O Ato Público das Carreiras de Estado e as greves de diversas categorias do funcionalismo, com destaque para as Polícias Federal e Rodoviária Federal, estão estampados nas capas dos principais jornais do país, foram assunto dos jornais da noite nas TVs e são notícia de sites noticiosos nesta quinta-feira, 9 de agosto.
A mobilização não pode mais ser ignorada e o governo sofre críticas por não negociar honestamente com o funcionalismo, que se uniu num movimento reivindicatório praticamente único, informam as notícias veiculadas em jornais impressos, rádios, TVs e internet.
Confira algumas reportagens e vídeos:
8-8-2012 - DF TV 2ª Edição
8-8-2012 – Jornal Nacional – TV Globo
Policiais federais em greve fazem protesto em frente ao STF em Brasília
Paralisação começou nesta terça-feira (7) e funcionários pedem reestruturação da carreira e aumento salarial.
Em Brasília, cerca de 300 policiais federais em greve fizeram um protesto em frente ao Supremo Tribunal Federal. Eles deram um abraço simbólico no prédio da corte e cantaram o Hino Nacional.
A paralisação começou nesta terça-feira (7) e os policiais federais pedem reestruturação da carreira e aumento salarial.
No fim da tarde, grevistas também tentaram ocupar a pista em frente ao Palácio do Planalto, mas foram impedidos por policiais militares e guardas da Presidência da República. Os servidores da Justiça, da Polícia Rodoviária Federal e da Receita Federal andaram pela Esplanada dos Ministérios no sentido contrário ao do trânsito. Mesmo com gás de pimenta, a polícia não conseguiu impedir a manifestação.
Segundo o Ministério do Planejamento, nos últimos nove anos os policiais rodoviários federais tiveram reajuste acima da inflação. O ministério declarou que o governo está atuando para que paralisações não prejudiquem o atendimento à população, nem tragam prejuízos à economia.
Na semana que vem, o governo vai se reunir com representantes sindicais. Sobre a greve dos policiais federais, o governo afirmou que estuda as reivindicações.
9-8-2012 – Correio Braziliense
SERVIDORES E GOVERNO MEDEM FORÇA. O PAÍS PAGA
SERVIDORES IMPÕEM PRESSÃO AO GOVERNO
PRISCILLA OLIVEIRA
No dia em que o movimento por aumento salarial ganhou a adesão de 26 carreiras de Estado, os protestos se multiplicaram país afora. E, enquanto governo e sindicalistas não se entendem, é a população quem mais sofre as consequências: universidades paradas, rodovias fechadas, serviços públicos interrompidos. Até o abastecimento de alimentos e remédios começa a ser afetado. Em Brasília, ontem, os ânimos se exaltaram quando manifestantes e policiais militares entraram em confronto na Praça dos Três Poderes. O Planalto já dá sinais de que pode atender parte das reivindicações dos grevistas.
Segundo sindicatos, 350 mil funcionários estão parados, reivindicando reajustes que teriam impacto de R$ 92 bilhões no Orçamento, 50% do atual custo da folha salarial. Planalto estuda atender a parte dos pleitos
As manifestações e os efeitos da greve nacional dos servidores públicos federais, que a cada dia tem mais adeptos, ultrapassaram os limites da Esplanada dos Ministérios, em Brasília, e ganharam o Brasil. Além de um grande protesto na capital federal, realizado pelos trabalhadores das carreiras típicas de Estado, a quarta-feira foi marcada por atos em diversas unidades da Federação. Policiais rodoviários federais e até mesmo professores e técnicos universitários fecharam rodovias e dificultaram o trânsito da população. Além disso, o movimento de fiscais agropecuários e de técnicos e analistas da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) ameaçam o abastecimento de alimentos e de medicamentos.
Não bastassem os entraves para a liberação de mercadorias enfrentados nos postos alfandegários do país, muitos brasileiros que precisaram de serviços dos pontos de atendimento da Polícia Federal voltaram para casa sem resolver suas pendências. A emissão e o recebimento de passaportes, por exemplo, estão prejudicados onde os atendentes são concursados, e não terceirizados.
