Neste 8 de março, Dia Internacional da Mulher, o Sinait homenageia todas as mulheres trabalhadoras, em especial as Auditoras-Fiscais do Trabalho, e entrevista duas delas, Isa Maria Lélis Costa Simões e Luciana Horie, que representam gerações diferentes e relatam suas experiências na profissão. Elas falam de trabalho, vida familiar, sonhos e conquistas.
Isa Maria Lélis Costa Simões, Superintendente Regional do Trabalho e Emprego, no Estado da Bahia
“A Fiscalização do Trabalho é um instrumento de equilíbrio das relações de trabalho e emprego na construção de uma sociedade mais justa”.
A Auditora-Fiscal do Trabalho, Isa Maria Lélis Costa Simões é bacharel em Direito pela Universidade Federal da Bahia (UFBA) e ingressou na Superintendência Regional do Trabalho da Bahia – SRTE/BA em 1984. Foi professora de Legislação Trabalhista, na Escola Profissionalizante do Uruguai, Plataforma e Bariri, chefe de Relações de Trabalho da SRTE-BA e hoje é Superintendente Regional do Trabalho da Bahia.
Nesta entrevista, ela fala sobre as mudanças ocorridas na Auditoria-Fiscal do Trabalho em relação às mulheres, sobre como concilia a carreira com a vida familiar – ela tem sete filhos e oito netos – relatou suas experiências após quase três décadas dedicadas à carreira e falou sobre desafios das mulheres no mundo do trabalho.
Sinait - Quais as mudanças que você percebeu ao longo dos anos na carreira da Auditoria Fiscal do Trabalho com relação às mulheres?
Isa Simões - No concurso, ocorrido em 1975, muitas mulheres ingressaram na carreira, sendo predominante a participação feminina. A partir deste momento, as mulheres assumiram comandos dos cargos de chefia, todavia, a única Ministra do Trabalho, até então, foi Dorothea Werneck, criadora do Seguro Desemprego. Somente há pouco tempo, as mulheres assumiram algumas direções das Superintendências Regionais do Trabalho e Emprego, e, no nosso Estado, a primeira mulher que assumiu a direção deste órgão foi Norma Maria Nascimento Pereira, no ano de 2007. Eu sou a segunda. Ainda assim, existem poucas mulheres dirigindo Superintendências nos outros Estados. De 27 Superintendências, apenas três possuem Auditoras-Fiscais do Trabalho como dirigentes: Bahia, Piauí e Sergipe.
Sinait - O que você mais aprendeu nestes anos como Auditora-Fiscal do Trabalho?
Isa Simões - Que o trabalho é o instrumento de dignidade do ser humano e é fator gerador de toda riqueza de um país. A Fiscalização do Trabalho é um instrumento de equilíbrio das relações de trabalho e emprego, na construção de uma sociedade mais justa, humana e participativa.
Sinait - Como vê a presença de mulheres na Auditoria-Fiscal do Trabalho, inclusive em cargos de chefia no MTE?
Isa Simões - De uma maneira geral, percebo que a crescente ocupação dos cargos de direção por mulheres tem proporcionado maior eficiência aos serviços prestados à comunidade, pela própria condição feminina.
Sinait - O que precisa ser melhorado na relação AFT x fiscalização trabalhista? Alguma vez se sentiu discriminada por ser mulher atuando em uma profissão predominante de homens?
Isa Simões - Acho que é chegado o momento de se rediscutir o papel da fiscalização trabalhista no novo contexto das relações de trabalho, que extrapola os limites nacionais, haja vista a crescente participação do Brasil no cenário internacional, ocupando a 6ª posição no ranking das nações desenvolvidas. Convivemos, hoje, com um mercado de trabalho em que ingressam diariamente, trabalhadoras de várias nacionalidades. A presença significativa e crescente da mulher no mundo do trabalho demanda uma política de proteção, que considere ser ela, responsável não só pela produção de riquezas, como também pela gestão do núcleo familiar. A mulher também exerce o papel de formação dos seres que representarão o futuro da humanidade. Dos meus 28 anos de atuação na fiscalização do trabalho, 10 anos foram dedicados à mediação coletiva de conflitos, o que me proporcionou o entendimento de que este é um valioso instrumento de mudanças, tanto pessoais como nas relações conflitantes do trabalho, principalmente nas greves. Assim, entendo que o Ministério do Trabalho deverá manter os serviços já existentes nesta área e ampliar este procedimento, contribuindo na redução das demandas não só judiciais, como administrativas. Nunca fui discriminada como mulher no desempenho da função de Auditora-Fiscal do Trabalho.
