Trabalho doméstico - Revista do Trabalho destaca experiência de Creuza Barboza


Por: SINAIT
Edição: SINAIT
29/12/2011



Revista traz também reportagem sobre a experiência do Auditor-Fiscal do Trabalho Carlos Alberto Pontes (PB) em projeto de prevenção de acidentes na construção civil


 

A Auditora-Fiscal do Trabalho Creuza Barboza (AM) foi entrevistada pela Revista do Trabalho, publicação do Ministério do Trabalho e Emprego, em matéria que enfoca a realidade e os desafios dos trabalhadores domésticos, intitulada “A grande virada”.

 

Creuza, que é referência nacional no combate ao trabalho infantil, teve uma infância difícil e foi empregada doméstica, passando por situações as quais outros milhares de trabalhadores domésticos enfrentam ainda hoje. Ela não fala do período com amargura, pelo contrário, transforma sua experiência em matéria prima para escrever crônicas com muita sensibilidade e ajudar outras pessoas a se libertarem da exploração.

 

O Sinait conhece e reconhece o trabalho de Creuza Barboza, que já integrou a diretoria da entidade e foi presidente da Agitra/AM. Recentemente, no dia 17 de outubro, em evento que celebrou os 120 anos da Inspeção do Trabalho, realizado em Manaus, ela foi escolhida pelos colegas para receber homenagem pelo trabalho no combate ao trabalho infantil no Estado.

 

Outro destaque

A mesma edição da Revista do Trabalho traz reportagem sobre o trabalho do Auditor-Fiscal Carlos Alberto Pontes, da Paraíba, que conseguiu firmar, na cidade de Patos, um acordo com a prefeitura local para fiscalizar obras de construção civil e, desta forma, diminuir o número de acidentes de trabalho. O resultado foi tão bom que já virou notícia nacional em matéria do jornal Folha de São Paulo, que publicou ainda fotos colecionadas pelo Auditor-Fiscal em uma galeria.

 

 veja matéria do Sinait sobre o assunto.

 

Leia as reportagens citadas e outras na Revista do Trabalho.

 

A seguir, a matéria com Creuza Barboza:

 

Trabalhadores relatam provações

(Box da matéria “A grande virada”, da Revista do Trabalho, edição nº 11 – Jul/Ago/Set – Páginas 34, 35 e 36)

 

José Xavier (na foto ao lado), 32 anos, sabe exatamente o que é trabalhar em regime comparado à escravidão sem definição de horário, sem remuneração por horas extras trabalhadas e submetido a humilhações.

 

Desde muito cedo, ele foi acostumado com os afazeres domésticos pois teve de cuidar dos cinco irmãos mais novos enquanto a mãe trabalhava como cabeleireira e o pai na agricultura. Sob sua responsabilidade, a casa vivia tão limpa e os irmãos tão bem cuidados que o fato chamou a atenção de uma vizinha que o pediu para cuidar das duas filhas dela, quando ele tinha ainda 12 anos.

 

Desde então, em sua trajetória como trabalhador doméstico, Xavier, que atuou inicialmente no seu estado de origem, o Ceará, depois no Paraná e atualmente trabalha num supermercado na capital do país, conviveu com informalidade, falta de salário, ou quando muito, salário mínimo, carga horária indefinida, chantagem, exploração, situações próprias de uma relação análoga à escravidão.

 

“Quando comecei a trabalhar não recebia salário, apenas algumas roupas e uma cesta básica que eu levava para minha mãe quando a visitava, de vez em quando. Depois, nos quatro empregos que trabalhei como empregado doméstico minha carteira só foi assinada apenas uma vez. Também convivi com exploração e maus tratos. Lembro que uma vez fui acordado às 2 horas da manhã para escutar bronca por não ter lavado o carro do filho da patroa. Também já tive que levantar de madrugada para atender o filho do patrão que chegava bêbado da farra. Porque é assim, ou a gente faz ou é mandado embora. E essa é a vida do empregado doméstico, a gente sai do interior para tentar mudar de vida, e para isso a gente sofre muito até conseguir alguma coisa”, desabafa Xavier.

 

Da mesma forma, Creuza Barboza (na foto da página seguinte) também tem um histórico de exploração e submissão a maus tratos. A menina que nasceu no interior do Amazonas e foi para a capital na esperança

de se tornar professora, relata que uma vez chegando à cidade grande o que viu foi “o sonho de menina do interior desaparecer de repente, como bolha de sabão, ao passar a trabalhar desde a madrugada até à noite, sem descanso nem mesmo aos domingos”, recorda.

 

“Escola e brincadeira, direitos de qualquer criança? Nem pensar. Diariamente eu era obrigada a lavar quatro banheiros, varrer toda a casa de dois pisos e um porão e limpar os móveis. Além disso, de dois em dois dias, tinha de encerar os quartos, salas e saletas; a escada e até o piso do jardim. Quando faltava energia, o que era uma rotina, usava um escovão de ferro tão pesado que só faltava arrancar meus braços”, descreve Creuza.

 

Além de tudo isso, a menina com responsabilidade excessiva até pra gente grande ainda tinha de cuidar de duas outras crianças. Sendo que não recebia salário algum. “Durante dois anos de escravidão, trabalhando como doméstica, recebi apenas uma sandália, dois vestidinhos novos e alguns outros, usados. Com tão pouca idade e longe da minha família, fui explorada e espancada. Às vezes o sofrimento era tão grande que eu quase perdia a esperança, a fé e o sentido de viver”, descreve Creuza em sua crônica “Trabalho Infantil Doméstico – Um caso entre outros”.

 

Para Creuza, a recém aprovada Convenção da OIT vem reparar “a grande injustiça cometida contra os trabalhadores domésticos”, e cujo tratamento tem sido, ao longo dos tempos, “não apenas injusto, mas também extremamente discriminatório”, afirma.

 

A ex-trabalhadora doméstica e atual auditora fiscal do Trabalho lotada na SRTE/AM e uma das responsáveis pela instalação do Programa de Erradicação do Trabalho Infantil (PETI), no estado do Amazonas, hoje ajuda crianças em situação de vulnerabilidade. Ela acredita que nos países em que for ratificada a Convenção será possível a criação de instrumentos para viabilizar o atendimento das

sugestões emanadas da Assembléia Geral da OIT, e, por conseguinte, “vindo a melhorar a vida de milhões de trabalhadoras e trabalhadores domésticos brasileiros. Pelo menos é o que esperamos” espera.

 

Por outro lado, ela avalia que as discussões para a ratificação da Convenção poderão se “acirrar” frente

ao argumento de que a formalidade sugerida pelo documento da OIT poderá onerar o empregador e “aumentar ainda mais a informalidade em vez de acabar com a mesma”, avalia. Mas ela adianta que esse

argumento “não pode vingar”, pois, “parece próprio de exploradores”, conclui. Por fim, ela diz que para o

êxito na ratificação da Convenção será necessária a promoção de uma “intensa” mobilização.


“O Brasil não pode nem deve ficar de fora dessa luta em prol do trabalho decente para os milhões de trabalhadoras e trabalhadores que compõem essa categoria laboral historicamente tão discriminada e explorada”, diz.

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