A Auditora-Fiscal do Trabalho Jacqueline Carrijo (GO) enviou ao Sinait um texto que revela o sentimento que se abateu sobre a categoria no dia 28 de janeiro de 2004, quando os Auditores-Fiscais Eratóstenes, João Batista e Nelson, e o motorista Ailton, foram assassinados. Foi um choque para todos, uma sensação de impotência, de desalento, que aos poucos, foi dando lugar à indignação e à revolta.
Passados oito anos, completados hoje, a categoria se refez, segue cumprindo sua missão, mas a lembrança de fato tão marcante permanece. No caso de Jacqueline a identificação com o acontecimento foi grande porque ela estava envolvida, como está até hoje, com fiscalizações rurais, tendo sido também coordenadora de equipe do Grupo Móvel. Muitos sentiram a mesma coisa, se colocando no lugar das vítimas. Afinal, podia ter sido qualquer um.
Leia o texto:
“O tempo passou e nós não perdemos a indignação. Hoje faz oito anos que mataram nossos colegas, e eu me lembro do susto, do sentimento de impotência, das náuseas, da dor no peito quando nos informaram que haviam matado nossos colegas em Unaí.
Na manhã dia 28 de janeiro de 2004 eu lembro que havia chegado na sede da SRTE em Goiânia. Naquela época eu estava começando na fiscalização rural, e precisava verificar se a nossa caminhonete estava em condições para sair no dia seguinte. Era preciso verificar nosso veículo, uma caminhonete branca.
Assim que saí da garagem e entrei no térreo eu lembro que as pessoas estavam olhando para a TV, algumas choravam e ali me disseram que haviam matado nossos colegas em Unaí. Eu fiquei em estado de choque. Eu via as imagens na TV e olhava meus colegas ao redor. Ali mesmo eu comecei a chorar, então desci novamente para a garagem e fiquei parada na escada olhando para a nossa caminhonete branca, igual aquela em que nossos colegas foram assassinados. Eu nos via dentro dela, junto com eles.
Eu me lembro do quanto fiquei assustada, e de ficar sentada, sozinha, na escada da garagem da SRTE. Pensava: e agora? Paramos? O medo vai tomar conta de nós? Eu fiquei com medo, muito medo. A minha mente dizia: pare, agora!! Mas, depois de algumas horas de reflexão naquele dia, e muitas orações e lágrimas, eu concluí que a minha vontade de espantar a dor, a raiva, a indignação, eram maiores. Naquele mesmo dia eu decidi que era preciso continuar, que eu não iria perder a confiança.
Os assassinos dos guardiões dos trabalhadores tentaram atingir a confiança da categoria. O tempo provou que não conseguiram acabar com ela. Nós continuamos fortalecidos na fé, na coragem, resistindo bravamente aos choques das adversidades existentes no mundo do trabalho. Exibimos esforços diários ao povo brasileiro de que continuamos determinados no cumprindo das nossas missões institucionais em defesa da vida, saúde e segurança dos trabalhadores no país, não importa o que aconteça.
O grande Sarte disse: "Eu posso não ser responsável pelo que fizeram de mim, mas sou responsável pelo que eu faço com aquilo que fizeram de mim!”. Depois da chacina de Unaí, a categoria continua na busca pela paz e repudia todas as formas de violência nas relações de trabalho, e assim continuamos vivendo mais e vivendo uma Auditoria-Fiscal do Trabalho maior”.
Jacqueline Carrijo – Auditora-Fiscal do Trabalho - Goiânia