Auditores Fiscais do Trabalho em Porto Alegre (RS) interditaram obras do estádio que está sendo construído para sediar treinos de times que irão disputar os jogos da Copa do Mundo em 2014. Eles encontraram irregularidades nos alojamentos e refeitório dos trabalhadores, a maioria trazida de estados da Região Nordeste e sem Carteira de Trabalho assinada. São características bastante semelhantes ao processo de aliciamento de trabalhadores escravizados.
Várias obras ligadas à realização da Copa do Mundo de 2014 e às Olimpíadas de 2016 estão sendo questionadas por irregularidades pelo Ministério Público Federal. Além dos problemas de projetos e de licitação de empresas para a construção, as questões de descumprimento da legislação trabalhista também preocupam e deverão ser objeto de fiscalização constante.
Veja matérias sobre a interdição das obras em Porto Alegre:
1º-3-2011 – Blog De olho em 2014
Nordestinos trabalham em condições precárias na Arena Grêmio; obra é parcialmente interditada
Os 350 operários que vieram do nordeste do Brasil para construir a nova Arena do Grêmio, em Porto Alegre, estão vivendo em péssimas condições de trabalho e higiene. Em greve desde a última quinta-feira, supostamente por ganharem menos do que o prometido e não poderem visitar seus familiares no período estipulado, os trabalhadores enfrentam problemas bem maiores. Até agora, poucos tiveram a carteira assinada. No canteiro de obras, onde, segundo a legislação vigente, deveria haver um banheiro para cada 20 homens, existem apenas 3 sanitários. E no alojamento mais próximo, a insalubridade é total.
Devido às condições em que se encontravam os trabalhadores, parte do canteiro de obras foi interditado no fim da tarde desta terça-feira (1º), segundo informou a este blog Gelson Santana, secretário geral do Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil de Porto Alegre (STICC/POA). Segundo o sindicalista, a área de vivência, que inclui os banheiros, refeitório, chuveiros e alojamentos, foi o alvo da interdição. Ainda segundo Santana, devido à greve dos trabalhadores, os fiscais do trabalho não puderam verificar as condições efetivas de trabalho dos operários.
Na manhã de terça-feira (1º), enquanto os operários e representantes do STICC/POA aguardavam alguma informação da construtora OAS, o blog visitou, na companhia de fiscais do Ministério do Trabalho, o alojamento onde vivem 45 homens. E o que encontramos lembra, em muito, as piores prisões brasileiras. Na casa de dois andares, há quartos sem janelas, fios de eletricidade expostos e banheiros sem água quente. Ao meio-dia, a refeição chegou fria. E, na falta de mesa e cade iras, os trabalhadores comeram em seus beliches - ou em pé.
Até o fechamento no meio da tarde, os auditores do Ministério do Trabalho continuavam reunidos no escritório da construtora OAS, dentro do canteiro de obras. Por volta do meio-dia, o sindicato solicitou à segurança da empresa que atendesse três homens que passavam mal em frente ao portão, apresentando febre e dor de cabeça - um deles procurou a Santa Casa de Porto Alegre no dia anterior, mas não teve dinheiro para comprar os remédios.
Somente cinquenta minutos depois, assim que chegaram os fiscais do Trabalho, a OAS enviou uma caminhonete para levar os trabalhadores doentes ao ambulatório. Abordado pelo fiscal, o funcionário da OAS não quis se identificar e pediu ao motorista que arrancasse o carro. Atentos à conversa, os operários conseguiram sair rapidamente da frente do veículo e não se feriram.
“Os trabalhadores estão passando por maus tratos”, declarou Dercírio Cardoso Silva Jr., do STICC/POA. Às 16h, chegou ao local Vicente Martins, da direção da Grêmio Empreendimentos. Depois de ver as condições precárias dos trabalhadores, o executivo entrou na reunião entre OAS e Ministério do Trabalho.
Procurados por este blog nesta terça-feira, a empresa OAS, responsável pela obra, e o SITICEPOT / RS (Sindicato Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada do Rio Grande do Sul), que vem tratando da greve junto à construtora, não atenderam aos telefonemas da reportagem.
2-3-2011 – Globo Esporte
Após paralisação, obras da Arena do Grêmio são embargadas
Ministério do Trabalho encontra irregularidades no local onde estádio é construído
Fiscais do Ministério do Trabalho visitaram na tarde de terça-feira as obras no local onde será erguida a nova Arena do Grêmio, no bairro Humaitá, em Porto Alegre. Após constatarem irregularidades, parte do canteiro de obras foi interditada - a "área de vivência", onde estão o alojamento e o refeitório, entre outras instalações.
Segundo a Rádio Gaúcha, as obras foram embargadas. Os funcionários iniciaram uma paralisação no final da última quinta, quando iniciaram as visitas dos fiscais e sindicalistas.
No local trabalham aproximadamente 350 operários egressos em sua maioria da região Nordeste do país. Eles reivindicam melhores condições de trabalho. Muitos não tiveram a carteira assinada. Nos alojamentos os quartos apresentam más condições.
As obras serão reiniciadas após a realização das melhorias nos locais interditados pelo Ministério do Trabalho. A construtora OAS, responsável pela obra, ainda não se pronunciou sobre o embargo.
Além das melhorias na área de vivência do canteiro de obras, os operários cobram a assinatura das carteiras de trabalho, e reivindicam ainda aumento de 10% nos salários e menor intervalo nas folgas para visitar os familiares no Nordeste.
A Arena está em construção, com inauguração prevista para o final de 2012. O novo estádio do Grêmio foi definido como sede oficial de treinos para a Copa do Mundo de 2014.