Especialista afirma que cada país tem sua realidade e nela deve buscar as soluções para a crise do desemprego
Duas matérias veiculadas pelo Jornal Valor Econômico nesta segunda-feira, 30 de janeiro, chamam a atenção para as mudanças nos mercados de trabalho brasileiro e europeu. O mercado brasileiro, mesmo com um cenário de fraco crescimento da economia, ao contrário do europeu, não vem sofrendo o abalo que a Europa padece.
A queda na taxa de desemprego em 2011 no Brasil é apontada por especialistas como decorrente, entre outros fatores, das mudanças demográficas - em que a população em idade ativa cresce cada vez mais devagar, moderando o ritmo de expansão da oferta de trabalho e, com isso, colaborando para reduzir a desocupação, ou seja, a taxa de desemprego. Na Europa ocorrem duas situações: há países onde o índice de população em idade ativa aumenta cada vez mais rápido, e há aqueles como a Alemanha, que vê sua força de trabalho em encolhimento. Nestes, as pressões dos sistemas de seguridade social sugerem incentivos para adiar a idade da aposentadoria.
O artigo discute como a Europa deve encarar a reforma em seu mercado de trabalho. Considera esta reforma como sendo a parte mais crítica do processo de mudanças na zona do euro e em toda a União Europeia.
Enquanto isso, no Brasil dados do IBGE revelam que o desemprego fechou o ano passado em 6% nas seis principais regiões metropolitanas do país, o nível mais baixo da série iniciada em 2002.
Outro fator que contribui para a redução dos índices de desemprego no País tem sido o Produto Interno Bruto (PIB) que, apesar de ter crescido menos de 3% no ano passado, fez com que os serviços ainda tivessem um bom desempenho, o que explica o aumento expressivo da ocupação no setor.
Especialistas apontam que a força dos serviços e da construção civil, no Brasil, derrubou o desemprego em 2011, mas não acreditam que o mesmo pode ocorrer se a economia crescer menos de 3,5% a 4% em 2012. A previsão é que o desemprego no Brasil deverá subir se o PIB tiver mais uma expansão modesta, na casa de 3%.
Para o diretor do Instituto para o Estudo de Trabalho, da Alemanha, Klaus F. Zimmermann, cada país tem sua realidade e nela deve buscar as soluções para a crise do desemprego. E o mais importante é que ele aponta que este conceito pode ser colocado em prática sem flexibilizar direitos trabalhistas.
Seu pensamento se choca com as propostas dos neoliberais, sempre presentes, com uma receita pronta para o mundo, para países da Europa e da Sulamérica como, por exemplo, o Brasil.
Diferente desta receita, o Brasil tem caminhado neste sentido, não vem sofrendo o abalo econômico pelo qual passa a Europa e seus trabalhadores não são vítimas de flexibilização trabalhista, continuam a salvo dessas intempéries.
Mais detalhes sobre estes assuntos nas matérias abaixo.
30-1-2012 – Velo Econômico
Para pesquisadores, menor desemprego já reflete mudanças demográficas
Por Sergio Lamucci | De São Paulo
A queda da taxa de desemprego em 2011 se deveu em grande parte à força da ocupação no setor de serviços e na construção civil, mesmo num cenário de fraco crescimento da economia, mas também refletiu um fator mais estrutural - as mudanças demográficas que já afetam o mercado de trabalho brasileiro. A população em idade ativa (PIA) cresce cada vez mais devagar, moderando o ritmo de expansão da oferta de trabalho e, com isso, colaborando para reduzir a desocupação. O desemprego fechou o ano passado em 6% nas seis principais regiões metropolitanas do país, o nível mais baixo da série iniciada em 2002, segundo números do IBGE.
Assessor da presidência do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) e professor da Universidade de Brasília (UnB), Jorge Arbache tem chamado a atenção para a importância dos efeitos das mudanças demográficas sobre o emprego e a renda. A PIA, diz ele, é o fator mais importante para determinar a oferta de trabalho. Uma PIA que cresce menos tende a reduzir o ritmo de expansão da chamada população economicamente ativa (PEA), o grupo formado pelas pessoas empregadas e pelas que estão em busca de ocupação.
Em 2011, a PIA cresceu 1,26% nas seis principais regiões metropolitanas, taxa idêntica à do ano anterior. Em 2007, ela tinha crescido 1,73%. Segundo Arbache, a expectativa é que a população em idade ativa pare de crescer entre 2020 e 2022, passando então a encolher. Quando isso ocorrer, o impacto sobre a oferta de trabalho será muito mais intenso.
No ano passado, a PEA teve um aumento de 1,2%, inferior à alta de 2,1% registrada pelo nível de emprego. A tendência de fraco crescimento da população em idade ativa ajuda a explicar o avanço modesto da PEA, avalia o economista Sérgio Mendonça, do Departamento Intersindical de Estatísticas e Estudos Socioeconômicos (Dieese). Arbache ressalva que, no curto prazo, a PEA "pode variar em razão de incentivos, como o aumento ou queda dos salários reais" - ou seja, não segue automaticamente os movimentos da PIA.