Na Esplanada, cerca de mil servidores das carreiras típicas de Estado ocuparam a área em frente ao Bloco K, sede do Ministério do Planejamento, como forma de pressionar o governo para que volte a negociar com os grevistas. De acordo com o presidente da União Nacional dos Analistas e Técnicos de Finanças e Controle (UnaconSindical), Rudinei Marques, caso os trabalhadores não cheguem a um acordo com a Presidência da República até 31 de agosto, data-limite para inclusão de emendas à Lei de Diretrizes Orçamentárias, na qual pode-se prever reajustes, as paralisações vão continuar. “A nossa estratégia é de pressão constante em médio e em longo prazos”, anunciou. As negociações devem ser retomadas após o dia 13.
Os principais pleitos desses profissionais são reestruturação de carreira, realização de concursos públicos e reposição das perdas inflacionárias desde 2008. O presidente do Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas de Estado (Fonacate), Pedro Delarue, estima que as categorias assim classificadas reúnam, atualmente, 50 mil ativos. “Ao menos metade desses servidores está de braços cruzados ou com indicativo de greve”, calculou. Se uma proposta não for apresentada, todas as categorias prometem suspender as atividades depois do dia 20”, adiantou. Se as reivindicações forem aceitas pelo governo, significarão aumento de 50% na folha de pagamento, com impacto de R$ 92 bilhões sobre o Orçamento.
As carreiras engrossam a paralisação do Executivo Federal, na qual, segundo a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef), já mobiliza 350 mil pessoas. Caso os trabalhadores das 26 carreiras ligadas ao Fonacate parem, operações em setores estratégicos podem ficar prejudicadas. Com a mobilização dos técnicos e dos analistas da Controladoria-Geral da União (CGU), por exemplo, as atividades do Programa de Fiscalização por Sorteios Públicos de Municípios foram atrapalhadas. Segundo Rudinei Marques, dos 60 municípios que precisariam ser auditados, apenas 15 passaram por fiscalização, o que pode atingir, inclusive, o processo eleitoral municipal.
Confusão
Depois de passar a tarde em frente ao Planejamento, os manifestantes rumaram para o Palácio do Planalto. As lideranças sindicais chegaram a ter dúvidas sobre a mudança de lugar, já que o secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, estaria proibido de negociar com grevistas, segundo Delarue. Mas, ainda assim, insistiram em ser recebidas e houve conflito entre trabalhadores e policiais militares porque os manifestantes não quiseram ficar atrás do bloqueio na Praça dos Três Poderes e avançaram para a pista em frente ao Planalto. A polícia reagiu com gás de pimenta. O embate durou alguns minutos.
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, comentou ontem sobre as paralisações em todo o país. De acordo com ela, o governo está demorando a responder aos grevistas porque teria sido surpreendido pelos efeitos da crise que atinge a Europa e os Estados Unidos. “Iniciamos o ano com uma perspectiva melhor do que seria a economia mundial, mas, no fim de junho, tudo ficou muito nublado, o que fez com que tivéssemos de refazer as nossas contas. Então, estamos preferindo fazer uma análise ‘detida’ para, depois, apresentar, nos casos em que for possível, propostas responsáveis aos servidores”, justificou.
Preocupação
Miriam garantiu que o Executivo tem feito o possível para que os efeitos do movimento dos servidores não atinjam o atendimento aos brasileiros. “Estamos com atenção absoluta para garantir que os serviços sejam prestados. A presidente Dilma (Rousseff) assinou o Decreto nº 7.777 (que viabiliza a substituição de servidores de braços cruzados por terceirizados e por funcionários de estados e municípios) para garantir que os portos não parem, por exemplo. Vamos continuar atuando para evitar qualquer comprometimento da prestação de serviços”, ressaltou.
O ministro do Trabalho, Brizola Neto, reiterou que, apesar de as negociações estarem a cargo do Ministério do Planejamento, está aberto a ouvir as reivindicações das lideranças sindicais, como forma de auxiliar o Planalto. “Não me nego a receber ninguém. Mas é no Planejamento onde estão os números, e, até por força do decreto presidencial, é o órgão encarregado das negociações com os servidores”, explicou. (Colaboraram Grasielle Castro e Vânia Cristino)
Ministro vaiado
O que deveria ter sido uma cerimônia protocolar de abertura se transformou, rapidamente, num palco para os protestos dos servidores públicos em greve contra o governo. Os trabalhadores aproveitaram a presença do secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, na I Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente para demonstrar o descontentamento com o governo. Quanto Carvalho começou a falar foi interrompido com gritos e vaias por cerca de 60 servidores. Não faltaram xingamentos de pelego, entreguista e coisas do gênero.
