Imigrantes - regularização é um passo para garantir dignidade no trabalho


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
07/02/2012



Com o aumento do número de trabalhadores estrangeiros no Brasil é urgente acelerar as medidas para garantir a regularização e evitar casos de exploração

 

A exploração de trabalhadores estrangeiros no Brasil esteve em pauta ao longo de 2011, com inúmeras denúncias de ocorrência de trabalho escravo em cadeias produtivas de grandes redes de confecção sediadas, principalmente, no Estado de São Paulo. Audiências públicas no legislativo estadual e federal foram realizadas para discutir o problema e buscar soluções no sentido de proteger esses trabalhadores.

 

As medidas mais comuns em casos de flagrantes de trabalhadores estrangeiros submetidos à escravidão e sem documentos é a deportação. Mas o Sinait entende e trabalha em diversos fóruns, entre eles a Comissão Nacional pela Erradicação do Trabalho Escravo – Conatrae, para que esses trabalhadores tenham direito à regularização de sua situação e recebam dignamente pelo trabalho que prestam.

 

Os números divulgados pelo governo dão conta somente dos estrangeiros em situação legal no país, com autorizações de trabalho e vistos de residência. Porém, estatísticas estimam que entre 60 mil a 300 mil estrangeiros encontram-se ilegais no Brasil e a maioria é de origem latina, seguida de chineses e africanos. Esses estrangeiros não entram nas estatísticas.

 

Um grupo técnico, no âmbito da Conatrae e coordenado pelo Sinait, discute o tema e busca junto ao Judiciário e Polícia Federal viabilizar a aplicação de normas existentes que determinam medidas a serem tomadas para garantir o trabalho decente a esses imigrantes.

 

Em muitos casos, as empresas recrutam trabalhadores em países vizinhos, ou procuram um estrangeiro para fazer o aliciamento e, normalmente, os estrangeiros não sabem que serão submetidos a condições precárias de trabalho, alimentação e moradia. O ambiente de trabalho é degradante e serve de moradia para famílias inteiras.

A Instrução Normativa nº 91, que define as condições que caracterizam o trabalho escravo, determina a aplicação das regras aos trabalhadores estrangeiros, mas nem sempre isso é viável, em razão da falta de documentação dessas pessoas, problema que antecede a aplicação da legislação trabalhista e que depende de outros órgãos para ser viabilizada a regularização. Esses trabalhadores têm o direito de estada, de acordo com a legislação vigente e, por isso, a simples deportação não resolve o problema. Eles precisam ter sua situação regularizada e seus direitos respeitados.

 

A matéria do Correio Braziliense, reproduzida abaixo, destaca o aumento da regularização de imigrantes no Brasil e da facilidade para efetivar essa regularização. Porém, a grande maioria desses trabalhadores possui qualificação e muitos já vêm para o Brasil com uma vaga de emprego garantida. Esses números, sem dúvida, excluem os imigrantes que chegam ao país sem documentação e que são submetidos a condições subumanas.

 

Os Auditores-Fiscais do Trabalho intensificaram as ações de fiscalização na área urbana com a criação do Grupo de Enfrentamento da Escravidão Urbana que tem como finalidade investigar e encontrar as oficinas que fazem parte de cadeias produtivas de grandes redes de confecção, fechá-las e forçar as empresas a pagar os direitos trabalhistas dos empregados. 

 

O Sinait entende que, além de fechar oficinas irregulares e punir as empresas, um projeto governamental de conscientização dos trabalhadores para que não aceitem se submeter a tais condições também contribuiria muito para erradicar o problema.

 

Abaixo, matérias do Correio Braziliense  e da Folha de São Paulo que ressaltam aspectos do trabalho de imigrantes no Brasil:

 

2-2-2012 – Correio Braziliense

Regularização de imigrantes cresce 50%

 

Estrangeiros que vivem legalmente no país chegam a 1,4 milhão. Sindicatos temem o aumento da concorrência no mercado

 

Os bons resultados da economia brasileira têm atraído cada vez mais estrangeiros interessados em fazer investimentos e viver no Brasil. Por esse motivo, o número de pessoas com a situação regularizada no país é crescente. Entre 2010 e 2011, segundo o governo, o contingente de imigrantes vivendo em situação regular no país cresceu cerca de 50%, saltando de 961 mil para 1,46 milhão, em julho do ano passado.

Uma pequena parte desses imigrantes, cerca de 45 mil, foi anistiada pelo Ministério da Justiça em 2009 e ganhou a autorização de permanência temporária. Desses, 18 mil já requereram a autorização para permanência definitiva no país.

 

A expectativa da diretora do Departamento de Estrangeiros da Secretaria Nacional de Justiça, Izaura Miranda, é de que todos peçam para fixar residência no Brasil. Segundo ela, a regularização seria uma vantagem para o governo. "Os irregulares não pagam INSS e oneram o SUS, além de não pagarem impostos e não poderem trabalhar, quando sabemos que trabalham", justifica. A maior parte desses anistiados é formada por jovens com idade entre 19 e 30 anos (44%), do sexo masculino (61%) e proveniente da Bolívia, da China e do Paraguai.

