O Compromisso Nacional para o Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho na Indústria da Construção Civil apresentado pelo governo no começo de março como um "novo paradigma" nas relações entre trabalhadores, empresários e governo não provocou até agora mudanças significativas no setor. Problemas graves persistem, mesmo nas grandes obras, para as quais o texto foi especialmente construído. O exemplo disso é a situação delicada nos canteiros das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, duas das principais obras do país, nos quais aproximadamente 43 mil operários fizeram uma nova greve - 18 mil em Jirau e 25 mil em Santo Antônio, de acordo com a Federação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada (Fenatracop).
Em ambos, a mobilização tem como principal reivindicação o aumento salarial (antes da data-base em novembro), salários equiparados entre as frentes, aumento do valor da cesta básica e folgas a cada três meses (hoje são a cada seis) para visitarem as famílias.
Na sexta-feira, 30 de março, o fim da greve foi objeto de um acordo “costurado” no Tribunal Regional do Trabalho, em Porto Velho (RO), entre as empresas, o Sindicato dos Trabalhadores da Indústria de Construção do Estado de Rondônia (Sticcero) e comissões de empregados. As empresas concederam 7% de aumento antecipado - antes da data-base em maio - e um reajuste de R$ 170 para R$ 220 no valor referente à cesta básica para quem ganha até R$ 1.500. Segundo as empresas, são 80% dos funcionários. Quem tem salários superiores terá 5% de reajuste. No acordo firmado os trabalhadores também conseguiram comprometimento das empresas a pagar, até 10 de abril, os dias que foram descontados dos funcionários no mês de março, enquanto a greve estava em curso.
O acordo foi aceito pela maioria dos trabalhadores em assembleia nesta segunda-feira, 2 de abril. As negociações, entretanto, continuarão, segundo os sindicalistas, pois há uma pauta com mais de 50 itens pendentes.
A Comissão de Negociação de Resolução de Conflitos das obras do PAC de Rondônia tem acompanhado as assembleias dos trabalhadores para monitorar as negociações e ajudar no que for preciso. A Comissão é formada quatro Auditores-Fiscais do Trabalho, entre estes o Superintendente Regional do Trabalho e a chefe da Seção de Relações do Trabalho – SERET.
Mais informações sobre os problemas nestas obras que são motivo de denúncias recebidas constantemente pelo Ministério Público do Trabalho nas matérias abaixo, da Rede Brasil Atual e da Repórter Brasil, que ajudam a entender melhor a situação dos trabalhadores.
2-4-2012 – Rede Brasil Atual
Trabalhadores das hidrelétricas do Rio Madeira, em Rondônia, decidem encerrar greves
Vanessa Ramos, da Rede Brasil Atual
São Paulo – Os trabalhadores nas obras das hidrelétricas de Santo Antônio e Jirau, em Rondônia, decidiram hoje (2) encerrar a greve iniciada em meados de março. Na última sexta (30), o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria da Construção Civil do Estado de Rondônia (Sticcero) se reuniu com representantes das empresas Camargo Corrêa, Odebrecht e Enesa em audiência de conciliação no Tribunal Regional do Trabalho (TRT) da 14ª Região.
Segundo o sindicato, os termos negociados visando ao encerramento da paralisação foram aprovados por 80% dos trabalhadores. O acerto prevê reajuste de 7% para os que ganham até R$ 1.500 no salário-base e de 5% para os que recebem acima disso. Houve também aumento no valor da cesta básica para R$ 200 e R$ 220, de acordo com a faixa salarial. Os dias parados serão abonados – até o dia 10, as empresas deverão reembolsar o valores já descontados em março. “Os acordos não acabam agora, continuaremos as articulações para melhorias de reajustes no salário e na cesta básica”, disse o presidente do sindicato, Raimundo Soares da Costa.
