23 Jun

Em artigo, cadeirante denuncia a "invisibilidade" das pessoas com deficiência

Publicada em: 23/06/2010

22-6-2010 – SINAIT

Em artigo, cadeirante denuncia a “invisibilidade” das pessoas com deficiência

 

O artigo abaixo, escrito por um “cadeirante”, procura chamar a atenção para a “invisibilidade” das pessoas com deficiência no país. As pessoas “comuns” não estão preparadas para lidar com diferenças e uma das reações possíveis é ignorar o diferente, desconhecer, nas mais diversas situações.

 

No trabalho, a obrigatoriedade de empresas com mais de cem empregados contratarem pessoas com deficiência ainda está longe de cumprir a meta, seja por falta de qualificação profissional dos deficientes, seja por resistência das empresas. A falta de qualificação é uma consequência do preconceito e da falta de políticas públicas de educação, transporte e saúde que atendam as necessidades de mais de 14 milhões de pessoas com algum tipo de deficiência no Brasil.

 

A Fiscalização do Trabalho, através de ação coletiva e persistente dos Auditores Fiscais do Trabalho, tem conseguido elevar o índice de inclusão de pessoas com deficiência no mercado de trabalho. A grande maioria delas se adapta muito bem, corresponde – e supera – às expectativas dos empresários e encontra razões para se qualificar mais e progredir no ambiente de trabalho. Ainda falta muito para que a lei de quotas se torne uma política realmente inclusiva, mas importantes passos estão sendo dados.

 

Leia o artigo de Jairo Marques:


22-6-2010 – Folha de São Paulo
Opinião - Os superpoderosos

Jairo Marques


COMPLICADO ADMITIR isso publicamente por causa da repercussão que pode dar e dos favores que vão me pedir, mas vamos lá: tenho um superpoder, o da invisibilidade. Diversas vezes, não notam a minha presença nos lugares e não falam comigo.
Pessoas com deficiência e os idosos, de forma geral, ganham dons sobrenaturais. Os cegos podem ficar resistentes ao som, pois há quem fale com eles gritando. Os velhinhos voltam a ser crianças e são tratados com "gut gut" e mimos. Já os surdos passam a ser imunes à emoção. Pode-se falar o que bem quiser na presença deles, afinal, eles não ouvem, logo não sentem.
Um dos locais em que meu superpoder mais se manifesta é em centros de compras. Entro na loja, rodo, me enrosco nas roupas e ninguém me vê nem me atende.
Minha invisibilidade, em alguns casos, é tão grande que, quando estou acompanhado, escolho lá uma pula-brejo qualquer para comprar, experimento e, quando me dirijo ao caixa, é para quem está comigo que perguntam: "Vai ser com cheque ou com cartão?". Isso também é comum em bares e restaurantes: "Ele vai comer o quê?"
Já entrei no Museu Rainha Sofia, em Madri, sem que me falassem nada nem me pedissem ingresso, como é feito com os outros visitantes. Fui considerado café com leite. Se tivesse uma pochete de turista um pouquinho maior, "Guernica", do Picasso, corria sérios riscos.
É duro ser ignorado ou mesmo que finjam que não estou presente. Talvez o fundo disso seja um conceito errado de que cadeirantes não falam ou mesmo que terão reações estranhas quando abordados.
Entendo que haja receio e uma falta de, digamos, habilidade para rolar uma interação entre uma pessoa com deficiência e um "mortal" comum. Mas o p ior dos mundos é imaginar que quem tem algum tipo de limitação física ou sensorial não pode nada, é um estropício.
Mesmo nos casos de deficiências severas, as pessoas, à sua maneira, se comunicam, atuam em sociedade, são capazes de manter relação com o outro. Basta querer entendê-las. E outra: elas sabem que estão "em desvantagem".
Então, afora exceções, cegos podem ouvir perfeitamente. Não é preciso berrar no ouvido deles. Os surdos são capazes de entender a comunicação dos falantes. E, por fim, cadeirantes podem interagir.