O discurso de arrocho do governo, agora reforçado pela manifestação da ministra Miriam Belchior, do Planejamento, e a ameaça do corte do ponto de grevistas, não está intimidando os servidores. As categorias permanecem mobilizadas e a cada dia acontecem mais adesões, sinal de que a insatisfação é grande e de que a paciência está chegando ao limite.
Depois dos professores das universidades públicas, das carreiras de Estado, de servidores administrativos de vários ministérios e órgãos, os servidores do Judiciário também decidiram realizar mobilizações semanais, a começar desta quarta-feira, quando promovem o primeiro “apagão do Judiciário” no país.
O movimento cresce em todas as carreiras. Nesta quinta-feira acontecerão mais manifestações em Brasília e na semana que vem a Esplanada deverá ser tomada por acampamentos. Os servidores, que vivenciam arrocho, defasagem e más condições de trabalho, não veem outra saída a não ser radicalizar a mobilização até que o governo dê respostas às reivindicações já colocadas.
Assista
aqui a um dos vídeos da Campanha Salarial.
Veja matérias sobre a mobilização do funcionalismo:
11-7-2012 - Correio Braziliense
Servidores exaltados
Deco Bancillon
Pela primeira vez, a ministra do Planejamento, Miriam Belchior, puxou a responsabilidade para si e falou sobre o movimento grevista que toma conta do país. Ao contrário do que os servidores esperavam, porém, ela manteve a argumentação já anunciada por sua equipe técnica. “O reajuste é um elemento-chave. O governo tem até 31 de agosto para enviar os projetos de aumentos para o ano que vem ao Congresso, conforme determina a Lei de Diretrizes Orçamentárias. Continuamos discutindo com os servidores, mas estamos levando em conta essa situação internacional, que é pouco favorável”, disse.
Mas os servidores não andam muito satisfeitos com o discurso do governo sobre as paralisações. Ofendidos com a declaração do ministro da Fazenda, Guido Manteiga, de que não receberiam reajuste porque já têm os maiores salários do funcionalismo, os servidores do Judiciário decidiram radicalizar. A Federação Nacional dos Trabalhadores do Judiciário Federal e do Ministério Público da União (Fenajufe) divulgou ontem que ambos os órgãos devem paralisar as atividades durante todas as quartas-feiras. O primeiro “apagão do judiciário” deve acontecer hoje, com mobilizações dos sindicatos de todo o país, que se reúnem em Brasília.
Os trabalhadores do Executivo também estão com os ânimos exaltados em razão da decisão do Palácio do Planalto pelo corte de ponto dos grevistas. Amanhã, acontecerá uma manifestação de repúdio, na porta do Ministério do Planejamento, de acordo com a Confederação dos Trabalhadores no Serviço Público Federal (Condsef). Os servidores do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) foram os últimos a aderir o movimento: 20 unidades em 16 estados estão paradas.
11-7-2012 - Correio Braziliense
Greve reduz receita
Vera Batista
A resistência do governo em atender às reivindicações dos servidores públicos federais pode trazer drásticas consequências aos cofres da União. Apenas as operações tartarugas (lentidão nos trabalhos em portos e aeroportos) e crédito zero (adiamento dos processos de arrecadação) dos auditores fiscais da Receita Federal acarretarão uma queda de 5,77% no recolhimento de impostos e contribuições, este mês, no confronto com maio, que foi de R$ 77,971 bilhões.
A cada 24 horas, o Fisco deixa de receber menos R$ 150 milhões. Em um mês, serão R$ 4,5 bilhões. E, se contarmos todos os dias – desde 18 de junho, quando os auditores iniciaram o movimento, até 31 de julho, data em que o governo promete apresentar uma proposta aos grevistas -, o valor dos créditos tributários não recolhidos sobe para R$ 6,450 bilhões.
Além disso, a operação tartaruga mantém cerca de 2,5 mil caminhões retidos na fronteira brasileira de Foz de Iguaçu.
Os cálculos são do presidente do Sindicato Nacional dos Auditores Fiscais da Receita (Sindfisco), Pedro Delarue. Ele alertou para o perigo de estrangulamento do comércio exterior e de desabastecimento do mercado interno – 5% de todas as mercadorias que circulam por portos e aeroportos já estão aguardando para entrar ou sair do país. “O governo disse que o impacto da paralisação dos auditores seria de R$ 3 bilhões, mas pode sair pelo dobro do preço”.
22% possíveis
Delarue contesta também os argumentos do governo para não conceder o reajuste linear de 22% pedido pela categoria. Com base em dados do Boletim Estatístico de Pessoal, do Ministério do Planejamento, ele mostrou que a folha de salários da União é da ordem de R$ 197,4 bilhões. “Os gastos com os civis são de R$ 111,951 bilhões. Portanto, um reajuste linear de 22% seria de R$ 24,5 bilhões e não de R$ 60 bilhões. Não sabemos como o governo chegou a esses números”, diz.