Por Cléber Nilson Amorim Junior
Auditor Fiscal do Trabalho e autor do livro SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO: Princípios Norteadores.
“Subiu a construção como se fosse máquina. Ergueu no patamar quatro paredes sólidas. Tijolo com tijolo num desenho mágico. Seus olhos embotados de cimento e lágrima” — Chico Buarque, Construção (1971)
Em primeiro lugar, cabe destacar que a música "Construção", lançada por Chico Buarque em 1971, transcende a mera crônica social para se consolidar como uma das mais pungentes representações artísticas da alienação e do esgotamento do trabalhador. Ao narrar minuciosamente o último dia de vida de um operário da construção civil, a obra desnuda a engrenagem que tritura a subjetividade do trabalhador moderno. A genialidade da canção reside na construção de uma melodia reiterativa e repetitiva, mimetizando o próprio ritmo fabril e sistemático onde o operário atua como um autômato.
Sob a ótica da saúde ocupacional, os versos iniciais evidenciam o processo de desumanização que antecede o acidente fatal, sintetizado no verso "subiu a construção como se fosse máquina". A análise dos riscos psicossociais modernos nos ensina que a perda de identidade e a robotização do indivíduo no ambiente de trabalho operam um severo desgaste psíquico. A rotina maçante e a exigência de produtividade máxima em prejuízo da segurança geram o que a psicopatologia do trabalho classifica como fadiga crônica, em que o trabalhador atua no piloto automático, com seus "olhos embotados de cimento e lágrima" — o retrato fiel de um organismo que colapsa silenciosamente sob o peso da jornada.
Além disso, a circularidade lírica da composição, com a constante troca das palavras proparoxítonas ao fim dos versos, expõe a transição do operário de sujeito ativo a objeto descartável do sistema econômico. A ação de comer o feijão com arroz "como se fosse um príncipe" ou "como se fosse o máximo" revela a drástica redução da existência humana às funções fisiológicas básicas de recomposição da força de trabalho. Quando as estrofes finais desumanizam as ações (o operário ama "como se fosse máquina" e beija sua esposa "como se fosse lógico"), Chico Buarque ilustra com precisão o conceito de alienação do trabalho, onde a apatia mental impede o trabalhador de se reconhecer fora da lógica produtiva.
Nesse sentido, o fatídico desfecho em que o operário "tropeçou no céu como se fosse um bêbado" e "se acabou no chão feito um pacote flácido" aponta para a negligência patronal no gerenciamento de riscos. O que a narrativa descreve poeticamente como um "voo" é, sob a análise técnica da Auditoria-Fiscal do Trabalho, um típico acidente de trabalho por queda em altura, decorrente da ausência de medidas coletivas e individuais de proteção. A indiferença social que se segue, expressa no chocante verso "morreu na contramão atrapalhando o tráfego", escancara a lógica utilitarista que enxerga o trabalhador acidentado não como uma perda humana irreparável, mas apenas como um transtorno operacional temporário ao fluxo do capital.
Por fim, cabe a nós, Auditores-Fiscais do Trabalho, extrair da obra de Chico Buarque a urgência de uma atuação firme na fiscalização dos ambientes laborais, com especial enfoque na organização do trabalho e na saúde mental dos obreiros. Atuar preventivamente para que o operário não seja reduzido a uma máquina e para que o canteiro de obras não seja o palco de sua queda física e mental é o cerne do nosso papel social. Que a denúncia poética de Construção continue a nos inspirar na busca por condições dignas de trabalho, garantindo que a vida humana jamais seja tratada pelo mercado como mero "pacote" descartável.
Referências Bibliográficas
Confira letra e música aqui da obra “Construção” (1971) de Chico Buarque.