De acordo com Guilherme Valeriano, trabalhador na construção da hidrelétrica de Jirau e membro da comissão da negociação, existe uma pauta de 52 itens pendentes. “Entre as nossas principais lutas ainda estão o reajuste de 30% em nossos salários, cesta básica no valor de R$ 510, o cartão de saúde abrangendo toda a família e não apenas os operários, melhoria na participação nos lucros e alteração no período de folga”, afirma. Os operários pedem também um intervalo de cinco dias de folgas a cada 70 dias – atualmente é a cada 90 dias.
De acordo com Claudio Gomes, presidente da Confederação Nacional dos Sindicatos de Trabalhadores nas Indústrias da Construção e da Madeira (Conticom), filiada à CUT, a continuidade das negociações em torno dos itens pendentes foi uma das condições acertadas na audiência de sexta-feira no TRT. A expectativa dos trabalhadores é chegar a um acordo mais amplo ainda na primeira quinzena de abril.
28-3-2012 - Repórter Brasil
Mesmo com acordo, greves e violações persistem em obras
Menos de um mês após assinatura, trabalhadores cruzam os braços e denunciam violações. Em Jirau e Santo Antônio 43 mil fazem greve
Por Bianca Pyl, Daniel Santini e Carlos Juliano Barros, enviado a Rondônia
São Paulo e Rondônia - Apresentado pela presidente Dilma Rousseff no começo deste mês como um "novo paradigma" nas relações entre trabalhadores, empresários e governo o Compromisso Nacional para o Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho na Indústria da Construção não provocou até agora mudanças significativas no setor (leia o
discurso da presidente e o texto do
acordo na íntegra). Problemas graves persistem, mesmo nas grandes obras, para as quais o texto foi prioritariamente pensado.
A situação é especialmente delicada nos canteiros das hidrelétricas de Jirau e Santo Antônio, no Rio Madeira, em Rondônia, duas das principais obras do país, nos quais cerca de 43 mil operários fazem greve - 18 mil em Jirau e 25 mil em Santo Antônio, de acordo com a Federação Nacional dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada (Fenatracop). Em ambos, a mobilização tem como principal reivindicação aumento salarial e de benefícios.
No canteiro de obras de Jirau, onde em 2009 foram
libertadas 38 pessoas em condições análogas às de escravo, além de cobrarem reajustes salariais, os trabalhadores denunciam abusos por parte das forças policiais que garantem a continuidade da obra. Desde março de 2011, quando a insatisfação generalizada explodiu em uma
revolta com a destruição de parte das instalações, tropas ocupam o local, exibindo armamento pesado como escopetas e espingardas calibre 12. Um operário de Jirau ouvido pela
Repórter Brasil conta que, por ter esquecido o crachá, foi agredido na portaria do canteiro de obras. "Um policial me pegou pela camisa e o outro já chegou metendo a mão no meu peito", diz, afirmando ter sido machucado pelas agressões que se seguiram à abordagem inicial. "Tem uma foto minha escarrando sangue. Registrei e fui para a delegacia fazer um Boletim de Ocorrência", relata.
Em Santo Antônio, onde, em junho de 2010, o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) registrou 196 infrações trabalhistas no canteiro do empreendimento liderado pelas empresas que compõem o consórcio Santo Antônio Energia, os responsáveis se desdobram para evitar que as reclamações e protestos afetem a imagem do grupo de grandes empresas. Ao mesmo tempo em que procuram administrar a paralisação, as construtoras tentam
credenciar o empreendimento para a venda de créditos de carbono.
Os problemas se agravam, no entanto, e ganham repercussão. Frente às seguidas denúncias recebidas, o Ministério Público do Trabalho (MPT), a Comissão Pastoral da Terra (CPT), o Serviço Pastoral do Migrante (SPM)e a Comissão de Justiça e Paz da Arquidiocese de Porto Velho escolheram como tema para um debate nesta semana na Igreja Catedral de Porto Velho as "Violações de direitos humanos e trabalhistas nas Usinas do Madeira."