 

As duas principais centrais sindicais brasileiras — CUT e Força Sindical — concordam que o melhor a fazer é regularizar a situação desses imigrantes, até para protegê-los de práticas abusivas no mercado de trabalho. Mas o presidente da Força Sindical, deputado Paulo Pereira da Silva (PDT-SP), questiona sobre o risco de brasileiros perderem espaço nos postos que exigem maior qualificação. "Esse pessoal está vindo para ficar com os melhores empregos. Esse é o problema", argumenta o sindicalista, que prevê dificuldades caso o Brasil não mantenha sua trajetória de crescimento.

 

De janeiro a setembro de 2011, o Ministério do Trabalho emitiu mais de 52,5 mil autorizações de trabalho, contra pouco mais de 39 mil emitidas no mesmo período de 2010. A diretora do Departamento de Estrangeiros afirma que esse movimento migratório não preocupa o governo e também não deveria preocupar os brasileiros. "Num universo de 198 milhões de habitantes, temos quase 1,5 milhão de estrangeiros regulares", argumenta Izaura, lembrando que o Brasil já precisou dos imigrantes em vários momentos para se desenvolver.

 

Reversão

Izaura acredita que esse novo fluxo migratório pode se reverter. "Há 15 anos, tínhamos 4 milhões de brasileiros lá fora. Hoje, esse número não chega a 2 milhões porque, com a estabilidade econômica, os brasileiros voltam. Retornando a estabilidade econômica lá fora, nada impede que esses estrangeiros retornem."

 

Ter a situação regularizada no Brasil é uma tarefa mais fácil do que na Europa ou nos Estados Unidos, segundo a diretora, e um dos motivos é o fato de o Estatuto do Estrangeiro ser de 1982. Com uma legislação antiquada, as permissões de permanência no país têm sido regidas muitas vezes por resoluções do Conselho Nacional de Imigração, que já chegam a 100. Uma delas garantiu, no começo do mês, a concessão de vistos de permanência provisória para cerca de 4 mil haitianos que entraram ilegalmente no Brasil.

 

 

5-2-2012 – Folha de São Paulo


 

Brasil recebe 57% mais mão de obra estrangeira

Aumento é puxado por fluxo de imigrantes de vizinhos da América do Sul

Presença de bolivianos, peruanos e paraguaios, na maioria sem curso superior, teve maior alta no ano passado

 

PATRÍCIA CAMPOS MELLO - DE SÃO PAULO

 

O número de trabalhadores estrangeiros no Brasil cresceu 57% no ano passado, chegando a 1,51 milhão em dezembro, segundo estatísticas do Ministério da Justiça.

 

O principal fator para esse salto no número de imigrantes legais foi a chegada de trabalhadores de países vizinhos. Desde 2009, triplicou o número de imigrantes peruanos legais. O de paraguaios e bolivianos cresceu mais de 70%. Comunidades com presença antiga no país, como japoneses e europeus, têm crescido mais lentamente.

 

O crescente fluxo migratório de países latino-americanos tem sido acompanhado por uma mudança significativa no perfil dos trabalhadores que vêm para o Brasil.

 

Os imigrantes dos países vizinhos em geral têm baixa escolaridade e pouca qualificação. Bolivianos trabalham em oficinas de costura e como empregados domésticos; peruanos atuam como ambulantes e operários na construção. Portugueses e espanhóis ocupam postos gerenciais ou trabalham como arquitetos, engenheiros e advogados.

 

Segundo Paulo Abrão, secretário nacional de Justiça, o número de latino-americanos legais no país aumentou por três motivos: boom econômico brasileiro, acordo de residência do Mercosul e anistia -os dois últimos, de 2009. O acordo autoriza cidadãos do Mercosul, da Bolívia e do Chile a entrar sem visto no Brasil, somente com registro na Polícia Federal, e a pedir residência temporária.

 

O acordo deve ser estendido para Peru e Equador -falta a aprovação do Congresso. A anistia de 2009 deu a 45 mil imigrantes ilegais residência provisória e 18 mil conseguiram obter residência permanente depois de dois anos.

 

Apesar do grande aumento na presença de latinos no Brasil, europeus e japoneses ainda são as maiores comunidades, porque historicamente foram os maiores grupos de imigrantes. Houve entrada de 4,4 milhões entre o fim do século 19 e os primeiros 40 anos do século 20.

 

Hoje, os portugueses ainda são o maior grupo, seguidos de japoneses e italianos. Bolivianos estão em quarto lugar -mas boa parte dos latinos está ilegal e não entra nas estatísticas.

 

ILEGAIS E REFUGIADOS

Os números do governo incluem os estrangeiros que estão legalmente no país, com autorizações de trabalho e vistos de residência. ONGs e o governo estimam que haja de 60 mil a 300 mil estrangeiros ilegais no Brasil - na maioria latino-americanos, chineses e africanos. Além deles, há 4.477 refugiados.

 

"Vim para o Brasil porque percebi que este país tinha futuro", diz o boliviano Davi Gironda, 25, que mora em São Paulo há três anos. Gironda trabalha 14 horas por dia em uma tecelagem, com ganho médio de R$ 1.200 por mês.

 

Apesar da longa jornada, não reclama. Às vezes, guarda R$ 400 por mês. Ele diz que não é hora de voltar à terra natal. "O mundo está de olho no Brasil."

 

Com RICARDO SCHWARZ, colaboração para a Folha

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