9-8-2012 – O Estado de São Paulo
PRESSÃO DE SERVIDORES FAZ GOVERNO NEGOCIAR REAJUSTE
ONDA DE GREVES AUMENTA, BATE À PORTA DO PLANALTO E GOVERNO ADMITE NEGOCIAR
Tânia Monteiro Débora Álvares Rafael Moraes Moura
Pressionado por parte do funcionalismo federal em greve, o governo desencadeou operação para esvaziar o movimento, que ontem se espalhou por vários Estados e expôs o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral da Presidência) a vaias. Após um dia de manifestações pelo País e promessas de mais paralisações, o governo sinalizou que vai atender, pelo menos em parte, os servidores em greve. A ministra Miriam Belchior (Planejamento) disse que o governo está finalizando as contas para saber que tipo de reajuste será possível apresentar aos funcionários federais que estão em operação padrão ou de braços cruzados. Segundo sindicalistas, cerca de 350 mil servidores de 26 categorias aderiram à greve. Protesto de policiais rodoviários federais provocou 10 quilômetros de congestionamento na Via Dutra
Com protestos pelo País, equipe de Dilma diz que pode atender a parte das reivindicações; Palácio foi alvo de manifestação e ministro, de vaia
Acuado por parte do funcionalismo público em greve, o governo desencadeou uma operação para esvaziar o movimento, que ontem se espalhou por vários Estados, expôs um ministro do núcleo próximo da presidente Dilma Rousseff a vaias e levou o conflito para as portas do Palácio do Planalto. Após um dia de manifestações pelo País, o governo sinalizou que vai atender a pelo menos parte das reivindicações.
A ministra do Planejamento, Miriam Belchior, afirmou que o governo ainda está finalizando as contas para ver que tipo de reajuste será possível apresentar aos servidores que estão em operação-padrão ou de braços cruzados. "Preferimos uma análise mais detida para apresentar uma proposta responsável aos servidores", declarou a ministra, depois de repetir o discurso do governo sobre as dificuldades em consequência da crise econômica internacional. "Iniciamos o ano com uma perspectiva melhor do que ocorreria com a economia. Em maio, junho, o que se viu foi um cenário nublado, muito difícil, que fez com que o governo tivesse de refazer suas contas."
Segundo Miriam, "a posição do governo é de absoluta atenção "em relação aos serviços afetados pelas greves. Precisamos garantir que os serviços sejam prestados, para que não haja paralisia nas instituições, como nos portos, para evitar qualquer comprometimento na prestação dos serviços”.
Vaias. Um dos interlocutores mais próximos de Dilma,o ministro Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral) foi recebido com vaias e teve o discurso interrompido várias vezes ao abrir a Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente, em Brasília. "Este é um governo que tem responsabilidade, que o tempo todo dialogou e em nenhum momento foi dito que não haveria proposta para os trabalhadores. O que não faremos são atos de demagogia,que podem pôr em risco a economia do País", discursou Carvalho.sob vaias de servidores. "Lamento profundamente e espero que as centrais sindicais, com quem dialogamos e com quem temos uma relação tensa, mas cordata,chame a atenção desse setor que se nega ao diálogo." O ministro foi recebido aos gritos de "pelego" e "traidor" por parte do público, que também entoou em coro: "A greve continua, Dilma, a culpa é sua".
Em outro evento – o anúncio do Plano Nacional de Gestão de Riscos e Resposta a Desastres Naturais –, servidores exibiram faixas com os dizeres: "Dilma, me chama de Copa do Mundo e investe em mim" e "Será possível um "Brasil sem Miséria" sem serviços públicos de qualidade?"
Balanço. Segundo a Confederação dos Trabalhadores do Serviço Público Federal,que representa 80% do funcionalismo, cerca de 350 mil servidores de 26 categorias aderiram à greve. Policiais federais, que hoje completam três dias de paralisação, organizaram protestos em rodovias e operações-padrão em aeroportos. Uma carreata em Brasília travou a Esplanada dos Ministérios ontem à tarde e teve apoio até de policiais do Distrito Federal.
