Estudo comprova efeitos negativos nos trabalhadores do corte da cana-de-açúcar


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
24/02/2011



A pesquisadora Lúcia Cavalieri, na Universidade de São Paulo (USP), dedicou cinco anos de trabalho para concluir sua tese de doutorado sobre os efeitos negativos que a exploração da mão-de-obra nos canaviais – produtoras de álcool e etanol - traz aos trabalhadores do corte e suas famílias.

Segundo ela, que concentrou a pesquisa na região do Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, moradores saem de seus municípios de origem para trabalharem nos canaviais e sofrem desgaste emocional no período do corte por estarem longe de suas famílias. Lúcia  constatou que o desgaste também ocorre nas famílias que ficam.

 Além do desgaste emocional, há trabalhadores que morrem por conta das condições degradantes de trabalho. Apesar de o álcool ser considerado uma alternativa menos poluidora na produção de energia e combustível, a pesquisadora afirma que o “argumento ambiental não pode prevalecer sobre o aspecto social”.

Trabalho Escravo – Um dos estados com grande índice de resgates de vítimas em condições análogas a de escravos nos canaviais é São Paulo, que atrai milhares de trabalhadores vindos de regiões pobres do Nordeste e Sudeste. 

 De acordo com a o Grupo Estadual Rural da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego de São Paulo (SRTE-SP), até o 1º semestre de 2010 foram encontrados mais de 680 trabalhadores irregulares atuando no corte da cana.

 Durante as operações, os problemas mais encontrados nos alojamentos pelos Auditores Fiscais do Trabalho da SRTE-SP são: falta de condições sanitárias e de higiene, além da falta de água potável. Os trabalhadores também trabalham sem Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s) inadequados e quase sempre sem proteção ao sol.

Confira matéria sobre o estudo publicada na Agência USP.

 22/02/2011

Agência USP

Exploração de trabalho contamina produção de etanol

Estudo desenvolvido na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP identificou os efeitos que a migração sazonal de camponeses do Vale do Jequitinhonha - para o corte de cana-de-açúcar e produção de açúcar e etanol - causa nas famílias desta localidade, considerada uma das mais pobres do país.

O estudo faz parte da tese de doutorado da geógrafa Lúcia Cavalieri e levou cinco anos para ser concluído. A pesquisa de campo, que coletou dados durante quatro meses, foi realizada em duas comunidades rurais: Alfredo Graça e Engenheiro Schnoor, ambas localizadas no município de Araçuaí, no Vale do Jequitinhonha.

Segundo dados do estudo, apenas em 2007, cerca de 7.000 homens da região de Araçuaí, deixaram sua família e sua terra e migraram para cortar cana na produção industrial do açúcar e do álcool no interior do estado de São Paulo. De acordo com a pesquisadora, o estudo, além de ser um importante para o campesinato brasileiro, evidencia o outro viés da produção de etanol e de açúcar."Além dos homens fazerem um trabalho degradante nas plantações de cana-de-açúcar, eles também ficam cerca de nove meses longe de suas famílias. Isso causa grande desgaste emocional e desestruturação familiar. Esse é o custo que uma parcela das famílias brasileiras paga para obtermos a, equivocadamente chamada, energia limpa proveniente do etanol da cana-de-açúcar", infere Lúcia.

Famílias

O pesar não é apenas dos bóias-frias que partem. "As mulheres são as que mais sofrem neste processo", afirma a pesquisadora, "são mulheres fortes, que trabalham na terra, exercem atividades domésticas e que ainda são responsáveis por conceder aos serviços básicos e de educação. Contudo, sentem a ausência das relações familiares e dos maridos, que passam ao menos nove meses longe".

Contudo, estas famílias ainda permanecem nos seus municípios de origem, mantendo uma migração temporária. Este aspecto peculiar, segundo a pesquisadora, deve-se às comunidades possuírem uma identidade muito forte e um sentimento de pertencimento àquela porção de terra e àquele modo de vida. "O dia a dia e o tratar da terra faz muito sentido. Mais sentido do que a vida fora da comunidade".

Usinas de etanol

Os baixos salários pagos pelas usinas de processamento de cana-de-açúcar aos cortadores influi diretamente na qualidade de vida destes. "Por receberem por produção (toneladas/dia) e não por horas de trabalho, muitos cortadores morrem por exaustão, no intuito de auferir um pouco mais de renda à família", expõe a pesquisadora.

Segundo ela, o argumento ambiental não pode prevalecer sobre os aspectos sociais. "Enquanto as usinas recebem incentivos governamentais para a produção de etanol, em grandes porções de terras, as famílias dos cortadores, continuam em situação econômica e social precárias", conclui.

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