Regulamentação do direito de greve - Representantes de servidores criticam o PLS 710/2011 em audiência no Senado


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
03/09/2012



Representante do MTE disse que a Pasta, junto com Ministério do Planejamento e a Secretaria Geral da Presidência da República, está empenhando esforços para construir uma única minuta de projeto de lei para regulamentar a greve no serviço público 


Dirigentes de várias entidades representantes de servidores defenderam a regulamentação do direito de greve e criticaram o Projeto de Lei do Senado - PLS 710/2011 do senador Aloysio Nunes (PSDB/SP) na audiência pública realizada nesta segunda-feira, 3 de setembro, na Comissão de Direitos Humanos - CDH do Senado, que discutiu a greve no serviço público. O projeto está na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania – CCJ do Senado e é considerado prejudicial ao movimento dos servidores porque restringe o direito de greve no setor. 


O Sinait foi representado nesta audiência pelo diretor Marco Aurélio Gonsalves. 


Álvaro Sólon, presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal do Brasil – Anfip e representante dos servidores das carreiras típicas de Estado na audiência, destacou a quantidade de projetos de lei que tramitam no Senado e na Câmara sobre o tema. Segundo ele, matérias legislativas para tratar do direito de greve dos servidores públicos existem à exaustão, mas seus trâmites nunca prosseguem por falta de interesse dos parlamentares. 


Sólon questionou o motivo de agora o direito de greve dos servidores públicos ser discutido com pressa, quando na verdade esta matéria deve ser tratada com extrema cautela para que não haja uma regulamentação do “não direito de greve”. Para ele, o assunto deve ser tratado em consonância com o artigo 37, inciso 10 da Constituição Federal, que trata da recomposição das perdas salariais para todas as categorias do serviço público. 


“Não basta tratar do direito de greve sem discutir a questão salarial. É preciso estabelecer uma política de recomposição salarial para evitar as paralisações que ocorrem toda vez que é preciso tratar deste assunto”, argumentou Álvaro Sólon. Ele também pediu a criação de uma mesa permanente de negociação para os servidores e criticou o fato de toda vez a mesa ser criada e depois ser desfeita. 


Direito à negociação


A ausência do senador Aloysio Nunes, autor do PLS 710/2011, na audiência foi criticada por Paulo Barela, da Conlutas. Apesar de ter sido convidado, o senador não compareceu ao debate. Para o representante sindical “o projeto é “draconiano” (arbitrário) quando estabelece que somente 50% dos serviços podem ser parados em caso de greve, e isso é uma proibição da greve”. 


Ele lembrou que os movimentos dos servidores, mesmo antes da Constituição de 1988 – quando não eram reconhecidos como trabalhadores e não tinham o direito de se organizar em sindicatos –, sempre se preocuparam em preservar os serviços essenciais quando faziam greve. 


Barela destacou que mesmo com essas conquistas, o servidor público ainda não tem o direito à negociação coletiva, portanto não pode realizar acordo coletivo de trabalho. Segundo ele, bem diferente do setor privado, em que o patrão tenta agilizar a negociação, no serviço público o governo tenta prolongar o movimento de greve para cansar o servidor e jogar a opinião pública contra eles. 


“Os servidores públicos vêm acumulando perdas de direitos e de salários, especialmente nos “Anos de Chumbo”, anos 1990, quando houve uma cassação de direitos com a retirada de 70 itens do Regime Jurídico Único dos servidores” disse Paulo Barela.


Paulo Barela repudiou o projeto apresentado pelo senador Aloysio Nunes e disse que espera sua retirada de pauta e para isso, os servidores contam com o apoio do senador Paulo Paim, presidente da Comissão de Direitos Humanos. 


Mordaça


Para Luis Henrique Schuch, do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior - ANDES-SN, este projeto é uma tentativa de amordaçamento do movimento social e que confia no senador Paulo Paim para reverter este quadro. Ele destacou a atitude corajosa do movimento dos docentes, que abriu mão das reivindicações salariais dentro do piso e do teto do próprio governo para demonstrar que é necessária a reestruturação das relações de trabalho para construir a universidade do futuro. “É contra este movimento que se levanta agora uma postura repressora. Estamos diante da possibilidade de um retrocesso social”, criticou. 