Para Mendonça, a força do mercado de trabalho nos últimos anos, com alta de salários e aumento da formalização, tem levado mais gente a retardar a entrada no mercado de trabalho. Numa família em que os pais têm um emprego com rendimento melhor e contam com a segurança da formalidade, a tendência é que os filhos fiquem mais tempo estudando, sem buscar emprego e, com isso, aliviam a pressão sobre a PEA, acredita ele. É uma avaliação compartilhada pelo economista Fabio Romão, da LCA Consultores, para quem uma situação favorável em termos de renda pode desestimular a busca de ocupação dos filhos para reforçar o orçamento familiar.
Arbache aponta dois outros fatores que tendem a diminuir o potencial de expansão da população economicamente ativa: a taxa de participação das mulheres no mercado de trabalho já é elevada e não há mais uma grande migração da zona rural para as cidades.
Para ele, os analistas têm subestimado o impacto das mudanças demográficas já em curso no país. "A taxa de fecundidade no Brasil caiu de três para dois filhos por mulher em apenas 18 anos, de 1988 a 2005, enquanto em muitos países europeus essa mudança se deu em cerca de 60 anos ou mais". Trata-se de um fenômeno importante, com efeitos significativos sobre o ritmo de expansão da população em idade ativa, afirma Arbache.
No curto prazo, diz ele, a redução do ritmo da oferta de trabalho ajuda a transmitir uma sensação de bem estar, por ajudar a reduzir o desemprego. No longo, implica em desafios difíceis, por elevar o custo do trabalho, minando a competitividade internacional do país, além de ter efeitos sobre a Previdência. Para lidar com esses problemas, avalia Arbache, será fundamental trabalhar para elevar a produtividade.
Os especialistas ressaltam também o papel essencial dos fatores conjunturais para a queda do desemprego de 6,7% em 2010 para 6% em 2011 - menos da metade dos 12,3% de 2003. O Produto Interno Bruto (PIB) deve ter crescido menos de 3% no ano passado, mas os serviços ainda tiveram um bom desempenho, o que explica o aumento expressivo da ocupação no setor. No segmento de serviços às empresas, o nível de emprego aumentou 6,4% em 2011, um alta mais forte que os já significativos 4,5% do ano anterior.
Arbache diz que o "crescente protagonismo dos serviços na economia", num momento em que a indústria patina, foi decisivo para a ocupação crescer a um ritmo ainda razoável. Mendonça observa que a construção civil também ajudou - números do IBGE mostram uma alta de 3,9% do nível de emprego no setor no ano passado. Para comparar, o crescimento na indústria de transformação foi de apenas 1,2%.
O professor Claudio Salm, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), diz que a força dos serviços e da construção derrubou o desemprego em 2011, mas ele não acredita que o mesmo pode ocorrer se a economia crescer menos de 3,5% a 4% em 2012. Ele diz que, na primeira metade de 2011, a economia ainda teve um crescimento razoável (de 3,8% em relação ao mesmo período de 2010), e que a desaceleração mais forte ocorreu apenas no segundo semestre. Neste ano, o desemprego tende a subir se o PIB tiver mais uma expansão modesta, na casa de 3%, acredita Salm.
Mendonça e Romão discordam, apostando em nova queda da desocupação em 2012. Para o primeiro, um motivo importante é que não haverá uma grande pressão da oferta de trabalho, em parte pela questão demográfica e em parte porque a condição favorável de emprego e renda tende a fazer com muitas famílias retardem a entrada dos filhos no mercado de trabalho. Romão acredita que a PEA vai crescer 1,6% em 2012, acima do 1,2% deste ano, mas ainda assim menos que o 1,8% estimado para a ocupação. A atividade econômica deve ganhar força no segundo trimestre, decolando especialmente depois de julho, contribuindo para que setores como a indústria e o comércio gerem um volume maior de empregos.
30-1-2012 – Valor Econômico
Artigo: Como a Europa pode voltar ao trabalho
Klaus F. Zimmermann
Sem sombra de dúvida, a reforma dos mercados de trabalho é a parte mais crítica do processo de reforma na zona do euro e em toda a União Europeia. Somente medidas bem-sucedidas nessa área poderão induzir uma recuperação duradoura e focada no futuro da Europa. Os chefes de Estado europeus têm uma excelente oportunidade para focar sua reunião de cúpula de hoje em estratégias para reduzir o desemprego.
Embora o objetivo seja claro - o crescimento deve ser estimulado em todos os países e o desemprego precisa encolher - é preciso resistir à tentação de acreditar na existência de alguma solução de "tamanho único". Longe disso. Cada país pode, e cada país deve, desenvolver sua própria estratégia para reforma do mercado de trabalho. Cada país, e não Bruxelas ou qualquer outra pessoa, é, portanto, responsável por seu próprio destino. E isso tem uma razão muito simples. As condições, necessidades, opções e desafios do mercado de trabalho, são distintas, em cada país, muitas vezes significativamente, em diferentes países.