Com a pressão, as categorias foram recebidas pelo ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, e pelo secretário de Relações do Trabalho do Ministério do Planejamento, Sérgio Mendonça,em reuniões separadas, para tentar acalmar os ânimos. Ainda assim, Brasília terá mais protestos. Hoje, uma marcha pela manhã deve interditar de novo a Esplanada. Na semana que vem, está previsto um acampamento em frente ao Congresso.
9-8-2012 – O Globo
Servidores federais cercam o Planalto
Defendendo reajustes de até 52%, grevistas entram em confronto com a polícia em Brasília
Givaldo Barbosa
A menos de um mês do fim do prazo para o envio da proposta orçamentária ao Congresso Nacional, os servidores públicos federais das chamadas carreiras de Estado, considerados a elite do funcionalismo, pararam ontem a Esplanada dos Ministérios. Em busca de reajustes salariais de até 52%, os manifestantes entraram em confronto com a Polícia Militar no fim do dia, na Praça dos Três Poderes, quando tentavam chegar até a rampa do Palácio do Planalto.
Segundo o movimento, cerca de três mil trabalhadores participaram dos protestos. A PM, no entanto, estima no máximo 600 pessoas. Em meio à confusão, a polícia chegou a agredir jornalistas e fotógrafos. Mas nem o uso de cassetetes e gás de pimenta conteve os grevistas, que chegaram ao pé da rampa do Planalto, lá ficando por cerca de 40 minutos. Ninguém ficou ferido.
Para justificar os pedidos de reajustes tão expressivos, os manifestantes citaram o salário da ministra do Planejamento, Miriam Belchior, que beira os R$ 50 mil líquidos, segundo o Portal da Transparência. Participaram dos protestos servidores do Judiciário, das polícias Federal e Rodoviária Federal, da Receita Federal e da Advocacia-Geral da União. O secretário-geral da Presidência da República, Gilberto Carvalho, foi recebido com vaias e gritos de "pelego" e "traidor" na Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente, que teve de ser encerrada antes do previsto.
Apesar de as greves já terem a adesão de cerca de 300 mil servidores federais, a ministra do Planejamento disse que o governo precisou refazer as contas por causa da crise financeira global. Segundo ela, a equipe econômica está fechando esta semana os números para saber que proposta apresentar aos servidores.
Nos bastidores, as autoridades trabalham com a possibilidade de atender a pedidos específicos, como já ocorreu este ano. Ontem, foi publicada a sanção da lei que concede aumento de 2% a 31% para 937 mil servidores do Executivo, único grupo contemplado no Orçamento deste ano, ao custo de R$ 1,5 bilhão.
Em São Paulo, os servidores do Judiciário federal no estado aderiram ontem à greve da categoria, que já atinge o Distrito Federal e o Mato Grosso, informou o Sindicato dos Trabalhadores do Judiciário Federal no Estado de São Paulo (Sintrajud). Hoje haverá um ato na Avenida Paulista. A paralisação em São Paulo é considerada essencial pelos sindicalistas para fortalecer o movimento.
9-8-2012 – Folha de São Paulo
Greve se alastra e policiais param rodovias
Segundo sindicatos dos servidores, ao menos 27 órgãos foram diretamente afetados, entre greves e operações-padrão
Ministro é vaiado e chamado de traidor em evento em Brasília; governo minimiza impacto da paralisação
DE BRASÍLIA
A greve dos servidores federais ganhou ontem a adesão de policiais rodoviários e ameaça se tornar a paralisação mais ampla do funcionalismo desde o começo do governo Lula (2003-2010), desafiando a gestão da presidente Dilma Rousseff.
Os números oficiais e do movimento não batem. Nas contas sindicais, ao menos 27 órgãos federais foram diretamente afetados, entre greves, suspensão temporária de trabalho ou operações-padrão.
As paralisações já prejudicam o cotidiano da população. Ontem, pelo menos oito estradas ficaram congestionadas por causa de uma fiscalização intensa de veículos. Aeroportos e até a área da saúde, com a retenção de remédios importados em depósitos, estão sendo afetados. Universidades federais estão paradas há quase três meses.