Representatividade
Apesar de ter sido anunciado como um acordo que mudaria as relações trabalhistas na construção civil em todo o Brasil, o compromisso foi assumido apenas por nove empresas, que puderam optar por segui-lo por obra e não como uma nova política permanente. Hoje, o acordo abrange dez obras (veja tabela). Isso em um contexto em que paralisações acontecem de Norte a Sul. Segundo a Fenatracop, 138,5 mil trabalhadores do setor entraram em greve recentemente. Muitos permanecem. A maioria das mobilizações, 75%, afetou as regiões Norte, Nordeste e Centro-Oeste, onde, de acordo com a federação, "salários e condições de trabalho são piores e a informalidade é a regra".
Soma-se a greve de 43 mil em andamento em Rondônia, paralisações em pelo menos mais duas obras de construtoras que acabaram assinando o acordo: na da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Pará (com a participação de 2 mil trabalhadores), e na do Estádio Castelão, no Ceará (2,5 mil). Entre os principais objetivos do compromisso, que foi assinado em 14 de fevereiro após uma negociação que envolveu 19 reuniões em 9 meses, está a ampliação da capacidade de representatividade dos trabalhadores nas grandes obras no país.
Além da presença permanente de representantes sindicais para a "resolução imediata de questões envolvendo patrões e empregados, favorecendo a produtividade e o bom andamento das obras" - conforme comunicado da Secretaria-Geral da Presidência da República, o acordo prevê a criação de uma Mesa Nacional Tripartite Permanente para a Melhoria das Condições de Trabalho, reunindo autoridades, empresários e trabalhadores. "O consenso na formulação do Compromisso é um importante passo na construção de uma relação menos conflituosa entre empregadores e trabalhadores. O documento prevê a representação sindical no local de trabalho, que além de representar o atendimento a um pleito histórico dos trabalhadores, certamente será um importante instrumento na prevenção de conflitos", defende o ministro do Trabalho, Paulo Roberto Pinto, em entrevista por e-mail à Repórter Brasil.
A estratégia não tem, porém, dado os resultados esperados. Em Jirau, a tentativa de ampliar o diálogo fracassou e os próprios representantes dos sindicatos que tentaram intermediar as negociações acabaram vaiados pelos trabalhadores. Na segunda-feira, dia 26 de março, a assembleia em que era discutida a continuidade ou não da greve foi encerrada com operários atirando objetos contra o carro de som.
Compromissos
Entre os compromissos assumidos pelas empresas está a adoção de medidas preventivas para garantir o cumprimento de direitos que já estão previstos na legislação. A principal é em relação à contratação de trabalhadores. Para evitar o aliciamento de trabalhadores por intermediários nem sempre bem intencionados, os gatos, prática comum em projetos de grande porte que mobilizam grandes contingentes de migrantes, o documento prevê que as empresas devem "sempre que possível" tentar utilizar o Sistema Nacional de Emprego (Sine), criado e gerenciado pelo governo federal. Apesar de ampliar a possibilidade de fiscalização e controle de infrações por parte do Estado, a mera adoção de tal método não é por si só uma garantia, já que há casos de aliciadores que se aproveitam da própria estrutura oficial, conforme
reportagem publicada em dezembro de 2010.
As subcontratadas das construtoras nas obras também devem seguir as diretrizes adotadas. Além de medidas já previstas na legislação, que devem ser cumpridas pelas empresas com ou sem acordos específicos, o compromisso prevê ainda que as empresas devem custear deslocamento, alojamento, alimentação e atendimento médico de urgência e emergência e assumir todos os gastos da etapa inicial de seleção, bem como ações para formação e qualificação dos empregados. Também estão previstas medidas relativas à segurança do trabalhador, como a criação de comissões permanentes nas obras.
O acordo é visto com reservas mesmo pelos sindicalistas que participaram da negociação. O fato de as construtoras poderem escolher a adesão por obra é um dos principais problemas, de acordo com representantes de trabalhadores. "A empresa vai aceitar o acordo onde interessa para ela, em obras com muitos trabalhadores", disse Admilson Lucio de Oliveira, presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Nas Indústrias da Construção (CNTIC), uma das signatárias. Ele diz que vê a abertura ao diálogo por parte das construtoras como algo positivo, apesar da crítica.
