados a cada operação.
No ano passado o grupo fez seis grandes ações e outras deixaram de ser feitas por falta de recursos humanos e financeiros. Este ano o grupo realizou quatro ações de fiscalização, e mais seis estão previstas até o fim do ano. Outra grande ação está sendo coordenada pelas 12 Superintendências Regionais do Trabalho Emprego dos Estados que serão sede dos jogos da Copa do Mundo de 2014 para fiscalizar as construções de estádios.
“Fica evidente que a estrutura do Ministério do Trabalho e Emprego não está acompanhando o crescimento da demanda e precisa se adequar para dar a cobertura necessária aos trabalhadores. Foram criados cerca de 15 milhões de empregos nos últimos oito anos, mas o número de Auditores-Fiscais do Trabalho, ao contrário, diminuiu. É uma conta óbvia, que em algum momento iria estourar”, diz a presidente do Sinait, Rosângela Rassy.
O Sinait vem denunciando a falta de Auditores-Fiscais do Trabalho, os cortes de orçamento e o sucateamento de várias Superintendências. Atualmente há um movimento pela nomeação de 220 candidatos aprovados no concurso realizado em 2010 e para a realização de um novo concurso em 2012.
Veja a matéria do Jornal da Globo aqui.
18-7-2011 – Jornal da Globo
Flagrantes mostram desrespeito à segurança em obras do interior de SP
Equipe do Jornal da Globo flagrou pedreiros e serventes em cima de lajes sem capacetes e luvas. Delegacia Regional do Trabalho diz que não tem funcionários para fiscalizar todas as obras.
A construção civil tem ajudado o Brasil a crescer, mas ainda precisa resolver um grave problema: o descumprimento de normas de segurança.
No ano passado, o Ministério do Trabalho fez mais de 150 mil ajustes em obras. Hoje, a nossa equipe flagrou o descaso de trabalhadores com itens essenciais de segurança.
Em Sorocaba, no interior de São Paulo, 300 condomínios estão sendo erguidos. O problema é que muitas vezes as regras de segurança são desrespeitadas nos canteiros de obra.
A equipe do Jornal da Globo flagrou pedreiros, serventes, armadores em cima da laje, e muitos não usavam capacetes e luvas. O equipamento de proteção é obrigatório. Quando o encarregado percebeu a presença da equipe, em poucos minutos, os capacetes apareceram e foram entregues aos trabalhadores.
"Capacete tem, luva tem, bota tem, tem tudo. Dá pra eles e eles não querem usar", diz o encarregado de obra, João Batista da Silva.
Em outra obra, os funcionários denunciam: os equipamentos que deveriam ser entregues de graça estão sendo cobrados.
A Delegacia Regional do Trabalho diz que não tem funcionários para fiscalizar todas as obras.
Eles só vão até os canteiros de obra quando há denúncias. São apenas 12 fiscais para percorrer 42 cidades na região de Sorocaba.
"Temos necessidade de, no mínimo, de 35 a 40 para região. É humanamente impossível você fiscalizar com um número tão pequeno de auditores”, fala o delegado Regional do Trabalho, Victorio Cattai.
Em Sorocaba, dois trabalhadores da construção civil morreram soterrados. Eles abriam uma vala quando foram cobertos pela terra. No local não há placas indicando o tipo de obra e nem o responsável técnico por ela.
Em Jundiaí, a 60 quilômetros, por pouco o pedreiro Edmir Alves não morreu. Ele trabalhava quando o muro caiu em cima dele. O operário não usava capacete.