Por falta de mão-de-obra qualificada, Brasil poderá recrutar trabalhadores de outros países


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
26/01/2011



A crise econômica na Europa e a falta de mão-de-obra qualificada no Brasil são fatores que podem trazer trabalhadores estrangeiros para trabalhar no país. Contatos entre empresas, Governo e entidades de classe já estão sendo feitos em torno dessa possibilidade com representantes dos Estados Unidos e outros países para não só trazer os profissionais como empresas de fora.

A vinda de profissionais estrangeiros esbarra em questões burocráticas como o reconhecimento dos diplomas para que possam atuar no Brasil. As entidades de classe também querem abrir um canal para que trabalhadores brasileiros possam atuar na Europa, Estados Unidos e em países da América Latina como Chile e Argentina.

Na visão de especialistas, a importação de profissionais pode até ser um sinal de que o Brasil está bem economicamente em relação aos países em crise, mas também denunciam o atraso nos métodos educacionais que acabam não formando a mão-de-obra qualificada que o país necessita.

Mais detalhes na matéria publicada no jornal “Folha de São Paulo”.

23/01/2010

Folha de São Paulo

País rico oferece mão de obra ao Brasil



Governos e entidades de classe do exterior contatam empresários no país para tentar enviar trabalhadores qualificados



Desenvolvimento faz intermediação de alguns encontros; vinda de profissionais esbarra em custo e burocracia



SHEILA D AMORIM

DE BRASÍLIA



Com a falta de mão de obra qualificada no Brasil e o excesso de profissionais sem emprego nos países ricos em razão da crise, governos e entidades de classe do exterior têm contatado empresários e associações de engenheiros e arquitetos nacionais para oferecer trabalhadores.

O MDIC (Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior) faz a intermediação de alguns desses encontros, como aconteceu em novembro, com representantes dos Estados Unidos. Outros estão sendo feitos diretamente.

Reunidos na Embaixada dos Estados Unidos em Brasília, a convite do MDIC, empresários assistiram a uma exposição por videoconferência sobre o perfil e a qualificação das empresas americanas na área de arquitetura e engenharia.

"Eles mostraram que têm ociosidade e capacidade para trazer profissionais e empresas para trabalhar aqui", disse José Carlos Martins, vice-presidente da CBIC (Câmara Brasileira da Indústria da Construção), que participou do encontro.



CRISE

"Em razão da crise lá fora, há interesse brutal desses profissionais em vir para cá", afirmou Marcos Túlio de Melo, presidente do Confea (Conselho Federal de Engenharia, Arquitetura e Agronomia), também presente ao encontro.

Dos brasileiros os estrangeiros ouviram detalhamento dos investimentos previstos nas áreas de energia, transporte, habitação e saneamento, além do passo a passo de um longo e caro processo para validar diplomas e obter autorização para trabalhar no país.

O tempo pode chegar a oitos meses, e o custo, passar de R$ 15 mil.

A fila de espera para entrada no país inclui engenheiros e arquitetos americanos, espanhóis, italianos, portugueses e ingleses, além de chilenos e argentinos.



CONTRAPARTIDAS

Para o Brasil, encurtar esse processo depende de contrapartidas. Representantes dos trabalhadores querem aproveitar o interesse e abrir oportunidades para brasileiros nesses países ricos.




"Eles tiveram seu momento de expansão e não flexibilizaram [regras] para a gente. Pode ser feito um acordo bilateral de longo prazo. Hoje, a gente não consegue entrar no mercado europeu", disse Melo, que já se reuniu com representantes dos EUA, da Espanha, do Chile e de Portugal e aguarda um encontro formal com o Reino Unido.

"Queremos contrapartidas e aguardamos manifestação deles", disse. Segundo ele, o número de pedidos de registro de estrangeiros triplicou em 2010.