Sinait - Durante as fiscalizações, já sofreu algum tipo de ameaça ou ofensa por ser mulher? Como reagiu?
Isa Simões - Jamais tive dificuldade em enfrentar os conflitos decorrentes da relação de trabalho, e muitas vezes utilizei a minha sensibilidade e experiência de mulher.
Sinait - Como é a sua vida além da Auditora-Fiscal? É mãe? Como concilia o trabalho com a vida em família?
Isa Simões - Ao ingressar na carreira, em julho de 1984, já tinha sete filhos e atualmente tenho oito netos. Logo que ingressei na carreira fui eleita Presidente da Associação de Fiscais do Trabalho na Bahia, antiga AFITRA, por dois anos e, por sete anos, fui membro da diretoria do
SINAIT. Não sei como consegui conciliar todo esse trabalho. Destaco que tenho um grande companheiro que comigo dividiu as tarefas domésticas.
Sinait - Já constatou situação irregular de trabalho que envolvia um número significativo de mulheres? Quais as infrações mais freqüentes contra as mulheres?
Isa Simões - Com relação às infrações elas abrangem tanto os homens quanto às mulheres, pois elas atingem, em sua maioria, os trabalhadores com baixa escolaridade e as camadas mais pobres da sociedade.
Sinait - Diante de estatísticas que ainda constatam a mulher em posição inferior no mercado de trabalho, como isso pode afetá-las no ambiente de trabalho?
Isa Simões - Existe uma disparidade salarial difusa, que se tenta corrigir através de legislação, todavia, acho que a questão é muito mais de conscientização dos atores sociais. A fiscalização dificilmente detecta a discrepância salarial entre os sexos. É claro que isto afeta
diretamente a auto-estima da mulher.
Luciana Horie, lotada na Gerência de Marabá (PA)
"Acredito ter me tornado uma pessoa melhor, mais sensível aos problemas alheios”.
A Auditora Fiscal do Trabalho Luciana Horie ingressou na carreira em 2010, aos 28 anos e hoje ocupa a função de Chefe de Fiscalização da Gerência de Marabá, no Pará. É formada em Direito pela Universidade de São Paulo – USP. Antes de assumir o cargo de Auditora-Fiscal, trabalhava no Tribunal de Justiça de São Paulo.
Na entrevista, ela fala do desafio de enfrentar uma nova realidade de trabalho e um cenário social e cultural completamente diferente daquele que costumava viver. Do aprendizado com os trabalhadores, que trazem os mais variados tipos de problemas – nem sempre só trabalhistas –, e acabam ascendendo dentro do profissional algumas qualidades que, segundo ela, todo ser humano deveria ter.
Sinait - Em que área da fiscalização trabalhista você está atuando?
Luciana Horie - Embora seja novata na carreira, em junho de 2011, assumi a chefia de fiscalização da Gerência de Marabá/PA. Em nossa região, contamos com riqueza de oportunidades de trabalho como Auditora-Fiscal. Por isso, tive chance de trabalhar com quase todo tipo de fiscalização. Hoje, como chefe, acabo tendo contato com todos os projetos.
Sinait - A nova profissão está correspondendo às expectativas?*
Luciana Horie - A satisfação com o resultado de uma fiscalização bem feita é inegável. Vim ao Pará sem grandes expectativas, pois nunca havia sequer visitado o Estado. Confesso que me surpreendi. Hoje, estou feliz com os resultados que a Auditoria já teve por aqui, mas há muito a fazer. Minhas expectativas quanto à realização profissional e ideal na carreira ainda não foram plenamente satisfeitas, mas isso depende de uma soma de fatores, que vão alem do local de lotação, dos bons colegas que temos e até mesmo do valor do nosso subsídio. O que sei é que tenho muito que aprender.