Alguns países têm um componente muito grande do setor de serviços em sua economia nacional e, portanto, dependem em grande parte da demanda doméstica. Outros dependem fortemente de exportações e devem preparar-se contra um possível desaquecimento nessa frente. Existem, ainda, aqueles que ainda precisam evoluir de uma dependência excessiva de estruturas agrárias. E outros, ainda, precisam concentrar-se principalmente em reduzir os enormes níveis de desemprego juvenil.
Porém mesmo países onde o desemprego já é bastante baixo, como a Alemanha, têm de lidar com sérios desafios. Uma força de trabalho em encolhimento e pressões sobre os sistemas de seguridade social sugerem incentivos para adiar a idade de aposentadoria e fazer muito mais para integrar as mulheres na força de trabalho. Essa é uma área onde a França e os países escandinavos têm dado exemplos notáveis de como fazer a coisa certa.
E embora não caiba à Comissão Europeia em Bruxelas prescrever qualquer caminho específico e, possivelmente, até mesmo uniforme, de reforma, há um papel útil que a Comissão poderia desempenhar. Ela deveria acompanhar e incentivar o progresso dos países quanto à liberalização do mercado de trabalho e criação de novos empregos. Incentivar mudanças positivas seria um uso verdadeiramente construtivo dos recursos de controle da Comissão. A mentalidade atual - obcecada com o desempenho orçamentário dos países e a imposição de sanções a países que já se encontram em graves dificuldades fiscais - tende a ser contraproducente.
Especificamente, a Comissão Europeia pode melhorar a mobilidade laboral na Europa, promovendo colaborações entre os birôs de trabalho nacionais para intercambiar informações sobre vagas e trabalhadores interessados e criar o extremamente necessário mercado de trabalho online europeu. Uma mobilidade muito maior da mão de obra dos trabalhadores europeus é a chave para gerar crescimento adicional mediante redução do desperdício de recursos humanos. Da mesma forma, nós, europeus, podemos falar um total de 23 línguas oficiais na UE, mas isso não deveria nos impedir de fazer muito mais para reconhecer os certificados de treinamento profissional de uma forma muito mais aberta de outros países.
Nesse aspecto, a Alemanha pode se tornar um centro precoce de atenção e reforma. Por causa do crescimento econômico sustentado, o mercado de trabalho alemão está se aproximando do pleno emprego. Com o gradual declínio da população total do país, as chances são de que haverá mais empregos a serem preenchidos, na Alemanha, no futuro, do que o número de novos trabalhadores que entram no mercado de trabalho a cada ano. Ao mesmo tempo, os alemães têm estado na vanguarda daqueles particularmente preocupados em ter o certificado "apropriado" de formação para novos funcionários.
Não posso imaginar que num mercado de trabalho de 500 milhões de pessoas, com muitos jovens sem um emprego, os empregadores alemães não conseguiriam encontrar pessoal adequado em outros países. Na era de mídias sociais e do Skype, não é muito difícil selecionar talentos, mesmo a longas distâncias. A médio prazo, essa é uma estratégia de RH muito mais produtiva, para as grandes empresas, do que a prática em que estão começando a se envolver: tentar usar caça-talentos para roubar uns dos outros jovens profissionais que estão apenas em seu primeiro emprego. Esse é, efetivamente, um jogo de soma zero.
Uma mentalidade mais arejada e internacional também seria um elemento poderoso rumo à eventual criação de economias mais dinâmicas nos países de origem dos migrantes. Tomemos o exemplo da Turquia. Embora o país não seja sequer membro da UE e a barreira de idioma seja certamente alta, a Turquia tornou-se uma economia manufatureira muito atraente. Uma parte fundamental do dinamismo recém-redescoberto baseia-se na transferência de competências dos trabalhadores turcos que trabalhavam na Alemanha antes de retornarem a seu país e criarem pequenas empresas. Desnecessário dizer que os 27 países da UE deveriam fazer, cada um em relação aos outros, o que a Alemanha e Turquia fizeram, juntas, durante as últimas décadas, sem qualquer ato de planejamento governamental.
Levar honestamente em conta particularmente as necessidades e responsabilidades do norte da Europa também nos leva a pensar muito diferentemente sobre o Norte da África, especialmente as pessoas com formação superior na Tunísia ou no Egito. Falamos muito sobre o rápido envelhecimento na Europa. Enquanto isso, a idade média no Egito é de 24 anos e na Tunísia de 29,7 anos.
Se o exemplo turco demonstrou alguma coisa é que ambos os lados podem se beneficiar, mesmo de formas inesperadas, do processo de intercâmbio. Esse exemplo nos ensina que devemos abrir nossos olhos para o potencial. O fato de as estratégias destinadas a suprir as necessidades de nossos mercados de trabalho precisarem também se alinhar muito bem com a estratégia da União Europeia em matéria de política externa certamente não fará mal algum. (Tradução de Sergio Blum)
Klaus F. Zimmermann é diretor do IZA, Instituto para o Estudo de Trabalho, Bonn, Alemanha