Procurado por representantes da Itália, da Espanha e da Argentina, o presidente do Crea (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) do Paraná, Álvaro Cabrini, disse que todos ficaram de formalizar os pedidos, "mas até agora não chegou nada".

"Tenho recebido pedidos para validar diplomas de engenheiros, mas do Mercosul, principalmente, da Argentina."

Em novembro do ano passado, ele se reuniu com o cônsul argentino para negociar um acordo bilateral que simplifique o processo de entrada no Brasil.

"O Confea exige tradução do diploma, o que tem um custo de R$ 8.000 a R$ 15 mil. Podemos abrir mão disso, já que, no processo, uma universidade já validou o diploma. Isso facilita o trânsito."

Mas diz que "há resistências da Argentina em receber profissionais brasileiros".

ANÁLISE TRABALHO



Sem projeto, país vive apagão de talentos



Profissionais são despreparados para a nova empresa, que exige trabalhador que pense com liberdade e autonomia



Tarefa de capacitar gestores que saibam enfrentar os desafios impostos por novas formas de produção de valor deve ser uma ação de continuidade



MARCO TULIO ZANINI

ESPECIAL PARA A FOLHA



Aparentemente, o fato de o governo buscar facilitar a entrada do capital intelectual estrangeiro para atender as demandas internas do país pode nos parecer que se trata somente de um sinal do vigor atual da nossa economia.

 

Isso procederia, não fosse pelo fato de essa necessidade sinalizar muito mais a falta histórica de um projeto de país que tenha considerado a educação como fator-chave para a formação de especialistas em várias áreas do conhecimento, que hoje são tão necessários.

 

Primeiramente, devemos nos questionar se, de fato, estamos capturando os melhores cérebros lá fora.

 

Economias mais competitivas promovem a caça dos cérebros mais brilhantes para alavancar a inovação. Sabemos que, geralmente, não é esse o processo que está acontecendo no Brasil.

 

Estamos precisando de pessoas com boa formação superior para trabalhar, muitas vezes, em indústrias de baixo valor agregado.

 

O que mais nos impressiona é que, tantos anos depois de Paulo Freire ter denunciado os ameaçadores defeitos do nosso modelo autoritário de educação, tenhamos feito tão pouco progresso em remover esses entraves.

 

Somada a nossa contemporânea complacência em relação a uma educação baseada em valores, temos formado profissionais com perfil bastante inadequado para as demandas das empresas contemporâneas.

 

Salvo honrosas exceções, temos formado legiões de alunos despreparados para o desafio daquilo que se convencionou chamar de Capitalismo do Conhecimento.

 

Mais do que conteúdos, a nova empresa precisa de profissionais capazes de pensar com liberdade e autonomia.

 

De se autogerenciar para entregar resultados complexos em cenários imprevisíveis.

A nossa experiência em consultoria nos permite dizer que vivemos algo semelhante a um apagão de talentos.

 

A falta de um projeto educacional atrelado a um projeto de país que contemple a educação como fator estratégico para o desenvolvimento sustentável da nação nos coloca em forte desvantagem ante outros países, especialmente os asiáticos como a China e a Índia, que estão sabendo colocar na educação o seu projeto de futuro.

 

Contribuem para essa desvantagem a ausência de valores de produtividade do trabalho e a falta de disseminação da ideia de que a escola precisa ser comunidade de excelência, em que cada indivíduo importa pela capacidade de contribuir com seu talento e fazer a diferença.

 

A tarefa de capacitar gestores que saibam enfrentar os desafios impostos por novas formas de produção de valor, por meio da aplicação intensiva do conhecimento e de engenheiros e demais profissionais de formação técnica aplicada, deve ser entendida como uma ação de continuidade.

 

Isso deve ser viabilizado via um projeto educacional que tem o seu início na escola primária, quando os valores que orientam os indivíduos estão sendo sedimentados.

 

MARCO TULIO ZANINI é consultor de empresas e coordenador do mestrado executivo em Gestão Empresarial da Ebape-FGV.



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