Sinait - O que você tem aprendido como Auditora-Fiscal do Trabalho neste pouco tempo de profissão?
Luciana Horie - Como mencionei, a experiência como Auditora-Fiscal do Trabalho aqui no Pará é incrível. O cenário que encontrei é algo totalmente diverso do que poderia imaginar. O contato com os trabalhadores, que nos trazem os mais variados tipos de problemas – nem sempre só trabalhistas – acaba ascendendo dentro de nós algumas qualidades que todo ser humano deveria ter. Acredito ter me tornado uma pessoa melhor, mais sensível aos problemas alheios. Descobri uma grande força interior que pode ser canalizada para o meu bem-estar e dos outros. Aprendi muito com meus colegas, com os servidores, com os trabalhadores, com os empregadores.
Sinait - O que espera da carreira? Já conseguiu realizar algum dos desejos que só tenha sido possível graças à nova profissão?
Luciana Horie - Materialmente, ainda não realizei desejos, mas esse não foi meu foco até agora. Tive a oportunidade de sair do Pará na última remoção, porém, fiquei aqui. Acredito que preciso contribuir um pouco mais com esse cantinho da Amazônia. Antigamente, cerca de dez anos atrás, “brincava” que viria trabalhar no interior do Pará… De certa forma, foi um desejo realizado! Mas tenho o sonho de que a carreira cresça, de que os Auditores-Fiscais do Trabalho sejam fortalecidos e mais respeitados. É um trabalho muito bonito, que somente nós podemos fazer, mas precisamos de estímulo, de estrutura, de capacitação para manter a qualidade. Meu sonho pessoal é muito relacionado ao profissional. Irregularidades sempre existirão, mas quem sabe estejamos próximos de erradicar o trabalho escravo nesse país! Não há preço sentir que pudemos fazer a diferença!
Sinait - Como é ter que se afastar das pessoas que você convive e ama para encarar uma nova profissão em um lugar distante?
Luciana Horie - Cheguei ao Pará exclusivamente para trabalhar como Auditora-Fiscal do Trabalho. Vim sozinha de São Paulo (Capital) onde morava há mais de dez anos e onde deixei meus irmãos. Meus pais moram no interior de São Paulo. Não sou casada e nem tenho filhos – além de duas gatinhas que deixei em SP aos bons cuidados do meu irmão Léo – por isso, não sofri tanto com a “ruptura” familiar temporária. Mas, difícil, com certeza, é estar tão longe da família e dos amigos. A saída de SP, apesar do gritante choque cultural, não me trouxe nenhuma tristeza, pois vim por um bom motivo. Porém, vem certa angústia ao pensar que não posso vê-los quando bate a saudade – a distância geográfica é grande – e nem estar ao lado deles no momento em que eles precisam. Como disse, eu nunca tinha vindo ao Pará. Marabá eu não conhecia nem de nome! Foi um desafio muito grande enfrentar uma nova realidade de trabalho e um cenário social e cultural completamente diferente daquele que eu costumava compor. Mas, hoje, acredito estar adaptada. Os colegas que tomaram posse comigo e os que já estavam aqui fizeram toda a diferença: são grandes amigos que levarei para a vida toda! Eles e suas famílias formaram a minha em Marabá. Os novos colegas, que tomaram posse recentemente, também são muito queridos e estão se tornando meus amigos! Sinto-me sortuda e abençoada!
Sinait – Como está sua vida social aí no Pará, lazer, etc.?
Luciana Horie – Bom! Interior do Para é um pouco complicado em termos de lazer quando se morou por muito tempo na maior cidade do país… No dia a dia, meu namorado e os amigos que fiz dentro do Ministério do Trabalho e Emprego – MTE preenchem muito bem a vida social e organizamos eventos entre nós mesmos. Também tenho ótimos amigos de outros órgãos públicos aqui em Marabá, pessoas especiais mesmo! Mas, sendo a cidade pequena, fica um pouco difícil estender muito o leque social, até mesmo por conta da profissão.
Sinait - Como vê a presença das mulheres na Auditoria-Fiscal do Trabalho?