Governo quer minuta única


O representante do Ministério do Trabalho e Emprego - MTE, na audiência, Manoel Messias Nascimento Melo disse que é preciso calma para discutir este tema no Brasil, especialmente no serviço público. Ele destacou a visão do MTE sobre o tema, lembrando que o processo de criação da CF de 1988 foi o mais representativo da participação social. 


Em seu entendimento, a CF acertou em estabelecer a livre organização sindical, no entanto não atendeu o terceiro pilar de qualquer relação de trabalho, que é o direito à negociação coletiva, ratificada pela Convenção 151 da OIT, mas que ainda está carente de regulamentação. 


Para o MTE é estranho definir o direito de greve sem antes explicitar o direito à negociação coletiva. “Sabemos que a maioria dos conflitos entre servidores e governo, seja nas esferas federal e estadual, é devido à inexistência do direito à negociação coletiva”, disse Messias. 


Ele disse que os acordos assinados pelos servidores nesta greve comprometem as negociações do ponto de vista moral. “É preciso definir o que são serviços essenciais,  tanto no setor público como no privado”.


Manoel Messias informou que neste momento o MTE, junto com Ministério do Planejamento e a Secretaria Geral da Presidência da República, está empenhando esforços para construir uma única minuta de projeto de lei de regulamentação da greve no serviço público. Para isso vão ouvir os representantes das centrais sindicais e dos servidores. 


Desvalorização do MTE


O senador Paulo Paim disse que percebe no governo uma desvalorização do MTE e uma supervalorização dos ministérios do Planejamento e da Fazenda, e que muito lhe animou a fala do representante do Ministério, ou seja, de que a pasta não compactua com a restrição ao direto de greve. 


Durante a audiência, o senador Paulo Paim apresentou um vídeo dos anos 80 que mostra a greve de trabalhadores sendo utilizada como um instrumento de reconquista da democracia. Ele não entende por que no atual governo esta mesma ferramenta não pode ser utilizada. 


Leia matéria da Agência Senado sobre a audiência: 


3-9-2012 – Agência Senado


Governo estuda elaboração de projeto sobre greve de servidores, anuncia Ministério do Trabalho


 


O Secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho e Emprego, Manoel Messias Melo, anunciou nesta segunda-feira (3) que o governo estuda a elaboração de uma minuta de projeto para regulamentar o direito de greve dos servidores públicos. 


De acordo com Manoel Messias, a pasta pretende se reunir nos próximos dias com o Ministério do Planejamento, Orçamento e Gestão e com a Secretaria-Geral da Presidência a fim de construir uma alternativa que leve em consideração a visão das centrais sindicais e dos servidores. 


O anúncio foi feito durante audiência pública realizada pela Comissão de Direitos Humanos e Legislação Participativa (CDH) destinada a debater o direito de greve no Brasil. Durante o debate, sindicalistas e representantes de servidores criticaram o projeto (PLS 710/2011) do senador Aloysio Nunes (PSDB-SP) que disciplina o exercício do direito de greve no setor público, previsto no inciso VII do artigo 37 da Constituição, mas até hoje não regulamentado. 


- Não há por parte do governo neste momento uma minuta. Há a vontade e a intenção de reunir nos próximos dias esses três ministérios para retomar o debate partindo da busca de um consenso interno do governo e do diálogo com as centrais sindicais – afirmou. 


Ainda segundo Manoel Messias, é importante que a ausência de consenso entre os ministérios do Trabalho e do Planejamento não seja justificativa para que o debate sobre o tema não avance no Executivo.  A falta de posição clara negociada entre governo e centrais sindicais também não deve ser motivo para que prosperem projetos que sejam restritivos do direito de greve. 


Pontos Polêmicos


Segundo Manoel Messias, a elaboração de um projeto sobre o tema esbarra em pontos polêmicos como a definição dos chamados serviços ou atividades essenciais (aqueles que representam ameaça concreta a vida dos cidadãos caso não sejam executados) para os efeitos do direito de greve. 