Para o vice-presidente da Federação Internacional dos Trabalhadores na Construção e da Madeira para América Latina, Edison Bernardes, o acordo peca por não avançar em pautas importantes para os trabalhadores da categoria, como o piso salarial nacional e por proporcionar ganhos aos trabalhadores por adesão e não de maneira generalizada. "Com certeza, há avanços importantes para o setor, em alguns pontos que há dificuldades para controlar, como o aliciamento de mão de obra", diz.
Auditores fiscais também criticam a adesão por obra."É preciso uma uniformidade na aplicação do Direito do Trabalho, algo que teria que ser nacional não só pontual”, analisa Luiz Alfredo Scienza, auditor fiscal há 28 anos, que trabalha no projeto de Construção Civil da Superintendência Regional do Trabalho e Emprego do Rio Grande do Sul (SRTE/RS). “Parece-me que [o pacto] visa que a obra não pare e para isso são concedidos alguns direitos”, aponta.
Ele acredita que a iniciativa de se estabelecer um acordo e um diálogo permanente entre as diferentes partes envolvidas é importante, mas da maneira como foi feito, o Compromisso afirma a “falta de estrutura do próprio Estado em fiscalizar essas obras”. E defende que a área de Saúde e Segurança do Trabalho dentro da Secretaria de Inspeção do Trabalho (SIT) – vinculada ao MTE – precisa de melhor estrutura e pessoal. No Rio Grande do Sul, segundo o auditor, de 35 auditores fiscais trabalhando neste setor em 1985, hoje são cerca de 20. "É preciso reconhecer a importância estratégica deste setor”, ressalta, apontando a importância de prevenir acidentes de trabalho e mortes.
Histórico
Um dos principais articuladores do acordo estabelecido é José Lopez Feijóo, assessor da secretaria geral da Presidência da República, hoje encabeçada pelo ministro Gilberto Carvalho. Segundo ele, foram os seguidos problemas nas obras das hidrelétricas do Rio Madeira nos últimos anos que fizeram o governo se preocupar em articular um acordo voltado para as grandes obras. "Há enormes investimentos em obras de energia e infraestrutura, e mesmo em infraestrutura social como o [programa] Minha Casa, Minha Vida. O que aconteceu em Santo Antônio e Jirau nos chamou a atenção para a necessidade de um acordo", diz, referindo-se à revolta de trabalhadores em março de 2011.
De acordo com ele, o compromisso tem, conforme a presidente Dilma anunciou, potencial para gerar mudanças significativas. "Serão cumpridos direitos constitucionais que hoje praticamente ninguém exerce. No acordo fica claro, por exemplo, que o trabalhador não pode ser demitido se recusar a exercer algo que coloca em risco saúde. Na medida em que adere a um acordo, a empresa assume um compromisso público que vai ter que cumprir. E o sindicato passa a contar com mais um instrumento que não tinha anteriormente".
José Lopez participou da primeira comissão de fábrica da montadora Ford, em São Bernardo do Campo, na década de 1980, e pretende aproveitar a experiência de sindicalista para formular e articular outros pactos nacionais em diferentes categorias. Entre os setores em que o governo estuda fazer novos acordos estão os dos bancários, petroleiros e aeroportuários. O Compromisso da Construção não foi o primeiro acordo do tipo formulado pelo Governo Federal. Durante o governo de Luiz Inácio Lula da Silva, a presidência apresentou o
Compromisso para o Aperfeiçoamento das Condições de Trabalho na Cana-de-Açúcar, que, assim como o atual, foi anunciado como uma mudança de paradigma, mas que poucas mudanças efetivas provocou no setor.
"Não diria que ele serviu de inspiração, cada um a seu tempo. O texto atual é diferente pela própria natureza diferente do setor, mas é evidente que a experiência de negociação naquele momento pesou. Tudo acaba contribuindo", completa o assessor da Secretaria Geral da Presidência. Assim como no acordo atual, o
fim da intermediação nas contratações foi apresentado na ocasião como um dos principais avanços no compromisso da cana.