Ontem, em Brasília, grevistas tentaram subir a rampa do Palácio do Planalto, mas foram contidos por policiais.
Até agora, o governo negocia apenas com funcionários de universidades federais.
VAIAS
O ministro responsável por negociar com movimentos sociais, Gilberto Carvalho (Secretaria-Geral), foi vaiado e chamado de traidor em um congresso por manifestantes da CUT, tradicional braço sindical do petismo.
"Traidor, traidor", ouviu. "A greve continua. Dilma a culpa é sua!". Carvalho discutiu aos gritos com a plateia.
Ao fim, o presidente da CUT, Vagner Freitas, comentou: "Se eu fosse presidente, destituía o ministro."
"Houve greves grandes, mas eram concentradas em um setor. Essa tende a se ampliar", disse Artur Henrique, dirigente da CUT.
A decisão do governo de punir grevistas com descontos e não conceder reajustes acirrou os ânimos. Outra medida que desagradou servidores foi um decreto, de julho, facilitando a troca de grevistas por funcionários estaduais e municipais.
Para os sindicatos, há mais de 300 mil funcionários parados entre os 573 mil servidores. O Ministério do Planejamento diz que isso é irreal. "Se fosse tal como é dito, teríamos o serviço totalmente comprometido, e não está. Há pouquinha gente parada e muita fazendo barulho", disse o secretário de Relações do Trabalho, Sérgio Mendonça.
Ele refuta o status de pior greve dos últimos anos e lembra paralisações nos governos Lula e FHC, mas o governo diz não saber quantos servidores estão parados. O país "enfrentou momentos difíceis" com greves antes, disse.
Também repercutiu mal entre sindicalistas e setores do governo a afirmação do secretário do Tesouro, Arno Agustin, dizendo que a greve acabaria no dia 31, com o envio do Orçamento de 2013 para o Congresso, o que encerraria a possibilidade de negociação salarial.
"Nós entendemos que a crise [internacional] é grave. Mas, diante da crise, tem que flexibilizar o superávit primário [economia para pagar juros da dívida] e recuperar carreiras", disse Artur Henrique.
(FLÁVIA FOREQUE, JOHANNA NUBLAT, KELLY MATOS e NATUZA NERY)
9-8-2012 – Valor Econômico
DILMA ENDURECE COM GREVISTAS
DILMA PRESSIONA PARA SUBSTITUIR SERVIDORES EM GREVE NOS ESTADOS
Por Raymundo Costa | De Brasília
O governo está disposto a endurecer na negociação com os funcionários públicos federais, muitos em greve há mais de cinquenta dias. A presidente Dilma Rousseff autorizou a assinatura dos primeiros convênios com São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná a fim de substituir servidores federais em greve por funcionários estaduais e municipais assemelhados, conforme permite decreto baixado por ela no fim de julho.
Segundo o secretário geral da Presidência da República, ministro Gilberto Carvalho, a prioridade do governo é "usar o espaço fiscal para cuidar do emprego daqueles que não têm estabilidade". Mas para ele o diálogo com os grevistas não está fechado: "Temos, ao longo de agosto, possibilidade de vir a discutir e apresentar propostas, o que faremos"
A presidente Dilma Rousseff passou do discurso à prática e determinou a assinatura dos primeiros convênios com São Paulo, Rio de Janeiro e Paraná a fim de substituir servidores federais em greve por funcionários estaduais e municipais, conforme permite decreto baixado por ela no fim de julho. A avaliação do Palácio do Planalto é que o decreto 7.777 do dia 24 de julho - e que permitia a substituição dos servidores em greve por temporários ou funcionários estaduais e municipais - na prática, ainda não funcionou, apesar de algumas portarias assinadas pelos respectivos ministérios.
A ordem no governo federal é endurecer com os grevistas, mas a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, acenou com uma proposta aos servidores, na próxima semana. "Iniciamos o ano com uma perspectiva econômica melhor, mas ao longo do ano foi piorando. O governo teve que refazer seus cálculos", disse a ministra.
O ministro Gilberto Carvalho, da Secretaria-Geral da Presidência, disse que prioridade é "usar o espaço fiscal para cuidar do emprego daqueles que não têm estabilidade". Segundo ele, o diálogo não está fechado. "Temos, ao longo de agosto, a possibilidade de vir a discutir e apresentar propostas, o que faremos. Mas temos a responsabilidade de fazer na hora em que tivermos segurança da proposta", afirmou, ao deixar a Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente, em Brasília, onde foi vaiado por parte do auditório.