Luciana Horie - As mulheres estão dominando tudo! Acredito ser essencial a participação da figura profissional feminina em todos os ramos de trabalho. Na Auditoria-Fiscal do Trabalho, a mulher, por suas peculiaridades, faz toda a diferença. Embora os homens trabalhem magnificamente bem, a mulher tem aquela capacidade de gerir muitos assuntos ao mesmo tempo: cuida da profissão, das pessoas e do local de trabalho com dedicação singular, quase materna mesmo (quem mais iria se preocupar com os animais abandonados aqui na Gerência?). Assim, consegue unir a Habilidade técnica com a sensibilidade humana. Por isso, estão assumindo postos de chefias, vejamos nossa secretária de Inspeção do Trabalho, Vera Albuquerque, nossa presidente do Sinait, Rosângela Rassy, minha colega Edna Rocha, chefe do Setor de Segurança e Saúde do Trabalhador - SEGUR, aqui no Pará, e tantas outras que nos orgulham com seu excelente desempenho.
Sinait - Alguma vez se sentiu discriminada por ser mulher atuando em uma profissão onde os homens são a maioria?
Luciana Horie - Nunca senti discriminação dentro da instituição, pelo contrário, sempre tive o respeito de todos os colegas, inclusive de meus chefes da Regional, que são homens e, acredito, questionam-me como profissional em primeiro lugar. Julgo inadmissível, dentro do MTE, a existência de qualquer tipo de discriminação. O que ocorre é um ou outro problema durante a fiscalização, em contato com o público, mas isso decorre do exercício da profissão no dia a dia.
Sinait - Durante as fiscalizações, já sofreu algum tipo de ameaça ou ofensa por ser mulher? Como reagiu?
Luciana Horie - Diferentemente do que imaginei quando “pousei” em Marabá, considerada uma das cidades mais violentas do mundo, não tive grandes problemas aqui. Em algumas inspeções, tive certo receio. Posso citar um caso em que entrei em uma empresa, achando que fosse enfrentar uma fiscalização super tranquila de comércio e fui surpreendida com a notícia de que ali funcionava o jogo do bicho. Em outro caso, fui bem recebida pelo empregador mas, sem esperar o “momentinho” que ele solicitou, acabei entrando em seu estabelecimento e o flagrei mandando mais de dez empregados fugirem e esconderem-se. Nesse momento fiquei com medo, minha sorte foi que outros colegas logo apareceram para ajudar. Há, ainda, aqueles empregadores que, deparando-se com a figura da Auditora-Fiscal do Trabalho mulher, imaginam que ela seja alvo fácil de intimidação, o que já ocorreu comigo também. Mas me portei como uma autoridade, que oferece e exige respeito. Durante o meu trabalho, eu não estou ali como Luciana mulher, mas como membro da Auditoria, representando o MTE. Na verdade, não tenho do que reclamar nesse ponto, acho que o Santo – ou melhor, a Santa - que protege as mulheres é poderosa!
Sinait - Já constatou situação irregular de trabalho que envolvia um número significativo de mulheres?
Luciana Horie - Não enfrentei, até hoje, problema específico vivenciado exclusivamente por mulheres. Nossos problemas da região são generalizados, atingem largamente ambos os gêneros. Alguns casos de exploração sexual existem, mas são mais pontuais. O que ocorre é um maior desconforto para o Auditor-Fiscal do Trabalho quando se encontra uma mulher em situação de trabalho degradante, por exemplo, talvez pelas suas particularidades biológicas mesmo. O que noto é que as empregadas domésticas são alvos mais frequentes do assédio moral por parte do empregador/empregadora, não raro, acabam chorando no momento em que são atendidas no plantão fiscal.
Sinait – Qual o seu recado para as mulheres neste dia 8 de março?*
Luciana Horie - Gostaria de deixar um grande abraço a todas as mulheres integrantes da carreira, vocês são especiais! Parabenizo cada uma com orgulho e deferência, e estendo o cumprimento às esposas dos Auditores-Fiscais do Trabalho, às demais servidoras e às mulheres da minha vida (minha mãe, irmã, tias, amigas), que tanto amo! Obrigada por integrarem com brilho e dignidade o universo feminino!