- Há uma resistência dos sindicatos e mesmo da iniciativa privada [de elaborar] essa lista de serviços essenciais – explicou.


 


 


3-9-2012 – Agência Brasil

Governo inicia na próxima semana série de reuniões para regulamentar greve no serviço público

 

Marcos Chagas - Repórter da Agência Brasil

 

Brasília - Nos próximos dias o governo inicia uma série de reuniões para elaborar projeto de lei de regulamentação do direito de greve dos servidores públicos. A informação foi passada hoje (3) pelo secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Trabalho, Manoel Messias Melo, em audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado.

 

O debate ocorre na semana em que aproximadamente 250 mil servidores públicos federais, ligados à Confederação dos Trabalhadores do Serviço Público Federal (Condsef), retornam ao trabalho depois de cerca de dois meses em greve. Eles aceitaram os 15,8% de reajuste propostos pelo governo. O presidente da comissão, Paulo Paim (PT-RS), disse que pode pedir a relatoria do projeto de lei que tramita na comissão para evitar que prosperem tentativas de restrição das conquistas asseguradas pela Constituição Federal de 1988. “Direito de greve é uma coisa, querer proibir direito de greve é outra. Direito de greve é direito de todos e agora não cabe querer retirar essa conquista dos trabalhadores.”

 

O secretário disse que, durante os debates, serão chamados representantes sindicais para tentar formular um texto compatível com as reivindicações pleiteadas pela categoria. Antes, porém, o governo terá que fechar um texto comum, pois existem duas minutas de projeto de lei apresentadas pelos ministérios do Planejamento e do Trabalho.

 

Ele reconheceu que “alguns pontos” da proposta de regulamentação serão difíceis de negociar, mas precisam ser enfrentados. O secretário destacou, por exemplo, a necessidade de proibir policiais de usarem armas quando entram em greve.

 

Outra polêmica que pode gerar debates intensos entre governo e trabalhadores deve ser a regulamentação da greve dos servidores públicos em serviços essenciais. Messias se mostrou contrário ao teor de todos os projetos sobre o tema que tramitam no Congresso desde 1991.

 

O direito de greve foi defendido por todos os representantes sindicais que participaram da audiência pública. “A maioria dos projetos que tramitam no Congresso restringe o direito de greve”, disse o representante da Central Sindical e Popular (CSP-Conlutas), Paulo Barela.

 

O sindicalista acrescentou que o projeto de lei que tramita na Comissão de Direitos Humanos, de autoria do senador Aloysio Nunes Ferreira, restringe a greve no serviço público a 50% do funcionalismo. Além disso, segundo ele, em serviços essenciais, apenas 20% do total dos servidores poderiam paralisar as atividades. “Isso é draconiano”, disse Barela.

 

Aloysio Nunes, que não estava na audiência, disse que o comunicado da reunião da comissão chegou na sexta-feira (31) a seu gabinete, quando ele já estava em São Paulo. No encerramento da audiência, Paim disse que pedirá ao senador Aloysio Nunes que retire seu projeto de tramitação.

 

Ao tomar conhecimento das “críticas” ao seu projeto por parte dos sindicalistas, Aloysio Nunes enviou a Paim ofício defendendo a regulamentação da lei de greve. “O que nós, os senadores, temos que fazer é legislar, pois há 24 anos a Constituição Federal e a sociedade reclamam uma lei que estabeleça as modalidades e os limites para o exercício do direito de greve dos servidores públicos."

 

O presidente da Associação Nacional dos Auditores Fiscais da Receita Federal (Anfip), Álvaro Solón de França, destacou que o servidor público “não quer fazer nada que prejudique a população”. Entretanto, ressaltou a necessidade de o governo definir a recomposição das carreiras públicas.

 

O representante do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior (Andes) Luiz Henrique Schuch frisou a necessidade de servidores públicos e governo avançarem no debate de reestruturação das carreiras. Ele disse que há uma evidente possibilidade de “retrocesso” no que foi conquistado na constituinte de 1988, com a chancela parlamentar.

 

Edição: Talita Cavalcante//Matéria alterada às 13h30 para acréscimo de informação.

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