A tensão na negociação ficou clara ontem em frente ao Ministério do Planejamento. Cerca de 500 manifestantes, representando 23 carreiras típicas de Estado, criticaram a "intransigência" do governo nas negociações de reajuste salarial. Os manifestantes criaram até um neologismo para criticar a postura da presidente: "Dilmadura." A Esplanada dos Ministérios praticamente parou com novas adesões ao movimento na Secretaria do Tesouro, Receita Federal e até na Controladoria-Geral da União (CGU).
Até ontem, eram 36 categorias em greve em todo o país, num total de mais de 350 mil servidores. No Palácio do Planalto auxiliares da presidente reagiram quando jornalistas avisaram sobre os conflitos no canteiro de obras da refinaria Abreu Lima, em Pernambuco: "Epa, esse aí é iniciativa privada."
Carvalho argumenta que é preciso considerar o momento de crise internacional para "darmos passos seguros". "A responsabilidade nossa é muito maior neste momento", disse o ministro, encarregado de lidar com os movimentos sociais. O governo, segundo Carvalho, entende que há carreiras no serviço público que precisam de correções. O ministro citou como exemplo a proposta de reajuste oferecida aos professores de ensino universitário. "Nós temos sensibilidade para isso", afirmou.
A situação, de acordo com o secretário-geral da Presidência da República, é especial e, por isso, a presidente foi "enfática" ao dizer que o governo quer aplicar a sobra fiscal no "processo de isenção, de estímulo à produção para garantir o trabalho daqueles que, amanhã ou depois podem ser demitidos".
A vigilância sanitária e o Ministério da Agricultura saíram na frente nas providências para substituir servidores, mas os convênios em relação a órgãos da Fazenda e da Justiça também já estão encaminhados. "Tenho certeza que os policiais garantirão as atividades essenciais, como já vêm fazendo", disse o ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo.
Segundo balanço divulgado pela Federação Nacional dos Agentes da Policia Federal (Fenapf), a adesão à paralisação atinge 80% dos policiais, chegando a 100% no Distrito Federal. "O governo não pode ser irresponsável", disse o ministro. A situação é dramática nos portos. As principais categorias que operam os terminais está parada: policiais federais, servidores da Receita Federal e técnicos da vigilância sanitária, entre outros funcionários da União.
A greve dos fiscais agropecuários já reduziu o número de fiscalizações em contêineres de 1.200 para 80 por dia. O Superior Tribunal de Justiça (STJ) determinou que pelo menos 70% dos servidores da Anvisa devem permanecer nos postos de trabalho. Os líderes sindicais agora ameaçam paralisação total - dizem que 30% do pessoal estava trabalhando até agora.
Uma portaria publicada pelo ministro da Agricultura, Mendes Ribeiro, avaliza a chamada de funcionários estaduais e municipais, desde que "verificada a iminência de danos à saúde, ao abastecimento público e à economia do país, colocados em risco em razão da paralisação das atividades de defesa, vigilância, inspeção e fiscalização agropecuária em decorrência da decretação de greve".
A Policia Rodoviária Federal reforçou ontem a fiscalização nas estradas de diversos Estados, gerando longos trechos de congestionamento. A operação-padrão faz parte do movimento de greve parcial dos servidores públicos federais, em vigor há quase 50 dias.
O empresário Robson Andrade, presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), aproveitou a Conferência Nacional de Emprego e Trabalho Decente para defender a modernização das relações de trabalho. Para ele, o governo deve ampliar o debate com empresários e líderes sindicais para modernizar a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT).
O presidente da Central Única dos Trabalhadores (CUT), Vagner Freitas, afirmou que os empresários precisam "se modernizar" e criticou as decisões recentes tomadas pelos governos europeus, de cortar os salários de servidores públicos. "Não tentem fazer isso aqui no Brasil", disse Freitas, aplaudido por servidores em greve.
(Colaboraram Lucas Marchesini, Tarso Veloso e João Villaverde, de Brasília, Fernanda Pires, de Santos, e Luiz Henrique Mendes, de São Paulo)