A estruturação de um sistema de atendimento aos autistas no Brasil foi tema de uma audiência pública na Comissão de Assuntos Sociais (CAS) do Senado Federal, na última quarta-feira, 17. A partir de sugestões de entidades que defendem os autistas no país, um projeto de lei deverá ser elaborado pedindo para que o sistema seja criado.
Durante a reunião, os participantes da audiência puderam conhecer o engenheiro de comunicações Gustavo Adolfo de Medeiros. Ele é considerado autista leve e tem mestrado na área de inteligência artificial e neurociência computacional pela Coppe - Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia - da Universidade Federal do Rio de Janeiro.
Gustavo relatou que, diante da falta de políticas públicas específicas para autistas, demorou muito para ser diagnosticado. Apesar de suas qualificações profissionais, além do mestrado, domina o inglês fluente, está desempregado. "Quero tirar meu dinheiro do suor do meu rosto, como todo mundo", enfatizou. "O autista não é fardo para a sociedade, a menos que achem que Einstein e Newton o eram. O austista oferece uma forma diferente de pensar e ver o mundo".
Mais detalhes com informações da Agência Senado.
Brasil não dispõe de políticas de inclusão de autistas no mercado de trabalho
Está sob a responsabilidade do senador Flávio Arns (PSDB-PR) a análise de uma sugestão de projeto de lei que prevê, entre outras medidas, a criação de um sistema nacional integrado de atendimento para os autistas. Para discutir a iniciativa, uma audiência pública foi realizada pela Comissão de Assuntos Sociais do Senado (CAS), na última quarta-feira (17).
A sugestão foi apresentada pela Associação em Defesa do Autista (Adefa), entidade sediada em Niterói (RJ). Se o parlamentar acatar a sugestão, com ou sem alterações, ela poderá ser transformada em projeto de lei.
O autismo, segundo o dicionário Houaiss, caracteriza-se pela "polarização privilegiada do mundo dos pensamentos, das representações e sentimentos pessoais, com perda, em maior ou menor grau, da relação com os dados e exigências do mundo circundante".
Durante a audiência, os convidados ouviram o relato do engenheiro de telecomunicações Gustavo Adolfo de Medeiros, com mestrado na área de inteligência artificial e neurociência computacional pela Coppe - Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-graduação e Pesquisa de Engenharia -, da Universidade Federal do Rio de Janeiro, o maior e um dos mais conceituados da América Latina. Ele foi apresentado como pesquisador. Só quem o conhecia, sabia da sua condição. "Sou autista leve, de alta funcionalidade ou desempenho", declarou-se.
Apesar do currículo invejável - é fluente em inglês, com noções de francês e alemão, com dois trabalhos publicados em revistas estrangeiras -, o seu relato demonstrou a inexistência de políticas públicas que possam garantir a inclusão de pessoas como ele no mercado de trabalho e a falta de profissionais capacitados no diagnóstico e no tratamento de autistas.
Primeiro enfrentou dificuldades para diagnosticar suas diferenças. Ele se considerava normal e as informações que detinha sobre o autismo não pareciam se adequar ao seu caso. Com o insucesso na profissão e as sucessivas demissões, a tia que já cuidara dele ajudou-o a investigar a fundo o que prejudicava sua carreira, apesar da qualificação acadêmica, e os seus relacionamentos com as pessoas, inclusive os amorosos.
Favorável à aprovação do anteprojeto de lei federal, Gustavo contou uma de suas experiências mais dramáticas. Passou em dois concursos públicos, um deles para o Banco do Brasil. "Os meus avaliadores fizeram de tudo para eu ser aproveitado em setor tecnológico. Mas a norma da instituição me obrigava a ficar pelo menos um ano em agência. Para isto, eu tinha que ser bastante sociável", lembra ele.
Só após essa dispensa e uma extensa lista de médicos e psicólogos despreparados, tratamentos equivocados, inclusive com antipsicóticos, Gustavo conseguiu um neurologista com doutorado em Neuropsiquiatria que diagnosticou sua condição de autista. Ele continua sem emprego e diz que não quer ajuda governamental, como pensão ou outro benefício previdenciário. "Quero tirar meu dinheiro do suor do meu rosto, como todo mundo", enfatizou.
"O autista não é fardo para a sociedade, a menos que achem que Einstein e Newton o eram. O austista oferece uma forma diferente de pensar e ver o mundo", complementou.
Autismo: Voluntariado faz a diferença
Em setembro, um grupo de pais de crianças autistas, que só se conhece pela internet, lançou a revista Autismo, depois de constatar a necessidade de informação sobre o assunto e a falta de publicação especializada. "Foram seis meses de pesquisa pela internet e contato com entidades, inclusive no exterior", diz o jornalista Paiva Júnior, responsável pela edição. O resultado, segundo ele, foi a primeira publicação exclusiva sobre autismo na América Latina e a primeira em lingua portuguesa no mundo.
Um dos pais, Waldemar Casagrande, tem uma gráfica em Santa Catarina e conseguiu que um dos seus fornecedores doasse o papel. O publicitário e artista plástico Martim Fanucchi foi responsável pelo projeto da revista e Paiva pelo conteúdo. Com uma tiragem de 5 mil exemplares, rapidamente esgotada, a revista está disponível pela internet (www.revistaautismo.com.br). Até o final do ano, segundo Paiva, deve estar disponível a sua versão para o inglês e no final de janeiro para o espanhol. Atualmente semestral, o desafio, acrescenta, é encontrar patrocínio para torná-la trimestral.
Esse voluntariado tem ajudado a minimizar a ausência de políticas públicas e o sofrimento das famílias. Todas as entidades que compareceram à audiência na CAS, por exemplo, reúnem pais e parentes de autistas. A Associação Brasileira de Autismo (Abra) é presidida por Marisa Furia Silva, mãe de autista de 32 anos, que revelou a preocupação com a velhice do seu filho e dos demais adultos autistas. "O básico é ter seguridade social e educação", defendeu na audiência.
A pedagoga Juceli Vianna Antunes, avó de criança autista, resolveu fundar a Adefa, depois que descobriu a precariedade do atendimento no Brasil. Decidiu partilhar seus conhecimentos e suas pesquisas sobre o assunto. A entidade sobrevive do voluntariado e mesmo com parcos recursos já atendeu cem crianças autistas.
Mais contundente, a presidente da Associação de Amigos do Autista da Bahia (AMA-BA), Rita Valéria Brasil, que há 17 anos trabalha em instituições para autistas, reclamou da falta de prioridade aos portadores do TEA. Ela mostrou, na sua apresentação, como a intervenção adequada pode melhorar a qualidade de vida de crianças e adolescentes com TEA, com exemplos animadores de autistas carentes assistidos pela entidade.
Na audiência, o professor Marcos Tomanik Mercadante, da Escola Paulista de Medicina, dimensionou a falta de especialistas no assunto. Ligado ao Departamento de Psiquiatria Infantil da Associação Brasileira de Psiquiatria, ele informou que apenas 300 profissionais filiados à entidade possuem especialização em Psiquiatria da Infância e há apenas outros 250 a 300 neuropediatras.